Criptomoedas

Harvard vende ETF de ether e Abu Dhabi reforça aposta em bitcoin

A universidade mais rica do mundo abandonou sua exposição a ether, enquanto o fundo soberano Mubadala segue ampliando posições em bitcoin. Os caminhos opostos revelam como o dinheiro institucional está escolhendo lados no mercado cripto.

Harvard vende ETF de ether e Abu Dhabi reforça aposta em bitcoin
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

O endowment de Harvard, avaliado em mais de US$ 50 bilhões e considerado o maior fundo universitário do planeta, se desfez de suas posições em ETFs de ether. No caminho oposto, o Mubadala Investment Company, fundo soberano de Abu Dhabi com US$ 300 bilhões sob gestão, ampliou suas posições em bitcoin ao longo dos últimos meses.

A informação veio à tona com a atualização dos formulários 13F junto à SEC, obrigatórios para gestores institucionais nos Estados Unidos. O contraste entre as duas decisões ilustra uma tendência clara entre os grandes alocadores globais: o bitcoin está consolidando seu espaço como ativo institucional de referência. O ether, por enquanto, não consegue o mesmo.

Por que Harvard abandonou o ether

A Harvard Management Company havia adquirido cotas de ETFs de ether listados nos EUA no segundo semestre de 2024, pouco depois da aprovação dos produtos pela SEC. A posição era modesta, abaixo de US$ 2 milhões, mas o valor simbólico era enorme: a universidade de maior prestígio do mundo sinalizava confiança no segundo maior criptoativo.

A venda integral dessas posições muda o sinal. O ether acumulou desempenho inferior ao bitcoin em praticamente todos os trimestres desde a aprovação dos ETFs spot. Enquanto o bitcoin superou os US$ 100 mil e se consolidou acima desse patamar, o ether oscilou sem direção definida, pressionado pela concorrência de blockchains mais rápidas como a Solana e pelo crescimento tímido de receitas da rede Ethereum.

Para gestores conservadores como os de endowments universitários, manter um ativo volátil com performance relativa fraca representa um custo de oportunidade difícil de justificar perante comitês de investimento. A decisão de Harvard ecoa movimentos similares de outros endowments menores que reduziram exposição a altcoins ao longo de 2025.

Mubadala dobra a aposta em bitcoin

Na direção oposta, o Mubadala ampliou sua posição em ETFs de bitcoin. O fundo soberano de Abu Dhabi já havia revelado posições no iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, no início de 2025. Os dados mais recentes mostram aumento consistente da alocação.

A estratégia se encaixa no contexto mais amplo dos Emirados Árabes Unidos. O país se posiciona como hub global de ativos digitais, com regulação clara, incentivos fiscais e infraestrutura bancária adaptada para empresas cripto. O Mubadala não está sozinho: outros fundos soberanos do Golfo também aumentaram exposição a bitcoin nos últimos trimestres.

O que chama atenção é o perfil do alocador. Fundos soberanos são, por definição, investidores de longo prazo com horizonte de décadas. Quando um fundo desse porte aumenta posição, o mercado interpreta como validação da tese de reserva de valor do bitcoin, não como trade especulativo.

O dinheiro institucional está escolhendo bitcoin

O movimento simultâneo de Harvard e Mubadala reforça uma tendência documentada pelos dados de fluxo dos ETFs. Desde a aprovação dos produtos spot nos EUA, os ETFs de bitcoin acumularam mais de US$ 40 bilhões em entradas líquidas. Os ETFs de ether, por sua vez, tiveram fluxo modesto e enfrentaram semanas consecutivas de saídas.

A explicação é simples: o bitcoin oferece uma narrativa clara para investidores tradicionais. Reserva de valor digital, hedge contra desvalorização monetária, ativo descorrelacionado. O ether, por outro lado, exige uma tese mais complexa, ligada ao crescimento do ecossistema de contratos inteligentes e à geração de receita da rede. Para um comitê de investimentos de uma universidade ou fundo soberano, a primeira história é muito mais fácil de defender.

Os dados de mercado financeiro global mostram que a participação institucional em bitcoin cresceu de 15% para 28% do mercado total entre 2024 e 2026, segundo estimativas da Fidelity Digital Assets. A concentração em bitcoin, e não em altcoins, é o padrão dominante.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Para quem investe no Brasil, o recado é relevante. A CVM já aprovou diversos ETFs de criptomoedas na B3, tanto de bitcoin quanto de ether. Mas o comportamento dos maiores alocadores do mundo sugere cautela com diversificação excessiva em altcoins sem uma tese clara de diferenciação.

O bitcoin segue sendo a porta de entrada institucional para o mercado cripto. Enquanto o ether não encontrar um catalisador forte, como crescimento acelerado de receita da rede ou uma narrativa institucional mais convincente, a tendência de concentração em bitcoin entre grandes alocadores deve continuar.

A decisão de Harvard é simbólica, mas não surpreendente. Endowments são gestores avessos a risco e sensíveis à performance relativa. Como já reportamos em análises anteriores, o dinheiro institucional tende a ser pragmático: vai para onde os números justificam. E, por enquanto, os números falam a favor do bitcoin.

A corrida por ETFs de altcoins, como os de BNB protocolados recentemente pela VanEck e Grayscale, mostra que a indústria financeira quer ampliar o cardápio. Mas uma coisa é criar produto. Outra é convencer um comitê de investimentos de Harvard a comprar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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