Ibovespa sobe 3,5% em julho: o que explica a virada
Após quatro meses seguidos de perdas, o Ibovespa fechou julho em alta de 3,47%. Fluxo estrangeiro, aposta em corte da Selic e dólar mais fraco explicam a virada.
Quatro meses de queda ficaram para trás
O Ibovespa encerrou julho aos 177.999 pontos, acumulando valorização de 3,47% no mês. A alta interrompeu uma sequência de quatro meses consecutivos de perdas, um ciclo que vinha deteriorando o humor dos investidores desde março.
Ao mesmo tempo, o dólar à vista recuou 1,79% frente ao real no período, fechando a última sessão cotada a R$ 5,07. A combinação entre moeda mais fraca e bolsa em alta costuma refletir um cenário de entrada de capital externo, e foi exatamente isso que aconteceu.
O mês também trouxe um fato relevante do lado monetário: a curva de juros futuros passou a precificar integralmente um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião do Copom marcada para 5 de agosto. Se confirmado, a taxa básica cairia de 14,25% para 14% ao ano, o que representaria mais um passo na flexibilização monetária iniciada pelo Banco Central.
Inflação mais fraca abriu espaço para revisões de bancos
O principal catalisador das apostas em corte de juros foi a desaceleração dos indicadores de preços. O IPCA de junho acumulou alta de 4,64% em 12 meses, ainda acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central, mas em trajetória de alívio. Já o IPCA-15 de julho, considerado a prévia da inflação oficial, recuou de 4,80% para 4,52% na mesma base.
Esses números provocaram uma onda de revisões entre grandes instituições financeiras. O Bank of America alterou sua projeção e agora espera uma redução de 25 pontos-base na próxima decisão do Copom, tratando-a como a última flexibilização do ciclo. Já o Itaú BBA adotou uma leitura mais construtiva: passou a projetar a Selic em 13,75% ao fim de 2026, abaixo da estimativa anterior de 14%, enxergando desaceleração mais intensa da atividade econômica e menor pressão inflacionária.
Para quem acompanha o mercado financeiro brasileiro, essa mudança de tom dos bancos costuma preceder movimentos mais amplos nos preços dos ativos. Quando instituições de grande porte revisam projeções de juros para baixo, o efeito tende a se espalhar por toda a curva, beneficiando ações, fundos imobiliários e títulos prefixados.
Tarifas dos EUA trouxeram ruído, mas não travaram o rali
Nem tudo foi otimismo em julho. O governo dos Estados Unidos anunciou duas tarifas adicionais sobre produtos brasileiros que, somadas, alcançam 37,5%. Segundo dados compilados pela Global Trade Alert, o Brasil saltou para a posição de segundo país com a maior tarifa efetiva média entre os parceiros comerciais americanos, com alíquota de 17,7%. Apenas a China, com 27,2%, enfrenta barreira mais pesada.
Na prática, o impacto pode atingir cadeias exportadoras de commodities e manufaturados. Como resposta, o governo federal anunciou a liberação de R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento para empresas afetadas. A medida visa amortecer os efeitos de curto prazo, mas não resolve a questão estrutural da guerra comercial em curso.
Mesmo diante desse ruído, o mercado demonstrou resiliência. A leitura predominante entre analistas é que os preços das ações já embutiam cenários adversos após quatro meses de correção, o que criou uma assimetria favorável para posições de médio e longo prazo.
Fed manteve juros, mas divergência interna chamou atenção
No cenário externo, o Federal Reserve manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano pela quinta vez consecutiva. Até aí, dentro do esperado. O que surpreendeu foi a dissidência: três dos nove diretores votaram por uma alta de 0,25 ponto percentual, algo que não acontecia desde 2016.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, tratou a divergência como saudável, afirmando que buscou uma “boa briga de família” dentro do comitê. Apesar do tom conciliador, a falta de sinalização clara sobre os próximos passos manteve a incerteza nos mercados globais. Os dados de emprego e inflação de julho nos Estados Unidos serão determinantes para calibrar as expectativas para a reunião de setembro.
Há ainda o risco de um novo shutdown do governo americano em setembro. O presidente Donald Trump tem pressionado o Congresso a aprovar projetos que seguem travados nas duas casas legislativas, e a possibilidade de paralisia orçamentária adiciona mais uma camada de volatilidade ao ambiente internacional.
O que se destacou e o que decepcionou no Ibovespa
Entre os 79 papéis da carteira teórica do índice, a CSN Mineração (CMIN3) registrou o melhor desempenho mensal. A valorização foi impulsionada por um programa de recompra de ações e pelo fluxo comprador, além de expectativas em torno da possível venda da divisão de cimentos da CSN. Estimativas de mercado avaliam o negócio de cimento em mais de R$ 10 bilhões, valor relevante diante dos cerca de R$ 22 bilhões em vencimentos de dívida concentrados entre 2026 e 2028.
Na ponta oposta, a Direcional Engenharia (DIRR3) teve o pior desempenho do mês, pressionada pela prévia operacional do segundo trimestre, cujos números dividiram opiniões entre analistas. A temporada de balanços do 2T26 ganhou tração nos últimos pregões de julho e continuará movimentando o mercado em agosto.
O que esperar de agosto para a bolsa brasileira
O mês de agosto começa com dois eventos de alto impacto: a decisão do Copom no dia 5, onde o mercado já precifica corte de 0,25 ponto, e a continuidade dos balanços corporativos do segundo trimestre. A combinação entre juros em queda, câmbio favorável e valuations descontados pode sustentar o apetite por renda variável brasileira.
Por outro lado, o impacto das tarifas americanas ainda não apareceu nos números das empresas. Os balanços do segundo trimestre serão o primeiro teste real da resiliência dos exportadores brasileiros diante da nova barreira comercial. Se os resultados vierem abaixo das expectativas, o otimismo recente pode perder fôlego rapidamente.
Para o investidor com horizonte mais longo, o cenário sugere que o pior da correção pode ter ficado para trás. Mas confundir uma recuperação técnica com uma tendência consolidada seria prematuro. Os próximos 30 dias trarão dados suficientes para separar o rali conjuntural de uma mudança estrutural de direção.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.