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Dólar a R$ 4,97: o que explica a queda e até onde pode ir

Moeda americana recuou para o menor patamar em quase cinco meses, impulsionada por fluxo estrangeiro recorde de R$ 12,6 bi. Entenda o cenário.

Dólar a R$ 4,97: o que explica a queda e até onde pode ir
Foto: Pratikxox / Unsplash

Dólar renova mínima de cinco meses: o que está acontecendo

O dólar abriu a sessão desta quarta-feira (7) cotado a R$ 4,98, em queda de 0,43%. Na véspera, a moeda americana já havia encerrado o pregão a R$ 4,97, no menor patamar desde maio deste ano. É o tipo de movimento que chama atenção não pelo número isolado, mas pelo que revela sobre a dinâmica de capital no Brasil.

O dado mais relevante por trás dessa queda não está nos gráficos de candlestick. Está no fluxo: até 2 de outubro, o capital estrangeiro no mercado brasileiro já acumulava saldo positivo de R$ 2,55 bilhões no mês. Após a sessão de segunda-feira, esse número saltou para R$ 12,61 bilhões. Um avanço de quase cinco vezes em poucos dias úteis.

Esse volume de entrada de capital pressiona o câmbio para baixo de forma mecânica. Quando investidores estrangeiros convertem dólares em reais para comprar ativos brasileiros, a oferta de moeda americana no mercado local aumenta, e o preço cai. É a lei de oferta e demanda operando em sua forma mais direta.

Por que o capital estrangeiro está entrando com força

A resposta passa por três fatores que, combinados, tornaram o Brasil um destino atrativo nas últimas semanas. O primeiro é o diferencial de juros. Com a Selic ainda em patamares elevados em comparação com as taxas de economias desenvolvidas, o carry trade segue lucrativo. Investidores tomam dinheiro barato em mercados com juros baixos e aplicam no Brasil, embolsando a diferença.

O segundo fator é o posicionamento relativo dos ativos brasileiros. Depois de meses de desconto frente a pares emergentes, ações e títulos locais passaram a atrair atenção de gestores globais que buscam oportunidades no mercado financeiro com valuation descontado. O Ibovespa, denominado em dólar, ficou barato demais para ser ignorado.

O terceiro ponto é a fraqueza global do dólar. O índice DXY, que mede a força da moeda americana contra uma cesta de divisas fortes, operava em 102,38 pontos nesta quarta. Embora tenha subido 0,54% no dia, o indicador acumula queda significativa nos últimos meses. Quando o dólar perde força no mundo, moedas de países emergentes como o real tendem a se valorizar.

O fluxo de R$ 12,6 bilhões em contexto

Para entender a magnitude desse número, vale colocar em perspectiva. Um fluxo líquido de R$ 12,61 bilhões em poucas sessões é extraordinário. Em meses inteiros de 2025, o saldo do capital estrangeiro na B3 raramente ultrapassou R$ 10 bilhões.

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Esse tipo de entrada concentrada costuma gerar movimentos bruscos no câmbio, como os que estamos vendo. A questão é se o fluxo tem fôlego para continuar ou se representa uma janela pontual de alocação. Como já abordamos em análises anteriores sobre o mercado de câmbio, ondas de capital estrangeiro no Brasil historicamente vêm em ciclos: entram rápido e podem sair na mesma velocidade quando o cenário muda.

Há sinais de que a entrada atual pode ter mais sustentação do que movimentos anteriores. O diferencial de juros reais permanece elevado, e a percepção de risco fiscal, embora longe de resolvida, melhorou marginalmente nas últimas semanas.

O que o dólar mais fraco significa para quem investe

Um real mais forte tem consequências práticas que vão além do câmbio. Para investidores com exposição a ativos internacionais, a valorização do real corrói os retornos em moeda local. Quem comprou ETFs de S&P 500 ou mantém alocação em dólar vê o patrimônio encolher quando convertido para reais.

Por outro lado, a queda do dólar alivia pressões inflacionárias. Commodities importadas ficam mais baratas, o que pode abrir espaço para o Banco Central avaliar o ritmo da política monetária. Esse efeito indireto é talvez o mais relevante para o investidor comum, já que impacta desde o preço dos combustíveis até as expectativas de inflação que guiam as decisões do Copom.

Para o mercado de criptomoedas, a dinâmica é particular. O bitcoin e outros ativos digitais são denominados em dólar. Quando o real se valoriza, o preço do bitcoin em reais tende a cair mesmo que a cotação em dólar permaneça estável. Investidores que usam cripto como hedge cambial precisam recalcular suas posições.

Até onde o dólar pode recuar

Projetar patamares específicos para o câmbio é exercício de futurologia, não de análise. O que se pode observar são os fatores que sustentam ou ameaçam a tendência atual.

A favor da continuidade da queda, o fluxo estrangeiro segue robusto, o diferencial de juros permanece atrativo, e o DXY global não dá sinais de reversão estrutural. Contra, existem riscos conhecidos: a volatilidade fiscal brasileira pode ressurgir a qualquer momento, e uma mudança no discurso do Federal Reserve americano seria suficiente para reverter o movimento.

O patamar de R$ 5,00 funcionou como suporte psicológico durante meses. Agora que foi rompido, a região entre R$ 4,90 e R$ 4,95 passa a ser o próximo ponto de atenção técnica. Mas o que realmente vai determinar o rumo é o comportamento do fluxo. Se os R$ 12,6 bilhões de outubro forem apenas o começo de um ciclo de realocação global para emergentes, o real tem espaço para se fortalecer ainda mais.

O investidor informado deve acompanhar três indicadores nos próximos dias: o saldo de fluxo estrangeiro na B3 (divulgado diariamente), o comportamento do DXY e as sinalizações do Banco Central sobre eventuais intervenções no câmbio. A combinação desses fatores dirá se estamos diante de uma tendência ou de um suspiro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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