Endividamento brasileiro é estrutural e Desenrola não resolve
O novo Desenrola promete juros de até 1,99%, mas economistas alertam que o problema do endividamento no Brasil vai muito além de renegociação de dívidas.
O governo federal confirmou o lançamento do Novo Desenrola com juros de até 1,99% ao mês. A medida chega em um momento em que mais de 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes, segundo dados do Serasa. O programa anterior, em 2023, renegociou R$ 53 bilhões em dívidas. Mas os números de inadimplência voltaram a subir menos de um ano depois.
Esse padrão revela algo que economistas vêm apontando há anos: o endividamento das famílias brasileiras é estrutural, não conjuntural. Programas de renegociação aliviam sintomas, mas não atacam as causas.
Os números que explicam a dimensão do problema
O comprometimento médio da renda das famílias com dívidas atingiu 28,6% em março de 2026, segundo dados do Banco Central. Em 2019, antes da pandemia, esse indicador estava em 20,1%. O salto de quase 8,5 pontos percentuais em sete anos não é acidente: é resultado de uma combinação de crédito fácil, juros estruturalmente altos e educação financeira insuficiente.
O crédito rotativo do cartão continua sendo o principal vilão. Mesmo com o teto de juros implementado em 2024, a taxa efetiva anual do rotativo ultrapassa 400% em diversas instituições. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos essa taxa média gira em torno de 22% ao ano. No Chile, principal referência da América Latina, fica abaixo de 40%.
Como analisamos em nossa cobertura de finanças, o problema não está apenas no custo do crédito, mas na forma como ele é oferecido e consumido no Brasil.
Por que o Desenrola original não resolveu
O primeiro Desenrola, lançado em julho de 2023, foi apresentado como o maior programa de renegociação de dívidas da história do país. Os resultados iniciais impressionaram: 15 milhões de CPFs renegociaram dívidas nos primeiros seis meses, com descontos médios de 83% sobre o valor original.
Mas dados do Banco Central mostram que cerca de 30% dos beneficiários voltaram à inadimplência em menos de 12 meses. O motivo é previsível: a renegociação trata a dívida existente, mas não altera os fatores que levaram ao endividamento. Sem mudança no padrão de consumo, nas taxas praticadas pelo mercado e na renda real, o ciclo se repete.
É como drenar água de um porão alagado sem consertar o cano furado. O alívio é real, mas temporário.
O componente estrutural que ninguém quer enfrentar
A Selic a dois dígitos é parte central do problema. Com a taxa básica em 14,75% ao ano, o custo de captação dos bancos permanece elevado, e isso se reflete diretamente nos spreads cobrados do consumidor final. O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo: a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra do tomador chega a 25 pontos percentuais em linhas de crédito pessoal.
A concentração bancária agrava o quadro. Os cinco maiores bancos respondem por mais de 80% do crédito total no país. Fintechs e bancos digitais ampliaram o acesso ao crédito, mas, como destacamos em análises anteriores sobre o setor financeiro, em muitos casos fizeram isso replicando práticas de crédito rotativo de alto custo.
Outro fator pouco discutido é a informalidade. Cerca de 39 milhões de brasileiros trabalham sem carteira assinada, segundo o IBGE. Sem renda previsível e sem acesso a linhas de crédito com garantias tradicionais, essa parcela da população recorre sistematicamente ao cartão de crédito e ao crediário como substitutos de renda, não como instrumentos de consumo planejado.
O que o Novo Desenrola propõe e seus limites
O programa anunciado pelo presidente Lula traz algumas novidades em relação à versão original. Os juros máximos de 1,99% ao mês são subsidiados pelo Tesouro Nacional, com custo estimado de R$ 4 bilhões a R$ 6 bilhões para os cofres públicos. O programa deve focar em dívidas de até R$ 20 mil por CPF, priorizando famílias com renda de até três salários mínimos.
O limite de juros é atrativo. Uma dívida de R$ 5 mil renegociada a 1,99% ao mês resulta em parcelas significativamente menores do que os mesmos R$ 5 mil no rotativo a 15% ao mês. Para quem está sufocado, o alívio imediato é real.
Mas o custo fiscal não é desprezível. Em um momento em que o governo lida com pressões sobre o arcabouço fiscal e precisa demonstrar disciplina nas contas públicas, um subsídio de R$ 5 bilhões adiciona ruído ao debate sobre sustentabilidade da dívida pública, como temos acompanhado na cobertura de política fiscal.
O que realmente resolveria o endividamento
Economistas ouvidos por diferentes veículos convergem em três pontos. Primeiro, a redução estrutural dos juros, o que depende de um ambiente macroeconômico que permita à política monetária ser menos restritiva. Segundo, regulação mais agressiva sobre oferta de crédito de alto custo, especialmente limites reais para o rotativo e o cheque especial. Terceiro, políticas de renda que reduzam a dependência do crédito como complemento salarial.
Nenhuma dessas soluções é simples ou rápida. E nenhuma cabe em um programa de renegociação com data para acabar. O Desenrola 2 vai ajudar milhões de brasileiros no curto prazo. Mas enquanto as causas do endividamento permanecerem intactas, o próximo Desenrola já está sendo gestado.