DIs disparam 250 pontos após Lula vencer: o que muda nos juros
Curva de juros teve maior estresse desde 2022, com Tesouro recomprando R$ 14,8 bi em títulos. Entenda o que o mercado espera agora para Selic e fiscal.
A primeira sessão após o segundo turno da eleição presidencial foi uma das mais turbulentas que o mercado de juros brasileiro já registrou. As taxas dos DIs saltaram mais de 250 pontos-base em alguns vencimentos, a B3 precisou paralisar negociações em diversos contratos e o Tesouro Nacional recomprou quase R$ 15 bilhões em títulos para evitar uma espiral de desvalorização. A mensagem do mercado foi inequívoca: a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, por 51,79% a 48,21% dos votos válidos, obrigou uma reprecificação violenta do risco fiscal.
O que aconteceu nesta segunda-feira não foi apenas um ajuste técnico. Foi uma correção de posição. A maior parte do mercado estava posicionada para a vitória de Flávio, o que havia comprimido prêmios na curva desde o primeiro turno. Com o resultado contrário, o ajuste veio com força redobrada.
O que aconteceu com a curva de juros
Os números deixam pouca margem para interpretação. A taxa do DI para janeiro de 2028 encerrou a sessão em 14,8%, uma alta de 194 pontos-base em relação ao ajuste de sexta-feira, quando estava em 12,859%. Na ponta longa, o DI para janeiro de 2031 fechou em 15,185%, subindo 254 pontos-base ante os 12,642% anteriores.
No auge da pressão, durante a manhã, o DI para janeiro de 2031 chegou a bater 15,940%, uma escalada de 330 pontos-base. A B3 precisou expandir os limites de oscilação para que o mercado encontrasse novos patamares de equilíbrio.
Para dimensionar o estresse: as taxas desta segunda-feira ficaram acima dos patamares registrados antes do primeiro turno. No dia 2 de outubro, o DI para janeiro de 2031 estava em 13,99%. Ou seja, o mercado não apenas devolveu o alívio do período eleitoral como adicionou prêmio extra. Isso indica que os investidores consideram o cenário fiscal atual mais desafiador do que antes do início da corrida eleitoral, um movimento que se conecta diretamente com as preocupações recorrentes do mercado com as contas públicas.
Por que a reação foi tão intensa
A explicação passa por dois fatores que se retroalimentaram. Primeiro, o posicionamento unilateral. Boa parte dos fundos e tesourarias de bancos havia montado posições apostando em queda de juros, antecipando uma gestão mais austera do gasto público sob Flávio Bolsonaro. Quando o resultado veio diferente, a liquidação dessas posições amplificou o movimento.
Segundo, há uma questão de substância: o mercado atribui à gestão Lula maior probabilidade de expansão fiscal. A percepção, correta ou não, é que os compromissos de campanha envolvem aumento de gastos sem contrapartida clara de receita. Essa leitura se reflete de forma mais aguda nos vértices longos da curva, onde o prêmio fiscal tem mais peso do que a política monetária de curto prazo.
Vale notar que, durante a campanha, nem Flávio nem seus assessores econômicos apresentaram propostas concretas para reduzir gastos. Ainda assim, o mercado operava com a premissa de que a agenda seria mais favorável ao ajuste fiscal. Essa assimetria de expectativas explica a violência do ajuste. Como já analisamos em matérias anteriores sobre o impacto da política fiscal nos investimentos, o mercado precifica intenções antes de fatos.
Tesouro entrou em modo de emergência
A atuação do Tesouro Nacional ao longo do dia foi reveladora da gravidade da situação. Logo pela manhã, o órgão cancelou o leilão de títulos indexados à inflação previsto para terça-feira e o leilão de prefixados de quinta-feira. Manteve apenas a oferta de LFTs, papéis atrelados à Selic, que sofrem menos com oscilações de mercado.
Além dos cancelamentos, o Tesouro realizou duas operações de recompra de títulos: R$ 7,1 bilhões em prefixados durante a manhã e R$ 7,7 bilhões em papéis indexados à inflação pela tarde. Ao todo, foram quase R$ 14,8 bilhões retirados do mercado. A lógica é simples: ao recomprar títulos em queda livre, o Tesouro fornece liquidez e impede que a espiral de preços se agrave.
Esse tipo de atuação coordenada não é trivial. A última vez que o Tesouro precisou agir com essa intensidade foi durante os episódios de estresse de 2022, quando o país enfrentava incerteza semelhante sobre a trajetória fiscal.
O que muda para a Selic e para o Copom
Talvez o dado mais surpreendente do dia tenha sido a mudança na expectativa para a próxima decisão do Copom. Na sexta-feira, antes do segundo turno, a curva precificava quase 100% de probabilidade de um corte de 25 pontos-base na Selic, hoje em 13,75%. Na manhã desta segunda, no auge do estresse, a curva chegou a precificar uma alta de 25 pontos-base.
Ao longo da tarde, com a atuação do Tesouro e alguma acomodação dos preços, o cenário se estabilizou em torno de uma Selic inalterada na próxima reunião. Mas a mudança de direção é dramática: em menos de 48 horas, o mercado saiu de “corte garantido” para “manutenção provável”, com risco de alta. Esse tipo de reprecificação súbita da política monetária afeta diretamente quem investe em renda fixa.
O Banco Central está agora em posição delicada. Se cortar a Selic na semana que vem, pode ser lido como complacente com a deterioração fiscal. Se mantiver ou subir, valida a narrativa de que o novo governo traz risco inflacionário. Qualquer decisão carrega custo político e econômico.
O que isso significa para quem investe
Para o investidor, o recado do mercado é direto. A era de juros em queda, que parecia encaminhada, está em xeque. Com as taxas longas acima de 15% ao ano, títulos prefixados e indexados à inflação comprados recentemente estão com marcação a mercado negativa. Por outro lado, quem busca entrar agora encontra taxas reais historicamente elevadas, o que pode representar oportunidade para quem tem horizonte longo e estômago para volatilidade.
O dólar disparou em paralelo, e o Ibovespa sofreu circuit breaker. O cenário de curto prazo exige cautela. A formação da equipe econômica do novo governo será o próximo catalisador. Se os nomes sinalizarem compromisso com responsabilidade fiscal, parte desse prêmio pode ser devolvido. Se a sinalização for na direção oposta, o mercado tem espaço para piorar.
A volatilidade desta segunda-feira não é o fim do ajuste. É o começo de uma nova fase de precificação, onde cada declaração, cada nome indicado e cada sinal sobre o arcabouço fiscal terão impacto direto na curva de juros e, consequentemente, no custo de crédito de todo o país.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


