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Even Realities vale US$ 1 bi com óculos sem câmera

Startup fundada por ex-engenheiros da Apple captou US$ 150 milhões com Tencent e Meituan. A aposta: telas no lugar de câmeras e privacidade como diferencial competitivo.

Even Realities vale US$ 1 bi com óculos sem câmera
Foto: Vika Glitter / Unsplash

Enquanto Meta e Snap disputam quem coloca a melhor câmera na cara do usuário, uma startup de três anos fundada em Shenzhen decidiu ir na direção oposta. A Even Realities acaba de levantar US$ 150 milhões em uma rodada pré-Série B liderada pela Meituan e pela Tencent, atingindo um valuation de US$ 1 bilhão. A tese é simples na teoria e complexa na execução: óculos inteligentes que projetam informações diretamente no campo de visão, sem nenhuma câmera embutida.

O aporte coloca a Even Realities no seleto grupo de unicórnios do segmento de wearables, um mercado que cresce aceleradamente à medida que as big techs tentam transformar óculos em plataformas de computação pessoal. A diferença é que a startup chinesa aposta que privacidade e conforto social são mais importantes do que captura de conteúdo.

Por que abrir mão da câmera é uma estratégia, não uma limitação

O CEO Will Wang, que trabalhou no desenvolvimento do Apple Watch e do iPhone antes de fundar a empresa em 2023, defende que óculos inteligentes são provavelmente o dispositivo de computação mais pessoal que alguém pode usar. Diferente de um smartphone no bolso ou um relógio no pulso, um gadget no rosto precisa ser confortável tanto para quem usa quanto para quem está ao redor.

Essa filosofia se traduz em decisões concretas de produto. O modelo mais recente da empresa, o Even G2, lançado em novembro do ano passado, substitui a câmera por um display heads-up integrado às lentes. A navegação é feita por um anel acompanhante, o Even R1, que o usuário toca e desliza para controlar a interface. Recursos de voz, como tradução em tempo real, transcrevem áudio em texto sem armazenar gravações. Os dados são criptografados e a infraestrutura foi construída para atender os padrões de privacidade europeus, segundo a empresa.

A abordagem faz sentido num momento em que a regulação de dispositivos com câmera enfrenta resistência crescente em ambientes corporativos e sociais. Quem lembra do Google Glass sabe que o problema nunca foi apenas técnico.

Tecnologia óptica proprietária como barreira de entrada

Wang argumenta que a principal diferença entre óculos inteligentes e outros eletrônicos de consumo está na óptica. Um smartphone usa uma tela OLED ou LCD convencional. Óculos inteligentes dependem de displays ópticos, que exigem uma pilha tecnológica completamente diferente: microchip, óptica e guia de ondas precisam ser projetados de forma integrada.

A Even Realities desenvolveu uma tecnologia proprietária chamada Even HAO (Holistic Adaptive Optics), um sistema end-to-end que integra microchip, guia de ondas e suporte a lentes de grau desde a concepção. Em vez de combinar componentes projetados separadamente, como fazem concorrentes, a empresa trata o sistema óptico como uma unidade coesa. Esse tipo de integração vertical, similar ao que a Apple fez com seus chips proprietários, cria uma barreira técnica difícil de replicar.

O resultado prático é que o Even G1, primeiro produto da empresa lançado em 2024, foi descrito como o óculos inteligente com guia de ondas mais leve do mercado na época. A empresa superou sua própria meta de 10 mil unidades vendidas, tornando-se a primeira do segmento a ultrapassar essa marca, segundo Wang.

Perfil de cliente e modelo de receita que chamam atenção

O ticket médio da Even Realities é de aproximadamente US$ 1.000 por pedido. As armações custam US$ 599 antes de impostos, e lentes de grau ou o anel de controle adicionam entre US$ 200 e US$ 300. É um posicionamento premium que, segundo a empresa, já gera lucro operacional.

O perfil de usuário reforça a tese de produto corporativo e profissional: a maioria dos clientes são homens entre 30 e 50 anos. Uma pesquisa interna revelou que cerca de um terço dos usuários são executivos de empresas. O recurso mais utilizado por usuários avançados é o Conversate, um copiloto que lê conversas em tempo real, explica jargões e fornece sugestões de perguntas de acompanhamento, sincronizando um resumo no celular ao final.

Mais da metade da base de usuários está nos Estados Unidos, que também concentra a maior parte da comunidade de desenvolvedores. Japão, Coreia do Sul, Oriente Médio e Europa completam os mercados ativos. Curiosamente, a empresa ainda não vende na China, apesar de fabricar lá. Wang disse que a demanda é significativa, mas prefere estar preparado antes de entrar.

O que isso significa para o mercado de wearables

A rodada da Even Realities sinaliza que investidores de peso veem espaço para mais de uma abordagem no mercado de óculos inteligentes. Meta e Snap apostam em câmeras e IA generativa como diferencial. A Even aposta em display e privacidade. São teses distintas, e o fato de Tencent e Meituan colocarem US$ 150 milhões na segunda mostra que o mercado não está consolidado.

A equipe cresceu de 30 a 40 funcionários em 2024 para 300 a 400 hoje, uma expansão de quase 10 vezes em pouco mais de um ano. O ritmo lembra o de startups de hardware que encontraram product-market fit real, como a evolução recente dos dispositivos de IA vestíveis que vêm ganhando tração no mercado americano.

Para quem acompanha o setor de tecnologia, a Even Realities oferece um contraponto interessante à narrativa dominante. Nem todo wearable precisa ser uma câmera ambulante com IA. Às vezes, o diferencial competitivo está justamente no que o produto escolhe não fazer.

A grande questão é se a abordagem “display-first” consegue escalar para além do nicho de executivos e profissionais dispostos a pagar US$ 1.000. Com US$ 150 milhões frescos no caixa e um valuation de unicórnio, a Even Realities terá que provar que privacidade vende em massa, e não apenas para um público seleto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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