Finanças

IA puxa Ásia, mas guerra EUA-Irã limita ganhos

Nikkei salta quase 2% com rali de chips e IA, enquanto Brent acima de US$ 96 e impasse no Estreito de Ormuz mantêm investidores em alerta.

IA puxa Ásia, mas guerra EUA-Irã limita ganhos
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O pregão asiático desta quarta-feira (30) cristalizou um dilema que tem definido o humor dos mercados globais nas últimas semanas: de um lado, a euforia com inteligência artificial segue capaz de mover índices inteiros; do outro, o risco geopolítico impõe um teto cada vez mais visível para qualquer rali sustentado.

O Nikkei, principal índice do Japão, fechou em alta de 1,94%, aos 66.753 pontos. O destaque ficou com o SoftBank Group, que saltou 6,55% em Tóquio. O conglomerado de Masayoshi Son, investidor relevante na OpenAI, funciona hoje como um termômetro direto da confiança do mercado no ciclo de monetização da IA generativa.

Fabricantes de chips japonesas acompanharam o movimento. Rohm Co. avançou 1,40% e Renesas Electronics subiu 0,55%. Em Taiwan, o Taiex ganhou 0,65%, refletindo a mesma tese que sustenta a TSMC como peça central da cadeia global de semicondutores.

O peso do petróleo acima de US$ 96

Se a IA puxou os índices para cima, o petróleo tratou de segurar o entusiasmo. O Brent operava em alta de 0,50%, acima de US$ 96,50 o barril. Antes do início do conflito entre Estados Unidos e Irã, no fim de fevereiro, a commodity girava em torno de US$ 72. Isso representa uma valorização superior a 34% em poucos meses, um choque de oferta que pressiona cadeias produtivas e bancos centrais ao redor do mundo.

O impasse gira em torno do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido globalmente. Mediadores internacionais seguem tentando costurar um acordo entre Washington e Teerã para reabrir a via marítima, mas o presidente Donald Trump rejeitou, na semana passada, a última proposta iraniana. Enquanto o estreito permanecer bloqueado ou ameaçado, o prêmio de risco sobre o barril tende a se manter elevado.

O efeito colateral mais imediato aparece nos rendimentos dos Treasuries americanos, que atingiram os maiores níveis em décadas. Como discutimos em análises recentes sobre o cenário macro, juros americanos mais altos drenam capital de mercados emergentes e comprimem valuations de ativos de risco, incluindo ações de tecnologia e criptomoedas.

China entrega PMIs positivos, mas cautela prevalece

Na China continental, os mercados fecharam mistos. O Xangai Composto subiu 0,31%, para 3.842 pontos, enquanto o Shenzhen Composto recuou 0,23%. Os índices de atividade industrial (PMIs) vieram acima das expectativas, sinalizando que a economia chinesa segue resiliente mesmo diante das tensões comerciais.

O volume de negócios, porém, foi contido. As bolsas da China continental entram agora em recesso pelo feriado nacional, com reabertura prevista apenas para 7 de outubro. Hong Kong também não opera amanhã. Esse calendário tende a reduzir a liquidez regional nos próximos dias, o que pode amplificar a volatilidade em outros mercados asiáticos.

O Hang Seng avançou 0,37% em Hong Kong, aos 24.613 pontos. Já o sul-coreano Kospi devolveu ganhos intradiários e fechou em queda de 0,48%, em Seul. A Coreia do Sul, fortemente dependente de exportações, sente de forma mais aguda a incerteza sobre cadeias globais de suprimento quando o petróleo dispara.

O que o investidor brasileiro deve observar

Para quem acompanha mercados a partir do Brasil, três variáveis merecem atenção. A primeira é o preço do petróleo. Um Brent sustentado acima de US$ 95 pressiona a inflação doméstica via combustíveis e fretes, dificultando o trabalho do Banco Central no ciclo de corte de juros. Como abordamos na cobertura sobre política monetária, cada dólar a mais no barril muda o cálculo da Selic.

A segunda variável são os Treasuries. Rendimentos americanos em patamares elevados competem diretamente com ativos brasileiros por capital estrangeiro. Se os yields de 10 anos seguirem subindo, o fluxo para a B3 e para títulos locais tende a diminuir.

A terceira é a tese de IA. O rali concentrado em poucas empresas que de fato monetizam inteligência artificial já não é exclusividade de Wall Street. Como mostra o salto do SoftBank em Tóquio, o mercado global está disposto a pagar prêmios crescentes por exposição ao tema. A questão é se esse prêmio se justifica quando o cenário macro trabalha contra.

Na Oceania, a bolsa australiana fechou em alta de 0,92%, com o S&P/ASX 200 aos 8.789 pontos, beneficiada pela exposição a commodities e pelo perfil mais defensivo de seu mercado acionário.

Risco geopolítico como variável estrutural

O conflito entre EUA e Irã já dura mais de dois meses e não dá sinais de resolução rápida. Diferente de choques de oferta pontuais, como ataques a instalações sauditas no passado, o bloqueio ou ameaça ao Estreito de Ormuz é um evento com potencial de reconfigurar preços de energia de forma mais duradoura.

Se o barril se consolidar na faixa de US$ 90 a US$ 100, bancos centrais de economias desenvolvidas terão menos espaço para cortar juros. Isso significa que a liquidez global, combustível de praticamente todos os ralis dos últimos 15 anos, fica mais restrita por mais tempo. Para mercados sensíveis a liquidez, como o de criptomoedas, esse cenário é particularmente desafiador.

O pregão de hoje na Ásia resume o dilema dos próximos meses: narrativas de crescimento como IA seguem poderosas o bastante para mover mercados, mas o pano de fundo geopolítico e macroeconômico impõe um custo cada vez maior para manter posições otimistas. O investidor que ignorar qualquer um dos dois lados dessa equação estará assumindo risco desnecessário.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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