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Google testa compras via Gemini na Índia e mira o e-commerce com IA

Google está testando um botão de compra dentro do Gemini e do AI Mode na Índia, permitindo transações diretas com a Flipkart sem sair da interface de IA.

Google testa compras via Gemini na Índia e mira o e-commerce com IA
Foto: Pavel Danilyuk / Unsplash

Descobrir um produto por meio de inteligência artificial já virou rotina para milhões de pessoas. Comprar esse produto sem sair da interface de IA, no entanto, ainda é território novo. O Google acaba de dar um passo concreto nessa direção ao testar, na Índia, um botão de compra embutido no Gemini e no AI Mode que leva o usuário direto ao checkout da Flipkart, gigante do e-commerce controlada pelo Walmart.

O teste, ainda restrito a um grupo de usuários e a categorias específicas como smartphones, eletrônicos e acessórios para celular, sinaliza uma mudança de postura. A empresa não quer mais apenas recomendar produtos. Quer intermediar a transação inteira, do início ao pagamento, dentro do seu ecossistema de IA.

Como funciona o botão de compra dentro do Gemini

Na experiência em teste, alguns usuários indianos passaram a ver um botão “Buy” ao lado de listagens selecionadas da Flipkart exibidas no Gemini e no AI Mode do Google. Ao clicar, o comprador é direcionado para um fluxo de checkout com a identidade visual da Flipkart, sem precisar abrir o aplicativo ou o site da varejista separadamente.

É diferente do que o Google havia demonstrado anteriormente com o Universal Commerce Protocol (UCP), um padrão aberto lançado no início deste ano que permite que agentes de IA interajam com varejistas ao longo de toda a jornada de compra. No caso do UCP, o checkout acontece em um ambiente hospedado pelo próprio Google. Já no teste com a Flipkart, o fluxo de pagamento mantém a marca da varejista, ainda que funcione dentro da interface de IA.

A distinção é relevante porque indica que o Google está experimentando mais de um modelo de integração comercial. Um deles centraliza a experiência no Google. O outro preserva a identidade do varejista. Qual deles prevalecerá dependerá, em boa medida, do apetite dos lojistas por ceder controle sobre a relação com o cliente.

Por que a Índia é o laboratório perfeito para esse teste

A escolha da Índia como mercado de teste não é acidental. O país é o segundo maior mercado de internet do mundo, com mais de um bilhão de assinantes de banda larga e móvel. A competição entre Flipkart e Amazon no mercado indiano é uma das mais acirradas do e-commerce global, e se intensifica ainda mais durante a chamada “festive season”, período de grandes promoções que movimenta bilhões de dólares entre outubro e novembro.

O Google planeja expandir a funcionalidade de compra para mais usuários justamente antes dessa temporada de vendas, segundo pessoas a par dos planos. O timing é estratégico: capturar uma fatia da intenção de compra durante o pico de consumo do ano.

Há também um componente financeiro na equação. O Google investiu cerca de 350 milhões de dólares na Flipkart em 2024, em uma rodada liderada pelo Walmart, adquirindo uma participação minoritária. A relação entre as duas empresas, portanto, vai além de uma parceria tecnológica. Existe alinhamento de incentivos econômicos para que a integração funcione.

A corrida pelo “agentic commerce” e o que isso muda no varejo

O teste do Google com a Flipkart não acontece no vácuo. Empresas como a OpenAI também estão adicionando capacidades de comércio aos seus produtos de IA, buscando evoluir do papel de “assistente de pesquisa” para o de “agente de compra”. O conceito de “agentic commerce”, no qual a IA não apenas sugere, mas executa ações em nome do usuário, está se tornando o próximo campo de batalha entre as big techs.

Para o varejo global, as implicações são profundas. Se o consumidor se acostumar a comprar diretamente pela interface de IA, o tráfego orgânico que hoje vai para sites e aplicativos de e-commerce pode migrar para plataformas como Gemini, ChatGPT ou Claude. Isso reconfiguraria a distribuição de poder no comércio digital, como temos acompanhado na cobertura de tecnologia do BlockTrends.

Varejistas menores, que dependem de buscas no Google para gerar vendas, podem se beneficiar caso o UCP se consolide como padrão aberto. Mas também correm o risco de perder relevância se as plataformas de IA priorizarem parceiros com quem já têm relação financeira, como é o caso do Google com a Flipkart.

O que ainda falta para o modelo escalar

Por enquanto, o botão de compra não aparece para todos os varejistas listados nos resultados do Gemini e do AI Mode. Listagens da Amazon na Índia, por exemplo, aparecem ao lado das da Flipkart, mas sem a opção de compra direta. Isso sugere que a funcionalidade depende de integração bilateral, e não de uma abertura universal.

A escalabilidade do modelo também enfrenta desafios regulatórios. Em mercados como a União Europeia e o Brasil, a integração vertical entre busca, IA e comércio pode atrair escrutínio antitruste. O avanço da IA em setores como o financeiro já levanta questões semelhantes sobre concentração de poder.

Outro ponto é a confiança do consumidor. Comprar um smartphone por 50 mil rúpias (cerca de 600 dólares) dentro de uma interface de chatbot exige um nível de segurança e garantia que ainda precisa ser construído. A experiência de checkout precisa ser tão confiável quanto a de um aplicativo de e-commerce tradicional, algo que o setor de fintechs vem aprendendo na prática.

O que isso significa para quem acompanha o setor

O teste na Índia pode parecer localizado, mas funciona como um balão de ensaio para o que o Google pretende fazer globalmente. Se a integração entre Gemini e Flipkart provar que aumenta conversão sem deteriorar a experiência do usuário, é razoável esperar que o modelo seja replicado em outros mercados e com outros varejistas.

Para investidores e profissionais de tecnologia, o sinal é claro: a monetização dos modelos de IA está migrando de assinaturas e APIs para comissões sobre transações. Quem controlar a jornada de compra, do primeiro prompt ao último clique no botão de pagamento, capturará uma fatia desproporcional do valor gerado pelo e-commerce global.

A pergunta que resta é se o consumidor quer, de fato, que sua IA favorita também seja seu shopping center. A resposta a essa pergunta definirá o próximo capítulo do varejo digital.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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