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Déficit em conta corrente surpreende em julho: o que preocupa

Brasil registrou rombo de US$ 8,1 bi nas contas externas em julho, bem acima dos US$ 6,6 bi esperados. Investimento direto também decepcionou.

Déficit em conta corrente surpreende em julho: o que preocupa
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Banco Central divulgou nesta quinta-feira os números das transações correntes de julho, e o resultado acendeu um sinal amarelo que o mercado não esperava. O déficit atingiu US$ 8,11 bilhões, quase 23% acima da projeção de US$ 6,6 bilhões que os analistas consultados antecipavam. No mesmo mês do ano passado, o rombo havia sido de US$ 6,94 bilhões.

O número isolado já seria relevante. Mas o que torna a leitura mais incômoda é a combinação com um investimento direto no país abaixo do previsto e uma deterioração simultânea em três frentes da conta externa: renda primária, serviços e, em menor grau, balança comercial.

Por que o déficit veio tão acima do esperado

A principal pressão veio da conta de renda primária, que registrou saldo negativo de US$ 9,39 bilhões. Esse item captura, entre outras coisas, as remessas de lucros e dividendos de empresas estrangeiras operando no Brasil para suas matrizes. Em julho do ano anterior, o rombo nessa linha era de US$ 8,96 bilhões, o que significa uma piora de cerca de US$ 440 milhões em base anual.

A lógica é relativamente simples. Quando subsidiárias de multinacionais fecham balanços semestrais com resultados robustos, o volume de remessas tende a aumentar. Julho é historicamente um mês forte para esse tipo de fluxo, mas o salto deste ano sugere que a rentabilidade das operações no Brasil segue atraente o suficiente para justificar repatriações elevadas.

A conta de serviços também pesou. O déficit de US$ 5,27 bilhões representa uma deterioração de quase 10% em relação aos US$ 4,81 bilhões registrados um ano antes. Viagens internacionais, fretes e, cada vez mais, pagamentos por serviços digitais como assinaturas de plataformas e licenças de software contribuem para essa dinâmica. Como analisamos frequentemente na cobertura de finanças do portal, a digitalização da economia tem efeitos colaterais nas contas externas que ainda são subestimados.

Investimento direto decepciona e reduz o colchão de proteção

Se o déficit em conta corrente é o “gasto” externo do país, o investimento direto no país (IDP) funciona como a principal fonte de financiamento. Em julho, o IDP alcançou US$ 7,46 bilhões, abaixo tanto da projeção de US$ 7,92 bilhões quanto dos US$ 8,40 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.

A diferença é significativa. Enquanto o déficit em transações correntes cresceu US$ 1,17 bilhão na comparação anual, o investimento direto encolheu US$ 940 milhões. Isso significa que o chamado “gap de financiamento” aumentou em mais de US$ 2 bilhões em apenas um mês na comparação com julho do ano anterior.

Quando o IDP não cobre integralmente o déficit em conta corrente, o país depende de fluxos mais voláteis para fechar a conta: investimento em portfólio, empréstimos intercompanhias ou, em última instância, uso de reservas. Nenhuma dessas alternativas é tão saudável quanto o investimento produtivo de longo prazo. Como discutimos na análise sobre a trajetória do dólar, esse tipo de descompasso nas contas externas tende a pressionar o câmbio.

Déficit acumulado em 12 meses: 2,49% do PIB

O indicador mais acompanhado pelos economistas para avaliar a saúde das contas externas é o déficit acumulado em 12 meses como proporção do PIB. Em julho, esse número atingiu 2,49%. Para fins de contexto, entre 2015 e 2022, o Brasil operou com déficits médios na faixa de 1,5% a 2% do PIB. O patamar atual, portanto, está acima da média histórica recente.

Isso não configura uma crise. Países emergentes como Colômbia e Chile operam com déficits superiores a 3% do PIB há anos. Mas a trajetória importa mais do que o nível absoluto. Se o rombo continuar se ampliando nos próximos meses, o mercado pode começar a precificar um risco cambial mais elevado, o que retroalimenta a pressão sobre o dólar e, consequentemente, sobre a inflação.

A balança comercial, que historicamente é o ponto forte das contas externas brasileiras, registrou superávit de US$ 6,15 bilhões em julho. É um número robusto em termos absolutos, mas inferior aos US$ 6,39 bilhões do mesmo mês do ano passado. A queda reflete, em parte, a desaceleração de preços de commodities agrícolas e minerais que sustentaram os superávits recordes dos últimos anos.

O que isso significa para quem investe

O dado de conta corrente não é o tipo de indicador que move mercados no intraday. Mas ele funciona como um termômetro de vulnerabilidades que se acumulam ao longo do tempo. Para o investidor, há três implicações práticas.

Primeiro, a pressão cambial. Um déficit externo mais largo, combinado com investimento direto menor, tende a enfraquecer o real no médio prazo. Isso beneficia exportadores e ativos dolarizados, mas penaliza empresas com dívida em moeda estrangeira. Como abordamos na análise sobre o ciclo de juros, o câmbio é uma variável que o Banco Central monitora de perto nas decisões de política monetária.

Segundo, a leitura sobre juros. O Banco Central anunciou, no mesmo dia da divulgação dos dados, um leilão de venda à vista de US$ 1 bilhão combinado com swap cambial reverso de mesmo valor. A operação sinaliza preocupação com o câmbio e disposição de atuar para conter a volatilidade. Mas intervenções pontuais não resolvem desajustes estruturais.

Terceiro, o contexto fiscal. O déficit externo em alta coexiste com um debate doméstico sobre a trajetória fiscal do governo. Quando as duas frentes, externa e fiscal, apontam para deterioração simultânea, o prêmio de risco exigido pelo mercado sobe. Isso se traduz em juros longos mais altos e, eventualmente, em condições de crédito mais restritivas para empresas e famílias.

O dado de julho não é, por si só, uma emergência. Mas rompe uma narrativa que o mercado vinha comprando: a de que o Brasil estava em posição confortável nas contas externas. O conforto diminuiu, e a margem de erro ficou menor.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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