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Por que o Fed não deve subir juros em setembro e o que isso muda

Goldman Sachs considera "muito improvável" nova alta de juros pelo Fed em setembro. Dados fracos de emprego e inflação reforçam a tese de manutenção.

Por que o Fed não deve subir juros em setembro e o que isso muda
Foto: K / Unsplash

A possibilidade de o Federal Reserve elevar a taxa de juros na reunião de setembro caiu para o campo do “muito improvável”, segundo avaliação do economista-chefe da Goldman Sachs, Jan Hatzius. A conclusão veio após uma sequência de dados econômicos fracos nos Estados Unidos, que reforçam a tese de que o ciclo de aperto monetário ficou para trás.

Para quem investe em ativos de risco, a leitura é direta: sem novas altas de juros, o cenário de liquidez tende a se manter estável ou até melhorar nos próximos meses. E isso muda o cálculo de risco para praticamente todas as classes de ativos, do S&P 500 ao bitcoin.

O que os dados econômicos estão dizendo ao Fed

A avaliação da Goldman se apoia em três pilares. Primeiro, os números de varejo, considerados um termômetro central do consumo americano, vieram abaixo das expectativas. Segundo, o mercado de trabalho deu sinais de desaceleração. Terceiro, a inflação seguiu em trajetória de queda, em linha com as projeções do mercado.

Hatzius foi categórico em nota enviada a clientes: “Sob nossas projeções econômicas de base, as notícias de inflação têm mais chance de melhorar do que de piorar ao longo do ano.” Na mesma comunicação, afirmou que a precificação do mercado para a taxa dos Fed Funds ainda está “hawkish demais”, ou seja, embutindo mais aperto do que seria justificável.

Essa leitura encontra respaldo nos dados do CME FedWatch. Até o momento, apenas 30,6% dos traders precificam uma alta de 25 pontos-base, que levaria a taxa para a faixa de 3,75% a 4%. A maioria aposta na manutenção. As probabilidades recuaram após o relatório de inflação de julho confirmar a desaceleração esperada, como analisamos na nossa cobertura de mercado financeiro.

Por que a taxa de juros importa tanto para ativos de risco

A taxa básica definida pelo Fed funciona como o preço do dinheiro na maior economia do mundo. Quando sobe, o crédito fica mais caro, a liquidez encolhe e investidores migram para ativos de menor risco, como títulos do Tesouro americano. Quando cai, ou simplesmente para de subir, o fluxo se inverte.

O histórico recente ilustra essa dinâmica com clareza. O ciclo agressivo de aperto monetário iniciado em 2022, quando o Fed elevou juros na velocidade mais rápida em quatro décadas, coincidiu com a queda de mais de 60% do bitcoin e um bear market generalizado em criptomoedas. Na direção oposta, os cortes emergenciais de março de 2020, em resposta à pandemia, antecederam um rali que levou o bitcoin de cerca de US$ 5 mil para mais de US$ 60 mil em pouco mais de um ano.

Não se trata de causalidade simples, mas de um mecanismo bem documentado. A correlação entre liquidez global e preço de ativos digitais é um dos temas mais estudados no mercado cripto. E a sinalização do Fed é o principal vetor dessa equação.

O cenário atual do bitcoin sob essa lente

O bitcoin opera em torno de US$ 63.500, preso numa faixa estreita entre US$ 62 mil e US$ 66 mil há mais de um mês. É o tipo de lateralização que costuma anteceder movimentos direcionais relevantes, especialmente quando acompanhada de mudanças no ambiente macro.

Se o Fed de fato mantiver a taxa em setembro, como a Goldman projeta, o mercado pode começar a precificar cortes mais adiante. Isso representaria uma mudança qualitativa no sentimento. Até agora, a narrativa dominante era de “juros altos por mais tempo”. Uma revisão dessa expectativa tende a beneficiar ativos de risco de forma ampla.

Vale notar que o mercado de derivativos já se ajustou parcialmente. A queda nas probabilidades de alta reflete uma mudança de posicionamento entre traders institucionais. Mas há espaço para repricing adicional caso os próximos dados econômicos, especialmente o payroll e o PCE de agosto, confirmem a tendência de desaceleração.

O que observar nas próximas semanas

Três eventos merecem atenção imediata. O primeiro é o simpósio de Jackson Hole, onde o presidente do Fed, Jerome Powell, costuma sinalizar a direção da política monetária. Qualquer menção a “progresso suficiente” na inflação será lida como sinal verde para manutenção ou até corte.

O segundo é o relatório de emprego de agosto. Se o mercado de trabalho continuar dando sinais de arrefecimento, o caso para novas altas fica ainda mais fraco. O terceiro é o índice PCE, a medida de inflação preferida do Fed. Uma leitura abaixo de 3% ao ano praticamente eliminaria qualquer discussão sobre aperto adicional.

Para investidores posicionados em renda variável, cripto ou qualquer ativo sensível a juros, o recado é claro: o risco de choque monetário negativo diminuiu. Isso não significa que os mercados vão subir em linha reta. Significa que uma das principais fontes de pressão vendedora dos últimos dois anos está perdendo força. Como discutimos em análises anteriores sobre política monetária, a transição de um ciclo de aperto para um ciclo de afrouxamento raramente é linear, mas seus efeitos sobre os preços são historicamente consistentes.

A Goldman Sachs não está sozinha nessa leitura. Outras casas de Wall Street começam a convergir para a tese de que o pico dos juros já ficou para trás. A questão agora não é se o Fed vai parar de subir, mas quando vai começar a cortar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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