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Google perde busca de voos e hotéis na Europa após multa bilionária

Comissão Europeia multou o Google em 890 milhões de euros por favorecer serviços próprios na busca e restringir desenvolvedores na Play Store.

Google perde busca de voos e hotéis na Europa após multa bilionária
Foto: Sarah Blocksidge / Unsplash

A Comissão Europeia decidiu que o Google precisa mudar radicalmente a forma como apresenta resultados de busca no continente. A multa de 890 milhões de euros aplicada ao gigante de tecnologia não é apenas mais uma penalidade regulatória. É o sinal mais concreto de que o Ato dos Mercados Digitais (DMA, na sigla em inglês) tem dentes e está disposto a usá-los.

Na prática, funcionalidades que milhões de europeus usam diariamente, como ver preços de voos, comparar tarifas de hotéis e checar disponibilidade de restaurantes diretamente nos resultados de busca, deverão ser removidas ou profundamente alteradas. O Google tem 60 dias para se adequar, sob risco de multas periódicas de até 5% do seu faturamento global.

O que o Google fez de errado, segundo a Europa

A investigação da Comissão Europeia identificou duas violações distintas ao DMA, legislação que estabelece regras para grandes plataformas digitais consideradas essenciais para o acesso de consumidores e empresas a serviços online.

A primeira infração, responsável por 460 milhões de euros da multa, envolve o Google Search. O órgão regulador concluiu que a empresa dava tratamento preferencial aos próprios serviços nos resultados de pesquisa. Quando alguém buscava “hotel em Lisboa”, por exemplo, o Google exibia seus próprios comparadores de preço com destaque visual antes de mostrar concorrentes como Booking, Kayak ou Trivago. A Comissão entende que plataformas sujeitas ao DMA devem aplicar critérios “transparentes, justos e não discriminatórios” na classificação dos resultados.

A segunda infração, que gerou multa de 430 milhões de euros, mira a Google Play Store. A investigação apontou que o Google restringia a liberdade de desenvolvedores para informar usuários sobre formas alternativas de contratar serviços fora da loja oficial de aplicativos. Essa prática, conhecida como anti-steering, impedia que empresas promovessem ofertas mais baratas disponíveis em seus próprios canais. É o tipo de restrição que afeta diretamente o ecossistema de startups e fintechs que dependem de lojas de aplicativos para distribuir seus produtos.

Por que essa multa é diferente das anteriores

O Google já acumula um histórico considerável de penalidades na Europa. Entre 2017 e 2019, a companhia recebeu multas que totalizaram mais de 8 bilhões de euros em casos envolvendo o Google Shopping, o Android e o AdSense. A diferença agora é o instrumento legal utilizado.

Enquanto as multas anteriores se baseavam em leis antitruste tradicionais, com processos que duravam anos e eram frequentemente contestados em tribunais, o DMA funciona de forma diferente. A legislação, que entrou em vigor em março de 2024, define regras ex ante, ou seja, obrigações prévias que as grandes plataformas precisam cumprir independentemente de haver ou não denúncia de concorrentes. A velocidade da decisão também mudou. O ciclo entre investigação e multa se tornou significativamente mais curto.

O prazo de 60 dias para adequação é outro indicativo da postura mais dura. Se o Google não cumprir, as multas periódicas podem atingir valores que fariam os 890 milhões de euros parecerem troco. Para uma empresa com receita global superior a 300 bilhões de dólares em 2025, 5% do faturamento representa algo em torno de 15 bilhões de dólares por infração continuada.

O dilema entre conveniência e concorrência

Kent Walker, presidente de Assuntos Globais do Google, argumentou que a decisão poderá levar à retirada de recursos considerados úteis pelos usuários europeus. É um argumento que tem mérito parcial. A visualização instantânea de preços de voos e hotéis nos resultados de busca é, objetivamente, conveniente para o consumidor final.

Mas o contra-argumento regulatório também tem peso. Quando o Google agrega e exibe essas informações diretamente na página de busca, o incentivo para o usuário clicar no site do concorrente diminui drasticamente. Metabuscadores de viagem e plataformas de reserva perdem tráfego, receita e, eventualmente, relevância. A concentração de mercado em poucas plataformas é um tema que transcende o setor de tecnologia e afeta toda a cadeia econômica digital.

Esse embate entre conveniência e concorrência leal não é exclusivo da busca. Ele se repete na Play Store, onde desenvolvedores são obrigados a usar o sistema de pagamento do Google e pagar comissões de até 30%, mesmo quando poderiam oferecer preços menores em seus próprios canais. A decisão europeia determina que o Google permita que desenvolvedores divulguem ofertas e concluam contratos com usuários dentro e fora da loja, sem restrições técnicas ou contratuais.

O efeito cascata sobre big techs e o mercado global

A decisão contra o Google não existe no vácuo. Apple, Meta e Amazon também estão sob escrutínio do DMA. A Apple, por exemplo, já foi forçada a permitir lojas alternativas de aplicativos no iPhone na Europa. A Meta enfrenta investigações sobre a forma como utiliza dados pessoais para publicidade direcionada.

O padrão europeu tende a criar efeito cascata. Quando a União Europeia implementou o GDPR em 2018, legislações semelhantes surgiram no Brasil (LGPD), Califórnia (CCPA) e dezenas de outros países. O mesmo pode acontecer com o DMA. A regulação de plataformas digitais dominantes está se tornando pauta global, e o modelo europeu serve como referência para legisladores em todo o mundo.

Para o investidor, o recado é claro. O ambiente regulatório para big techs está mais restritivo, e o custo de compliance tende a crescer. Isso não significa que essas empresas deixarão de ser lucrativas, mas as margens de manobra para práticas que privilegiam ecossistemas fechados estão diminuindo. A era em que grandes plataformas podiam usar sua posição dominante para canalizar tráfego e receita para serviços próprios sem consequências regulatórias está ficando para trás, pelo menos na Europa.

A Comissão Europeia reconheceu que o Google já iniciou testes para adequar parte de seus serviços às exigências do DMA, incluindo mudanças na exibição de resultados relacionados a compras, hotéis e voos, além de propostas para recursos de inteligência artificial como AI Overviews. O órgão classificou essas iniciativas como “progresso substancial”, mas deixou claro que a vigilância continua.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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