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CZ projeta Bitcoin a US$ 600 mil no próximo ciclo de alta

Changpeng Zhao aponta que ciclo anterior foi fraco, com alta de apenas 2x, e aposta em multiplicação de 5x sobre o topo recente para o próximo movimento.

CZ projeta Bitcoin a US$ 600 mil no próximo ciclo de alta
Foto: DS stories / Unsplash

Changpeng Zhao, o CZ, fundador da Binance e 19º homem mais rico do mundo segundo a Forbes, com uma fortuna estimada em US$ 107,7 bilhões, deu uma das declarações mais discutidas da semana no mercado cripto. Em entrevista publicada nesta terça-feira, o bilionário disse considerar “totalmente possível” que o Bitcoin atinja US$ 600 mil no próximo ciclo de valorização.

A conta é simples, mas carrega premissas que merecem escrutínio. CZ parte do último topo histórico do Bitcoin, na casa dos US$ 126 mil, e projeta uma multiplicação de 5 vezes. Se o ativo está hoje na faixa dos US$ 100 mil, isso representaria uma valorização de cerca de 6 vezes em relação ao preço atual.

Mas o que sustenta essa tese? E o que a história dos ciclos anteriores diz sobre a probabilidade de isso acontecer?

Por que CZ considera o último ciclo “fraco”

A lógica de CZ se apoia em uma análise comparativa dos ciclos de alta do Bitcoin. Em 2017, o ativo multiplicou seu valor por aproximadamente 10 vezes em relação ao pico anterior. Já no ciclo mais recente, a valorização foi de cerca de 2 vezes, partindo do topo de 2021 até o pico registrado nos últimos meses.

Para o fundador da Binance, esse desempenho mais tímido foi resultado de fatores macroeconômicos adversos: guerras, incertezas eleitorais e um ambiente de juros elevados que drenou liquidez dos ativos de risco. É uma leitura que encontra respaldo nos dados. O ciclo de aperto monetário do Federal Reserve, que levou os juros americanos ao maior patamar em duas décadas, comprimiu a performance de praticamente todos os ativos especulativos entre 2022 e 2024.

CZ também aponta que a diminuição da volatilidade é natural à medida que o Bitcoin amadurece como ativo. Com uma capitalização de mercado que já ultrapassa US$ 2 trilhões, movimentos de 10x se tornam progressivamente mais difíceis, pois exigem volumes de capital proporcionalmente maiores. A dinâmica dos ciclos cripto tende a comprimir os múltiplos de retorno com o tempo.

O que os números dizem sobre ciclos de alta do Bitcoin

Historicamente, cada ciclo do Bitcoin foi marcado por retornos decrescentes. Em 2013, o ativo saiu de cerca de US$ 13 para US$ 1.100, uma multiplicação superior a 80 vezes. Em 2017, foi de US$ 1.100 para quase US$ 20 mil, algo em torno de 18 vezes. No ciclo de 2021, saiu de US$ 20 mil para US$ 69 mil, cerca de 3,5 vezes. E no pico mais recente, alcançou US$ 126 mil, multiplicando por pouco menos de 2 vezes o topo anterior.

A tendência é clara: os múltiplos diminuem. Nesse contexto, projetar 5 vezes para o próximo ciclo representaria uma inversão da tendência histórica. Não é impossível, mas exigiria catalisadores extraordinários.

Entre os fatores que poderiam justificar essa aceleração estão a aprovação e consolidação dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos, a adoção institucional crescente por parte de fundos soberanos e tesourarias corporativas, e um eventual ciclo de afrouxamento monetário global. A entrada de capital institucional via ETFs já movimentou mais de US$ 60 bilhões em fluxos líquidos desde janeiro de 2024, segundo dados da Bloomberg.

A tese de US$ 1 milhão até 2033

CZ foi além e projetou que, no ciclo seguinte ao próximo, por volta de 2033, o Bitcoin poderia ultrapassar US$ 1 milhão. A lógica é menos ambiciosa do que parece: bastaria uma multiplicação de 2 vezes sobre os hipotéticos US$ 600 mil. Se a tendência de compressão de múltiplos se mantiver, um movimento de 2x seria até conservador para um ciclo completo de quatro anos.

“Não estou dizendo que isso vai acontecer. Estou dizendo apenas que é totalmente possível”, disse o fundador da Binance, adotando um tom cauteloso que contrasta com o otimismo do número em si.

O ponto relevante para quem investe não é tanto o alvo de preço, mas a premissa subjacente. CZ está assumindo que os ciclos de quatro anos, historicamente associados ao halving do Bitcoin, continuarão existindo. Essa é uma suposição que parte significativa dos analistas on-chain considera válida, embora alguns argumentem que a institucionalização do mercado pode suavizar esses ciclos até torná-los irrelevantes.

Rivalidade com OKX e o contexto por trás da entrevista

A entrevista também trouxe à tona tensões que raramente são discutidas publicamente. CZ mencionou sua passagem pela OKCoin, predecessora da OKX, onde trabalhou antes de fundar a Binance. O fundador da OKX, Star Xu, respondeu nas redes sociais com críticas duras, mencionando a condenação criminal de CZ nos Estados Unidos e acusando-o de tolerar violações de compliance.

CZ cumpriu pena de quatro meses em uma prisão federal americana em 2024, após se declarar culpado de violações às leis de lavagem de dinheiro. A Binance pagou uma multa recorde de US$ 4,3 bilhões como parte do acordo com o Departamento de Justiça dos EUA. Apesar disso, CZ manteve sua participação na empresa e sua fortuna cresceu exponencialmente com a valorização do BNB e do mercado cripto como um todo.

A rivalidade entre os dois executivos reflete as disputas de poder dentro do ecossistema cripto. Enquanto a Binance enfrenta restrições regulatórias crescentes, incluindo a recente saída da União Europeia por conta da regulação MiCA, concorrentes como a OKX buscam ganhar participação de mercado nos mercados onde a Binance perde terreno.

O que isso significa para quem investe

Projeções de preço feitas por executivos do setor devem ser lidas com cautela. CZ tem incentivos claros para ser otimista. Sua fortuna está diretamente atrelada ao desempenho do mercado cripto, e declarações positivas alimentam o sentimento de alta que beneficia seus próprios ativos.

O dado mais útil da entrevista não é o número em si, mas a análise dos múltiplos de ciclo. Se os retornos do Bitcoin continuarem comprimindo, o próximo ciclo poderia entregar algo entre 2x e 3x, levando o ativo para a faixa de US$ 250 mil a US$ 380 mil. Ainda seria um retorno expressivo para quem entrou nos patamares atuais.

A variável que pode mudar essa equação é a velocidade de adoção institucional. Com a entrada de grandes players do mercado financeiro tradicional, o Bitcoin pode se beneficiar de fluxos de capital em escala inédita. Mas isso também significa maior correlação com ativos tradicionais e menor potencial de multiplicação assimétrica, o que é justamente o que torna o ativo atraente para muitos investidores.

O ponto central permanece: independentemente de CZ estar certo ou não sobre os US$ 600 mil, a trajetória de longo prazo do Bitcoin depende menos de previsões individuais e mais de fundamentos como adoção, regulação e política monetária global.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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