Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Criptomoedas

Fireblocks nega venda à Visa por US$ 2,5 bi: o que está em jogo

Empresa de custódia cripto desmentiu rumores de aquisição pela Visa. Valuation de US$ 2,5 bi representaria queda de 69% frente ao pico de 2022.

Fireblocks nega venda à Visa por US$ 2,5 bi: o que está em jogo
Foto: Worldspectrum / Unsplash

O mercado de infraestrutura cripto ganhou um novo capítulo de especulação nesta semana. A Fireblocks, uma das principais empresas de custódia digital do mundo, veio a público negar que esteja em negociações avançadas para ser adquirida pela Visa por US$ 2,5 bilhões. O desmentido veio logo após a circulação de relatos citando fontes anônimas sobre uma suposta transação em estágio avançado.

“Estamos cientes dos rumores sobre uma possível aquisição da Fireblocks pela Visa. Isso é novidade para nós e não é verdade no momento”, declarou um porta-voz da empresa. A Visa, por sua vez, não se manifestou publicamente sobre o assunto.

Independentemente de a transação ser real ou não, o episódio levanta questões importantes sobre o momento do mercado de infraestrutura cripto, a compressão de valuations no setor e o apetite de gigantes financeiros tradicionais pela tecnologia blockchain.

O que a Fireblocks faz e por que atrai interesse

A Fireblocks é especializada em custódia de ativos digitais utilizando tecnologias avançadas de fragmentação de chaves criptográficas, como o MPC (multi-party computation). Em termos simples, a empresa permite que instituições financeiras armazenem e movimentem criptomoedas de forma segura, sem que uma única chave privada fique exposta em um ponto de falha.

Essa tecnologia é considerada o padrão ouro para custódia institucional. Bancos, exchanges e gestoras de ativos usam soluções como a da Fireblocks para operar com cripto sem correr os riscos que marcaram colapsos como o da FTX, onde a ausência de controles adequados sobre chaves privadas resultou na perda de bilhões. Como já analisamos em nossa cobertura sobre o mercado de criptomoedas, a custódia institucional é uma das camadas mais críticas da infraestrutura do setor.

Em 2022, a Fireblocks levantou US$ 550 milhões em uma rodada que avaliou a empresa em US$ 8 bilhões. Na época, o mercado vivia o auge do ciclo de venture capital cripto, com valuations inflados pela liquidez abundante e pela narrativa de adoção institucional acelerada.

Valuation em queda de 69%: o que isso revela sobre o setor

Se os rumores de US$ 2,5 bilhões tivessem fundamento, a transação representaria uma queda de aproximadamente 69% em relação ao pico de valuation da Fireblocks. Esse tipo de compressão não é exclusivo da empresa. É um fenômeno generalizado no setor de infraestrutura cripto.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

Entre 2021 e 2022, dezenas de empresas do ecossistema levantaram capital com múltiplos que refletiam expectativas de crescimento que, em muitos casos, não se materializaram. O inverno cripto de 2022 e 2023, combinado com o aperto monetário global, forçou uma reavaliação brutal. Empresas que captaram a US$ 5 ou 10 bilhões hoje enfrentam rodadas down ou busca por saídas estratégicas com desconto significativo.

A dinâmica não é muito diferente do que aconteceu com fintechs tradicionais. Nomes como Klarna e Stripe também viram seus valuations privados recuarem antes de encontrar um novo patamar. A diferença no cripto é que a volatilidade dos ativos subjacentes amplifica o efeito sobre as empresas de infraestrutura, como discutimos em análises anteriores sobre o mercado financeiro.

Visa, Coinbase e o apetite por custódia institucional

O que torna os rumores verossímeis, mesmo após o desmentido, é o contexto estratégico. A Visa tem expandido sistematicamente sua atuação em ativos digitais. A empresa já processa transações com stablecoins, possui parcerias com emissores de cartões cripto e investe em pesquisa sobre liquidação em blockchain.

Adquirir uma empresa de custódia como a Fireblocks daria à Visa uma peça fundamental que hoje falta em seu portfólio: a capacidade de guardar e movimentar ativos digitais de forma nativa, sem depender de terceiros. Para uma rede de pagamentos que processa trilhões de dólares por ano, controlar a camada de custódia seria um diferencial competitivo relevante frente à Mastercard e a novos entrantes.

Além da Visa, fontes anônimas também apontaram a Coinbase como potencial compradora. A exchange, que já possui seu próprio serviço de custódia institucional, poderia se beneficiar da tecnologia MPC da Fireblocks para reforçar sua oferta. No entanto, a Coinbase também negou qualquer envolvimento em uma possível transação.

A movimentação reflete uma tendência mais ampla que acompanhamos no setor de tecnologia: empresas tradicionais comprando infraestrutura cripto em vez de construí-la do zero. É mais rápido, mais barato (especialmente com valuations comprimidos) e elimina anos de desenvolvimento regulatório e técnico.

O que isso significa para o mercado de custódia cripto

Mesmo que nenhuma aquisição se concretize no curto prazo, o fato de rumores sobre Visa e Coinbase circularem simultaneamente indica que a Fireblocks está no radar dos maiores players do mercado. Isso sinaliza duas coisas para o investidor atento.

Primeiro, a custódia institucional cripto é uma infraestrutura de valor duradouro. Enquanto tokens e protocolos DeFi sobem e descem com ciclos de mercado, a camada de segurança e armazenamento é necessária independentemente do preço do bitcoin. É a “picareta e pá” da corrida do ouro digital.

Segundo, o mercado de M&A em cripto está esquentando. Com valuations mais realistas e balanços de grandes empresas tradicionais carregados de caixa, 2025 pode ser o ano em que veremos aquisições transformadoras no setor. A aprovação de ETFs de bitcoin e ethereum nos Estados Unidos já legitimou a classe de ativos para investidores institucionais. O próximo passo natural é que as redes de pagamento e os bancos internalizem a infraestrutura necessária para operar nesse mercado.

Por ora, a Fireblocks segue independente. Mas em um setor onde rumores frequentemente antecipam realidades, o mercado faz bem em prestar atenção nos próximos movimentos tanto da Visa quanto da Coinbase. A janela para aquisições com desconto não ficará aberta para sempre.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…