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Ethereum prepara sua maior reformulação desde o Merge

Vitalik Buterin revelou os próximos passos do Lean Ethereum, um plano de 3 a 4 anos que vai substituir quase todos os componentes do protocolo.

Ethereum prepara sua maior reformulação desde o Merge
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

A última grande transformação do Ethereum aconteceu em setembro de 2022, quando o Merge encerrou a era da mineração e migrou a rede para um sistema de validação por staking. Agora, Vitalik Buterin afirma que o protocolo está prestes a passar por algo ainda mais ambicioso: o Lean Ethereum, um plano que pretende substituir praticamente todos os componentes centrais da rede ao longo dos próximos três a quatro anos.

A proposta, apresentada originalmente como um framework técnico em julho de 2025, ganhou novos contornos após reuniões de pesquisa realizadas em Berlim e discussões anteriores com equipes de desenvolvimento em Svalbard, na Noruega. O roteiro atualizado, chamado internamente de “strawmap”, reorganiza prioridades e define o que Buterin considera a terceira grande iteração da rede.

Enquanto o ETH acumula alta de mais de 12% na semana e negocia em torno de US$ 1.777, a discussão não é sobre preço. É sobre o que o Ethereum quer ser daqui a cinco anos e se a infraestrutura atual aguenta o caminho até lá.

Segurança quântica virou urgência, não precaução

A mudança mais notável no roteiro atualizado é a elevação da segurança quântica ao topo da lista de prioridades. A teoria predominante indica que um computador quântico suficientemente poderoso poderia, eventualmente, quebrar a criptografia que protege blockchains. O setor trata isso como um risco distante, mas real.

Buterin não quer esperar. O plano agora prevê a substituição de cada componente vulnerável a ataques quânticos por uma alternativa resistente. Isso inclui o redesenho do armazenamento de dados barato que sustenta as rollups, as redes de segunda camada construídas sobre o Ethereum. Como já explicamos em nossa cobertura sobre o ecossistema cripto, as rollups são peça central da estratégia de escalabilidade da rede.

A decisão de tratar segurança quântica como prioridade imediata coloca o Ethereum à frente da maioria dos protocolos concorrentes, que ainda tratam o assunto como pauta de longo prazo. É uma aposta de que o custo de se preparar cedo é menor do que o custo de ser pego desprevenido.

Privacidade deixa de ser acessório e vira pilar do protocolo

Outro ponto que subiu na hierarquia do Lean Ethereum é a privacidade. Buterin classificou o tema como um “objetivo de primeira classe”, e não mais um complemento opcional. O plano prevê que os componentes centrais da rede sejam desenhados para que transações privadas e sem intermediários possam fluir por padrão.

Essa é uma mudança filosófica relevante. Historicamente, o Ethereum sempre priorizou transparência e auditabilidade. Agora, a proposta é que privacidade seja um recurso nativo, e não algo que dependa de soluções externas. Para quem acompanha os desdobramentos regulatórios do setor, essa decisão carrega implicações sobre como governos e reguladores vão enxergar a rede no futuro.

O problema do “state” e por que ele pode ser o maior desafio

Buterin apontou que a mudança mais disruptiva do plano envolve o que o Ethereum chama de “state”, a memória corrente da rede. Trata-se do registro completo de tudo que existe no protocolo em um dado momento: saldos de contas, dados de contratos inteligentes, registros de NFTs, posições em pools de empréstimo e todo ledger de tokens.

Cada transação é essencialmente uma edição nesse registro. O problema é que cada nó da rede precisa armazenar e manter atualizado o state inteiro para validar transações. À medida que o uso cresce, esse registro incha, e rodar um nó fica mais caro e exigente. Isso empurra a rede na direção de menos operadores e mais centralizados, o oposto do que o Ethereum se propõe a ser.

A solução do Lean Ethereum é engenhosa: manter o state dinâmico atual, mas limitar seu crescimento, e criar novos tipos de state mais restritivos que custam muito menos para escalar. A meta é sair dos atuais 2 terabytes para mais de 100 terabytes até 2030 sem que cada nó precise carregar todo o peso da maneira antiga.

STARKs recursivos e o fim da reexecução de transações

A forma como a rede se verifica também vai mudar. Em vez de cada nó reexecutar cada transação, o Ethereum planeja usar STARKs recursivos, um método criptográfico que permite verificar uma prova compacta de que o trabalho foi feito corretamente. É como conferir o resultado de uma conta sem precisar refazê-la do zero.

Essa mudança tem impacto direto na velocidade e na leveza da rede. Para desenvolvedores e usuários, significa um Ethereum mais rápido sem sacrificar a segurança. Para o ecossistema mais amplo, como analisamos em nossa seção sobre finanças e tokenização, isso pode tornar aplicações financeiras descentralizadas mais viáveis em escala institucional.

Além da EVM: RISC-V como candidata ao novo motor

Talvez o ponto mais ousado do plano seja a possibilidade de o Ethereum superar sua própria máquina virtual, a EVM, que hoje executa todos os contratos inteligentes da rede. Buterin mencionou a arquitetura aberta de chips RISC-V como uma das candidatas a substituir a base do protocolo.

A preferência de Buterin é que a EVM continue existindo como uma camada de conveniência de alto nível, enquanto o protocolo em si roda sobre uma base mais simples. Ele fez questão de ressaltar que isso ainda está distante, mas o simples fato de estar no roteiro oficial sinaliza a direção.

O que vem pela frente: Glamsterdam, Hegotá e o início da era Lean

O roteiro prevê aumentos contínuos de capacidade ao longo dos próximos cinco anos, com o teto de transações subindo, limites de dados expandindo e tempos de bloco diminuindo progressivamente. Buterin destacou que o próximo upgrade, chamado Glamsterdam, trará um grande salto de capacidade.

O fork seguinte, batizado de Hegotá, deve ser o último antes de a era Lean começar oficialmente. A partir daí, o Ethereum que conhecemos hoje será, na prática, um protocolo diferente por dentro, mesmo que aplicações existentes continuem funcionando com o mínimo de disrupção.

O compromisso com segurança quântica e privacidade bem antes de a maior parte do setor tratá-los como urgentes é uma aposta de longo prazo. Se o plano se concretizar, o Ethereum de 2030 terá pouco em comum com a rede atual além do nome e do endereço. Para investidores, desenvolvedores e usuários, a pergunta que importa é se a execução vai acompanhar a ambição.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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