Finanças

IA sacode US$ 3 tri no Nasdaq em duas semanas: o que está por trás

Mercado oscilou entre pânico com riscos existenciais da IA e euforia com novos produtos, adicionando US$ 3 trilhões ao Nasdaq 100 em dias.

IA sacode US$ 3 tri no Nasdaq em duas semanas: o que está por trás
Foto: StockRadars Co., / Unsplash

Em duas semanas, o mercado americano passou do medo existencial à euforia consumista por causa da mesma tecnologia: a inteligência artificial. Entre 12 e 27 de setembro, o Nasdaq 100 primeiro derreteu US$ 600 bilhões e depois adicionou US$ 3 trilhões em valor de mercado. Os fundamentos das empresas não mudaram. O que mudou foi a narrativa.

O episódio ilustra um padrão que se repete desde 2023: o mercado de ações global passou a funcionar como uma caixa de ressonância para qualquer declaração, produto ou temor relacionado à IA. E os investidores que tentam surfar essas ondas estão descobrindo que a volatilidade narrativa pode ser tão destrutiva quanto uma correção fundamentalista.

O gatilho do pânico: CEOs pedem freio na IA

Tudo começou quando Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou um artigo pedindo desaceleração no desenvolvimento de modelos avançados de IA. Em poucas horas, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceX, endossaram a proposta. Para um mercado que precifica crescimento exponencial nos gastos com infraestrutura de IA, a mensagem soou como um alarme de incêndio.

A reação foi proporcional ao medo. Entre 14 e 15 de setembro, o Nasdaq 100 recuou 1,5%, eliminando mais de US$ 600 bilhões em capitalização. Empresas de infraestrutura como CoreWeave e Lam Research caíram mais de 9% cada. A lógica era simples: se o desenvolvimento desacelera, os gastos com chips, data centers e equipamentos desaceleram junto. E boa parte do rali de IA nos últimos anos foi construída justamente sobre a expectativa de gastos crescentes das big techs.

A virada: assistente Muse da Meta reacende a euforia

Uma semana depois, o humor do mercado virou completamente. A Meta lançou a Muse, uma assistente pessoal de IA que rapidamente ganhou tração entre usuários. A popularidade do produto reacendeu a tese de que os bilhões investidos em IA estão, sim, gerando retorno tangível.

As ações da Meta saltaram 11% em um único pregão, colocando a empresa no caminho de registrar seu melhor mês em mais de uma década. A Arm Holdings avançou 17%. Intel e AMD subiram mais de 9% cada. O índice de semicondutores SOX acumulou alta de 6% em apenas dois dias, ajudando o Nasdaq 100 a cravar seu primeiro recorde desde o início de junho.

Mas a euforia teve vítimas colaterais. Empresas cujo modelo de negócio depende de cobranças recorrentes e poder de precificação foram punidas, já que o mercado passou a precificar que agentes de IA farão comparações de preço, negociações e cancelamentos de forma muito mais eficiente. A seguradora Allstate caiu 8,9% na semana. A operadora Charter Communications recuou 12%. A rede de academias Planet Fitness perdeu 14%.

O padrão se repete desde a DeepSeek

Esse tipo de oscilação brusca não é novidade. No início de 2025, o lançamento de um modelo de IA de baixo custo pela chinesa DeepSeek provocou uma liquidação brutal em semicondutores. A Nvidia chegou a cair 17% em um único dia, sob o temor de que chips caros se tornariam obsoletos. Como mostramos em análises anteriores sobre o setor de tecnologia, esses receios se mostraram exagerados. Os gastos com IA não apenas se mantiveram como aceleraram.

Mas a diferença agora é de escala. A IA responde por uma fatia cada vez maior da economia e do mercado de capitais. Qualquer sinal, positivo ou negativo, é amplificado por um ecossistema de investidores hipersensíveis. E existem riscos concretos no horizonte que tornam essa sensibilidade racional: juros em alta encarecem o financiamento de data centers, e cresce a oposição local à construção dessas instalações.

Nvidia pela metade do preço: oportunidade ou armadilha?

A volatilidade recente criou uma situação curiosa. Depois de dobrar de valor entre janeiro e junho, o índice SOX despencou 29% até a mínima de 29 de julho. Mesmo com a recuperação das últimas semanas, o índice ainda acumula queda de 13% em relação ao pico.

A Nvidia, líder incontestável do mercado de chips para IA, atingiu recentemente sua avaliação mais barata em mais de uma década. Segundo dados da Bloomberg, a empresa negocia a menos de 17 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, metade do múltiplo observado em 2025. Para gestores como JoAnne Feeney, da Advisors Capital Management, a correção retirou excessos e abriu espaço para valorização. “Não é preciso acreditar que esse crescimento continuará por cinco anos para justificar as ações de Nvidia e Broadcom”, argumenta.

Outros são mais cautelosos. Daniel Pilling, da Sands Capital Management, aponta que ninguém sabe exatamente o que está por vir para a tecnologia, o que exige humildade na hora de montar posições.

O que isso significa para quem investe

A lição das últimas duas semanas é que o mercado de IA está operando sob um regime de volatilidade narrativa. Fundamentos importam menos do que a manchete do dia. Para investidores de longo prazo, isso cria oportunidades, já que as correções tendem a ser efêmeras quando os gastos corporativos com IA seguem crescendo. Para quem opera no curto prazo, o risco é assimétrico: as quedas são rápidas, mas as recuperações também.

O cenário macro adiciona uma camada de complexidade. Com juros em trajetória de alta, o custo de capital para projetos de IA aumenta. Isso pode não frear as big techs, que têm caixa abundante, mas pressiona startups e empresas menores que dependem de financiamento externo.

No fim, a pergunta que o mercado ainda não respondeu é se os trilhões investidos em infraestrutura de IA gerarão retornos proporcionais. O sucesso da Muse sugere que sim, pelo menos em produtos voltados ao consumidor. Mas a história dos ciclos tecnológicos mostra que a distância entre investimento e retorno pode ser longa, e que nem todos os apostadores sobrevivem ao percurso.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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