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Finanças

EUA bloqueiam MEXC do sistema financeiro por US$ 16 bi ilícitos

Departamento de Justiça e FinCEN cortam acesso da MEXC ao sistema financeiro americano após plataforma processar bilhões ligados a sanções contra Irã, Rússia e Coreia do Norte.

EUA bloqueiam MEXC do sistema financeiro por US$ 16 bi ilícitos
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

A corretora de criptomoedas MEXC Global acaba de receber uma das punições mais severas já aplicadas contra uma exchange pelo governo americano. O Departamento de Justiça (DoJ) e a Rede de Combate a Crimes Financeiros (FinCEN) emitiram uma ordem que impede a plataforma de acessar o sistema financeiro dos Estados Unidos, após investigações apontarem que a empresa processou ao menos US$ 16 bilhões em transações ilícitas entre maio de 2021 e maio de 2025.

O volume envolve operações ligadas a evasão de sanções contra Irã, Rússia e Coreia do Norte, crimes cibernéticos e outras atividades financeiras ilegais. A decisão proíbe qualquer instituição financeira americana de realizar transferências de ou para a MEXC, o que inclui exchanges de criptomoedas que operam no país.

O que a investigação revelou sobre a MEXC

A MEXC foi fundada em 2018 e se consolidou como uma das dez maiores corretoras de criptomoedas do mundo, processando mais de US$ 1 bilhão em transações diárias e mantendo cerca de US$ 5 bilhões em reservas, segundo dados da própria FinCEN. A plataforma registrou 18 milhões de visitas apenas em setembro do ano passado, com tráfego concentrado em países como Uzbequistão, Paquistão, Índia, Filipinas e Singapura.

O problema, segundo as autoridades americanas, não é a ausência de políticas de compliance. A MEXC tinha, ao menos formalmente, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e identificação de clientes, incluindo proibições explícitas contra o uso da plataforma por investidores do Irã e da Coreia do Norte. O que a investigação mostrou é que esses sistemas tinham falhas estruturais graves que permitiam o contorno sistemático das restrições.

Os números são expressivos. Quase US$ 1,5 bilhão das transações investigadas estão ligados à evasão de sanções contra a Rússia, incluindo US$ 232 milhões em operações diretas com entidades sancionadas pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pelo Reino Unido. A corretora também processou transações com a Garantex, exchange russa derrubada pelas autoridades americanas e que ressurgiu sob o nome Grinex, além de entidades russas conhecidas como A7 e A7A5, ambas sancionadas.

Conexões com Irã e Coreia do Norte ampliam a gravidade

O caso vai além da Rússia. A investigação identificou que a MEXC processou aproximadamente US$ 1 bilhão em transações de criptomoedas para mais de 40 corretoras iranianas, além de operações envolvendo o Banco Central do Irã e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), ambos alvos de sanções rigorosas dos EUA e seus aliados.

Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, foi direto ao comentar a decisão: “Ou vocês apoiam o regime iraniano, ou têm acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos.” Ele acrescentou que o Tesouro continuará cortando fontes de financiamento do regime iraniano e impedindo tentativas de contornar sanções por meio de ativos digitais.

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Essa declaração reforça uma tendência que temos acompanhado na cobertura de regulação financeira: o governo americano está tratando exchanges de criptomoedas com o mesmo rigor aplicado a bancos tradicionais quando se trata de cumprimento de sanções internacionais. A mensagem é clara. Não importa se a empresa opera com ativos digitais ou tradicionais. As regras do sistema financeiro global valem para todos.

MEXC diz operar normalmente, mas o cerco aperta

Em nota publicada em suas redes sociais, a MEXC afirmou estar ciente da ordem e anunciou que está analisando a medida com equipes jurídicas e de compliance. A empresa disse que continua operando normalmente, que os ativos dos usuários permanecem seguros e que iniciou uma revisão independente de seus controles de prevenção à lavagem de dinheiro e cumprimento de sanções.

A postura da corretora segue o roteiro padrão de exchanges que enfrentam pressão regulatória: garantir que as operações seguem, prometer cooperação e ganhar tempo. Mas a realidade prática é mais complicada. Sem acesso ao sistema financeiro americano, a MEXC perde uma das portas de entrada mais importantes para liquidez institucional e fluxo de capital.

Um detalhe relevante para o mercado brasileiro: a MEXC está entre as empresas que entraram com pedido de licença junto ao Banco Central do Brasil para operar no país. A regulação de exchanges no Brasil ainda está em fase de maturação, e casos como este tendem a influenciar o nível de exigência que o regulador brasileiro aplicará sobre plataformas estrangeiras que buscam autorização para atuar aqui.

O que o caso MEXC significa para o mercado cripto

O bloqueio da MEXC não é um caso isolado. Ele faz parte de uma ofensiva regulatória americana que já atingiu a Binance, com multa de US$ 4,3 bilhões em 2023, e a própria Garantex, derrubada por facilitar transações com entidades russas sancionadas. O padrão é consistente: exchanges que não conseguem demonstrar controles efetivos de compliance são tratadas como ameaças à segurança nacional.

Para investidores que utilizam exchanges internacionais, o recado é prático. A escolha da plataforma onde se custodiam ativos digitais carrega risco regulatório real. Uma corretora que hoje opera normalmente pode, amanhã, perder acesso a sistemas bancários essenciais, comprometendo saques e movimentações.

Como analisamos em matérias anteriores sobre o endurecimento regulatório global, o mercado cripto está entrando numa fase em que a conformidade regulatória deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser condição de sobrevivência. Exchanges que operam em zonas cinzentas enfrentam risco existencial, especialmente quando processam volumes na casa dos bilhões.

O caso MEXC também ilustra como criptomoedas continuam sendo usadas para evasão de sanções em escala significativa. US$ 16 bilhões em cinco anos não é volume marginal. É o tipo de cifra que alimenta o argumento de legisladores que defendem regulação mais restritiva sobre todo o setor, o que pode afetar inclusive plataformas que operam dentro das regras.

O mercado segue observando se a MEXC conseguirá reverter parte das restrições ou se o bloqueio americano desencadeará ações semelhantes por parte de outros reguladores ao redor do mundo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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