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CVM leva pauta de tokenização à NYSE, Nasdaq e SEC

Presidente da CVM encerrou missão nos EUA com encontros sobre tokenização e IA nas maiores bolsas do mundo. No retorno, levou a pauta ao TCU.

CVM leva pauta de tokenização à NYSE, Nasdaq e SEC
Foto: Pixabay / Unsplash

A Comissão de Valores Mobiliários encerrou na semana passada uma missão oficial nos Estados Unidos que colocou a tokenização de ativos no centro das conversas com algumas das instituições mais relevantes do mercado financeiro global. O presidente da autarquia, Otto Lobo, se reuniu com representantes da NYSE, da Nasdaq, da SEC, da CFTC e do Banco Interamericano de Desenvolvimento ao longo de uma semana inteira de agenda em Nova York e Washington.

Na volta ao Brasil, o primeiro compromisso foi com o Tribunal de Contas da União, em Brasília. A sequência de encontros revela o peso que a pauta de infraestrutura digital para o mercado de capitais ganhou dentro do governo brasileiro.

O que a CVM discutiu com NYSE e Nasdaq

No encontro com a NYSE, realizado na quarta-feira (19), a CVM apresentou sua agenda de inovação com ênfase em dois pilares: tokenização de valores mobiliários e uso de inteligência artificial na supervisão de mercados. A bolsa nova-iorquina, por sua vez, compartilhou iniciativas próprias em curso na mesma direção.

As duas partes discutiram a realização de eventos para aproximar os mercados de capitais brasileiro e norte-americano, com apoio consular, focados em cooperação tecnológica e atração de investimentos para o Brasil. É um sinal concreto de que o regulador brasileiro quer posicionar o país como interlocutor relevante nessa transição de infraestrutura.

Na Nasdaq, a conversa girou em torno de como novas tecnologias financeiras estão ampliando a eficiência operacional e criando instrumentos inéditos tanto para investidores quanto para emissores. Um ponto central do diálogo foi o equilíbrio entre inovação e proteção regulatória, tema que permeia toda a discussão sobre modernização dos mercados de capitais.

Por que a tokenização virou prioridade regulatória

A tokenização consiste em representar ativos financeiros tradicionais, como ações, debêntures e cotas de fundos, em registros distribuídos (DLTs). Na prática, isso permite que a emissão, negociação e liquidação desses ativos aconteçam em uma infraestrutura digital programável, com potencial para reduzir custos, aumentar a velocidade de liquidação e ampliar o acesso de investidores menores.

O Brasil já tem histórico relevante nessa frente. O Banco Central conduz o projeto Drex, a moeda digital de banco central que opera sobre DLT. O BNDES, em parceria com o TCU, criou a Rede Blockchain Brasil (RBB) para reunir iniciativas governamentais com a tecnologia. E a própria CVM instituiu o Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT), com o objetivo de formular um arcabouço regulatório experimental para o ciclo completo de negociação de valores mobiliários via registro distribuído.

O que chama atenção é a amplitude institucional. Não se trata de uma iniciativa isolada de um órgão. A convergência entre CVM, Banco Central, BNDES e TCU em torno do mesmo tema sugere que a infraestrutura blockchain para mercados regulados deixou de ser uma pauta experimental e entrou no radar estratégico do Estado brasileiro.

A reunião com o TCU e o próximo passo

Na quinta-feira (20), já em Brasília, Otto Lobo foi recebido pelo presidente do TCU, Ministro Vital do Rêgo Filho. No encontro, apresentou os projetos de fortalecimento e modernização da autarquia, incluindo dois destaques: a prospecção de um modelo de inteligência artificial para aprimorar a supervisão de mercado e a formalização do GTT.

A conversa com o TCU não é protocolar. O tribunal tem participação ativa na Rede Blockchain Brasil e vem acompanhando de perto como a administração pública pode se beneficiar de registros distribuídos para aumentar transparência e rastreabilidade. A interseção de interesses entre CVM e TCU aponta para um cenário em que a regulação de ativos tokenizados no Brasil pode avançar com respaldo institucional mais amplo do que o habitual.

Lobo declarou que as duas instituições possuem interesses conjuntos, sem detalhar publicamente quais seriam os próximos passos concretos dessa cooperação.

O que isso significa para o mercado brasileiro

Para quem acompanha o mercado de capitais no Brasil, a missão da CVM nos EUA carrega duas mensagens importantes.

A primeira é de timing. Os Estados Unidos vivem um momento de reorganização regulatória no setor de ativos digitais, com a SEC sob nova gestão e o Congresso americano avançando em projetos de lei para stablecoins e estrutura de mercado cripto. A CVM brasileira se posicionou como interlocutora justamente nessa janela de transição, o que pode facilitar acordos de cooperação bilateral.

A segunda mensagem é de escopo. A agenda não se limitou a cripto no sentido estrito. O foco em tokenização de valores mobiliários tradicionais, combinado com inteligência artificial para supervisão, indica que a CVM está desenhando uma visão integrada de modernização tecnológica da infraestrutura de mercado. É uma abordagem que conecta o debate sobre blockchain ao funcionamento concreto de bolsas, custodiantes e sistemas de liquidação.

O arcabouço regulatório experimental que o GTT deve propor será o primeiro teste real dessa visão. Se o sandbox funcionar, o Brasil pode se tornar referência entre mercados emergentes na integração entre finanças tradicionais e infraestrutura de registro distribuído. Se travar na burocracia, vira mais um projeto piloto sem desdobramento prático.

O histórico recente do regulador brasileiro nessa frente, com o Drex avançando em fases de teste e a RBB operacional, sugere que o primeiro cenário é mais provável. Mas a distância entre missões internacionais e regulação efetiva costuma ser maior do que as notas oficiais sugerem.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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