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Europa une 37 bancos em stablecoin contra o dólar digital

Iniciativa pan-europeia de stablecoin cresce para 37 instituições financeiras, enquanto Alemanha avança com versão em coroa sueca para pagamentos com IA.

Europa une 37 bancos em stablecoin contra o dólar digital
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A Europa decidiu que não vai assistir passivamente enquanto o dólar consolida sua hegemonia no mercado de stablecoins. Um consórcio pan-europeu acaba de expandir para 37 instituições financeiras, incluindo bancos de porte como Société Générale, Deutsche Bank e ING, com o objetivo de lançar uma stablecoin atrelada ao euro que funcione como infraestrutura de pagamentos em todo o continente.

Paralelamente, a alemã AllUnity anunciou planos para uma stablecoin denominada em coroa sueca, com foco específico em pagamentos autônomos realizados por agentes de inteligência artificial. Os dois movimentos, aparentemente distintos, apontam para uma mesma direção: a Europa está construindo sua própria infraestrutura de moedas digitais privadas antes que o dólar tokenizado domine completamente esse mercado.

Por que a Europa está preocupada com stablecoins em dólar

Os números explicam a urgência. Segundo dados da DefiLlama, stablecoins lastreadas em dólar representam mais de 97% do mercado global, que ultrapassou US$ 230 bilhões em circulação. O USDT, da Tether, e o USDC, da Circle, dominam transações internacionais, remessas e até comércio entre empresas que nunca tocaram em criptomoedas tradicionais.

Para a Europa, isso cria um problema de soberania monetária. Quando uma empresa europeia usa USDT para pagar um fornecedor asiático, essa transação acontece inteiramente na órbita do dólar americano. O euro, segunda moeda de reserva global, fica de fora. O Banco Central Europeu já manifestou preocupação com esse cenário em relatórios publicados desde 2024, mas a iniciativa privada decidiu não esperar pelo euro digital do BCE, que segue em fase de estudo.

O consórcio de 37 bancos pretende lançar a stablecoin sob o arcabouço regulatório do MiCA (Markets in Crypto-Assets), a legislação europeia para criptoativos que entrou em vigor em 2025. Isso significa que, diferentemente de stablecoins offshore como o USDT, a versão europeia terá reservas auditadas por reguladores locais, segregação de ativos e obrigação de resgate 1:1 em qualquer momento.

A jogada da AllUnity com pagamentos de IA

Se o consórcio bancário busca disputar o mercado de pagamentos tradicionais, a AllUnity mira um segmento que ainda não existe em escala: transações autônomas entre agentes de IA. A empresa, sediada em Frankfurt e com participação da Deutsche Börse, anunciou uma stablecoin em coroa sueca (moeda da Suécia) pensada para micropagamentos automatizados.

A lógica é a seguinte. Conforme agentes de IA passam a executar tarefas comerciais de forma autônoma, esses sistemas precisam movimentar dinheiro entre si sem intervenção humana. Uma IA que negocia preços de energia, por exemplo, precisa de uma moeda programável que funcione 24 horas, sem limites de transferência bancária e com liquidação instantânea. Stablecoins são a candidata natural para esse papel.

A escolha da coroa sueca não é casual. A Suécia é um dos países mais avançados do mundo em pagamentos digitais, com menos de 8% das transações ainda feitas em dinheiro físico. Além disso, o país nórdico tem um ecossistema robusto de fintechs e uma regulação favorável à experimentação financeira, como a BlockTrends já explorou em análise sobre regulação global de stablecoins.

O contraste com a postura dos Estados Unidos

Enquanto a Europa avança com stablecoins reguladas, os Estados Unidos vivem um paradoxo. O governo Trump proibiu oficialmente a criação de uma moeda digital de banco central (CBDC), mas ex-membros da CFTC revelaram que estudos sobre o tema continuam nos bastidores. A lei assinada em South Carolina nesta semana, que proíbe CBDCs no estado e favorece criptomoedas privadas, reforça a narrativa de que o caminho americano passa por stablecoins privadas em dólar, não por moeda estatal digital.

Essa abordagem favorece empresas como Tether e Circle, que já dominam o mercado. Para a Europa, o risco é que a infraestrutura global de pagamentos digitais se consolide em torno do dólar antes que alternativas europeias ganhem tração. É um cenário que lembra o que aconteceu com big techs americanas na década de 2010: quando a Europa percebeu a dependência, o mercado já estava definido.

O que está em jogo para o mercado cripto

A expansão do consórcio europeu para 37 bancos sinaliza algo importante para investidores e profissionais do setor: stablecoins deixaram de ser uma ferramenta de nicho cripto para se tornar um campo de disputa geopolítica. A competição não é mais entre USDT e USDC, mas entre o dólar e o euro pela infraestrutura de pagamentos do futuro.

Para o ecossistema DeFi, stablecoins europeias reguladas sob o MiCA podem abrir um novo mercado de liquidez. Protocolos que hoje operam quase exclusivamente com pares em dólar terão incentivo para integrar pares em euro, especialmente se bancos europeus passarem a usar essas stablecoins para liquidação de ativos tokenizados.

O caso da Venezuela, onde stablecoins em dólar se tornaram a principal ferramenta para driblar sanções econômicas e preservar patrimônio, serve como prova de conceito involuntária. Se moedas digitais podem substituir o sistema bancário em um país sob restrições, elas certamente podem redesenhar o comércio internacional entre economias desenvolvidas. A questão é qual moeda estará por trás dessa transformação.

A resposta pode não ser uma só. O cenário mais provável é um mundo multipolar de stablecoins, com dólar dominante em comércio global, euro forte na zona econômica europeia e moedas menores, como a coroa sueca, ocupando nichos especializados. Para quem acompanha o mercado cripto, a mensagem é clara: a batalha das stablecoins é, na essência, a batalha pela relevância monetária no século digital.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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