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DTCC entra na tokenização com BlackRock e JPMorgan: o que muda

A maior custodiante do mundo entra de vez na tokenização de ativos reais. Com 40 instituições no programa, o mercado de RWA ganha escala inédita.

DTCC entra na tokenização com BlackRock e JPMorgan: o que muda
Foto: William Doll II / Unsplash

A DTCC (Depository Trust & Clearing Corp.) anunciou a entrada oficial no mercado de tokenização de ativos. A empresa, que mantém mais de US$ 114 trilhões em títulos sob custódia e cujas subsidiárias processaram US$ 4,7 quadrilhões em transações de valores mobiliários no último ano, deixou de observar de longe e agora lidera o movimento.

O teste piloto está previsto para outubro. Cerca de 40 instituições financeiras participam do programa, incluindo BlackRock, JPMorgan, Vanguard, NYSE e Goldman Sachs. Não se trata de uma startup lançando um protocolo experimental. É a espinha dorsal do mercado financeiro americano dizendo que a tokenização é o caminho.

A escala do movimento muda completamente o cenário para ativos tokenizados, conhecidos como RWA (Real World Assets). Até agora, a tokenização vinha crescendo por iniciativas isoladas de gestoras e fintechs. Com a DTCC no centro, o mercado ganha a infraestrutura que faltava para operar em volume institucional.

O que a DTCC está tokenizando e como funciona

O primeiro caso de uso já tem nome. O JPMorgan converteu o ETF Invesco QQQ Trust (QQQ) em um ativo tokenizado. Trata-se do ETF mais negociado do mundo, o que dá uma dimensão clara da ambição do programa. Não é um ativo de nicho ou uma prova de conceito com volume irrelevante.

A DTCC também firmou parceria com a Microsoft para modernizar a infraestrutura digital do mercado. O escopo vai além de ações: títulos do governo americano também serão convertidos em ativos tokenizados, ampliando o alcance do programa para a renda fixa soberana.

Um ponto técnico relevante diferencia o modelo adotado pela DTCC de outras iniciativas no mercado. Existem dois formatos de tokenização. O primeiro replica o desempenho de um ativo de forma digital, mas sem garantir propriedade legal ao detentor. O segundo, adotado pela DTCC, garante as mesmas proteções legais e direitos de ações tradicionais. Isso é fundamental para a adoção institucional, como explicamos em nossa cobertura sobre o avanço dos ativos tokenizados.

Na prática, a diferença entre os dois modelos é o que separa um token que funciona como recibo de um token que funciona como o próprio ativo. A DTCC escolheu o segundo caminho, e isso carrega implicações regulatórias e operacionais significativas.

Por que a DTCC importa mais do que qualquer outra empresa nesse mercado

Frank La Salla, presidente e CEO da DTCC, definiu a tokenização como uma “megatendência” e destacou que o foco principal está na segurança do sistema, na resiliência e em liberar a liquidez que fica retida com a tecnologia atual.

Essa última parte é crucial. O sistema financeiro tradicional opera com ciclos de liquidação que podem levar dias. O processo de compensação envolve múltiplos intermediários e gera custos operacionais relevantes. A tokenização, em teoria, permite liquidação quase instantânea e reduz camadas de intermediação. Quando a própria entidade que faz a compensação e custódia adota essa tecnologia, o ganho de eficiência é sistêmico.

Para contextualizar a relevância: a DTCC é o alicerce sobre o qual praticamente todo o mercado de capitais americano opera. As maiores gestoras do planeta dependem dela para custódia e liquidação. Quando essa instituição se move, o sinal para o restante do mercado é inequívoco.

Eric Balchunas, especialista em ETFs da Bloomberg, resumiu o momento: “O fato de a DTCC estar fazendo isso é enorme.” Ele ponderou, no entanto, que o futuro tokenizado não vai se concretizar da noite para o dia. A adoção será gradual, mas o passo dado agora é o mais importante até o momento.

Qual blockchain será usada pela DTCC

As conversões acontecerão em duas redes: a Hyperledger Besu, uma solução privada da DTCC, e a Canton, uma rede pública. Essa abordagem multichain visa garantir resiliência, escalabilidade e flexibilidade para os participantes do programa.

A escolha revela uma estratégia pragmática. Em vez de apostar em uma única rede, a DTCC optou por operar em ambientes que atendem a diferentes necessidades regulatórias e operacionais. A Hyperledger Besu oferece o controle e a privacidade que instituições financeiras tradicionais exigem. A Canton adiciona a transparência e a interoperabilidade de uma rede pública.

O token da Canton (CC) reagiu de forma tímida ao anúncio, com alta de apenas 3,8% em 24 horas. A resposta moderada do mercado sugere que investidores ainda estão avaliando o impacto real do programa, ou que o valor está mais na infraestrutura do que no token nativo da rede.

O que isso muda para o mercado de RWA e para quem investe

O mercado de tokenização de ativos reais vinha crescendo de forma consistente, mas enfrentava um gargalo claro: faltava a adesão da infraestrutura central do mercado financeiro. Gestoras como BlackRock já vinham expandindo suas iniciativas em ativos tokenizados, mas a ausência de uma entidade como a DTCC limitava o escopo.

Com o programa anunciado, o caminho entre emissão, custódia e liquidação de ativos tokenizados ganha uma via direta. Isso pode acelerar o movimento que já se observava entre corretoras e gestoras de abandonar ativos especulativos para focar em tokenização de ativos reais.

Para o investidor, a principal consequência é a legitimação definitiva do mercado de RWA. Quando o ETF mais negociado do mundo é tokenizado pela maior custodiante do planeta, com participação das maiores gestoras e bancos, o recado é claro: a tokenização saiu do estágio conceitual.

Resta saber qual será a velocidade de adoção após o piloto de outubro e se outras custodiantes globais seguirão o mesmo caminho. Mas o precedente está estabelecido. A infraestrutura que sustenta US$ 114 trilhões em ativos agora opera com tecnologia blockchain. O mercado financeiro não será o mesmo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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