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EUA taxam o Brasil por causa do Pix enquanto stablecoins de dólar dominam pagamentos

Washington usa o Pix como justificativa para tarifas inéditas contra o Brasil, mas US$ 8 bilhões mensais em stablecoins de dólar já circulam no país via blockchain.

EUA taxam o Brasil por causa do Pix enquanto stablecoins de dólar dominam pagamentos
Foto: Eduardo Soares / Unsplash

O governo dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros a partir de 22 de julho, utilizando pela primeira vez a Seção 301 da legislação comercial americana para mirar um sistema de pagamentos doméstico. O alvo explícito: o Pix.

A decisão marca um precedente inédito nas relações comerciais globais. A Seção 301, historicamente usada contra roubo de propriedade intelectual e subsídios industriais, agora serve para questionar a existência de uma infraestrutura pública de pagamentos instantâneos. Washington argumenta que o Pix prejudica empresas americanas como Visa e Mastercard ao ser oferecido gratuitamente para pessoas físicas e com tarifas limitadas para empresas.

O embaixador Jamieson Greer afirmou que “a ação é necessária para garantir que trabalhadores e empresas americanas possam competir em igualdade de condições”. Mas os números contam uma história mais complexa, e a ironia é que o próprio dólar americano já circula amplamente na economia digital brasileira, só que por trilhos que Washington não controla.

O Pix que incomoda Washington: 43 bilhões de transações em seis meses

Desde seu lançamento em novembro de 2020, o Pix se tornou o sistema de pagamento mais usado do Brasil. Mais de 170 milhões de pessoas físicas já utilizaram a ferramenta, que processou quase 7 bilhões de transações somente em junho, movimentando cerca de R$ 3 trilhões (US$ 590 bilhões).

No segundo semestre de 2025, o sistema acumulou 42,9 bilhões de transações, contra 23,8 bilhões de cartões de crédito, débito e pré-pagos combinados. Mais de 90% dos adultos brasileiros utilizam o Pix, segundo dados do Banco Central. É um caso raro de adoção quase universal de uma infraestrutura financeira pública, algo que poucos mercados no mundo conseguiram replicar.

A obrigação de que instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas ofereçam o Pix gratuitamente a pessoas físicas é o ponto central da queixa americana. Para o representante comercial dos EUA, essa regra configura uma prática comercial desleal que limita o espaço das bandeiras de cartão americanas.

Stablecoins de dólar já movimentam até US$ 8 bilhões por mês no Brasil

Enquanto Washington reclama que o Pix tira mercado de empresas americanas, o dólar já penetrou profundamente a economia digital brasileira por outro caminho: as stablecoins. Dados da Receita Federal indicam que tokens atrelados ao dólar representam cerca de 90% do volume de transações cripto no país.

O Brasil processa entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões em criptomoedas por mês, a maior parte em stablecoins dolarizadas usadas para pagamentos e liquidação. São trilhos de blockchain que funcionam em paralelo ao sistema financeiro tradicional e que, na prática, reforçam a demanda por dólar, não a enfraquecem.

A ironia é evidente. A mesma administração que pressiona o Brasil por supostamente minar a competitividade de empresas americanas ignora que stablecoins lastreadas em dólar já funcionam como infraestrutura de pagamento em escala bilionária no país. É dólar americano circulando em blockchain, sem intermediação de Visa ou Mastercard.

Banco Central aperta o cerco: Resolução 561 barra stablecoins em pagamentos transfronteiriços

Se o governo americano pressiona de um lado, o Banco Central do Brasil aperta do outro. A Resolução 561, com vigência prevista para 1º de outubro, vai proibir que instituições de pagamento liquidem operações transfronteiriças em stablecoins ou outros criptoativos. Na prática, fecha um canal que permitia converter reais em tokens dolarizados no back-end de transações internacionais.

O BC classifica stablecoins como uma ameaça à soberania monetária, à arrecadação tributária e aos controles de lavagem de dinheiro. É uma posição que coloca o Pix sob fogo cruzado: pressionado por Washington como barreira comercial e protegido pelo próprio regulador brasileiro contra a concorrência de ativos digitais dolarizados.

Na visão de Rodrigo Caggiano, fundador da plataforma RWA Monitor, Pix e stablecoins não competem diretamente. “Na prática, são complementares”, disse. “O Pix resolveu bem os pagamentos instantâneos domésticos, enquanto stablecoins expandem as possibilidades ao operar em redes blockchain.” A coexistência, no entanto, depende de como a regulação cripto no Brasil vai evoluir nos próximos meses.

Drex, o trunfo brasileiro que pode mudar o jogo

Paralelamente, o Banco Central desenvolve o Drex, seu sistema de liquidação tokenizada que opera em trilhos programáveis semelhantes aos de blockchains públicas. O Drex pode se tornar a resposta institucional tanto à pressão americana quanto à expansão das stablecoins privadas.

A pressão dos EUA tende a acelerar o debate regulatório sobre infraestrutura financeira digital no Brasil, segundo analistas do setor. E o precedente aberto por Washington vai além do Brasil. Sistemas como o UPI da Índia e o euro digital planejado pelo Banco Central Europeu podem enfrentar questionamentos semelhantes no futuro, de acordo com o Atlantic Council.

O que está em jogo não é apenas uma disputa tarifária. É uma batalha sobre quem controla os trilhos pelos quais o dinheiro se move no mundo. Governos que constroem suas próprias redes de pagamento agora correm o risco de serem enquadrados como barreiras comerciais. Ao mesmo tempo, stablecoins privadas avançam por baixo do radar, criando uma camada paralela de infraestrutura financeira que nenhum regulador controla totalmente.

Para o investidor e o empreendedor brasileiro, o cenário exige atenção a três frentes simultâneas: o impacto das tarifas na balança comercial, os limites que a Resolução 561 vai impor ao uso de stablecoins e o cronograma de implementação do Drex. Cada uma dessas peças vai moldar o futuro dos pagamentos digitais no Brasil nos próximos anos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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