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Finanças

Custo da IA pesa em Wall Street antes do payroll

Gastos bilionários com inteligência artificial derrubaram techs em Nova York. Semana traz payroll de outubro e eleições legislativas nos EUA.

Custo da IA pesa em Wall Street antes do payroll
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O mercado americano abriu a semana sem direção única, mas com uma mensagem bastante clara: os investidores estão cada vez mais desconfortáveis com a conta da corrida pela inteligência artificial. Enquanto o Dow Jones subiu 0,41% e fechou em 51.983 pontos, puxado por ações de consumo e indústria, o S&P 500 recuou 0,51% e o Nasdaq caiu 1,07%, pressionados por perdas concentradas no setor de tecnologia.

O pregão desta segunda-feira, 2 de novembro, funcionou como um termômetro do que deve dominar a semana: a tensão entre crescimento econômico e o preço que as grandes empresas estão dispostas a pagar para liderar a corrida da IA. Tudo isso com o payroll de outubro e as eleições legislativas americanas (midterms) no horizonte.

A conta da IA está assustando o mercado

O caso mais emblemático do dia foi o da Oracle, que despencou 8,85% após detalhar planos de captar US$ 20 bilhões, entre emissão de ações e dívida, para financiar sua expansão em infraestrutura de inteligência artificial. O mercado não recebeu bem a notícia. Não porque duvide do potencial da tecnologia, mas porque o volume de capital necessário para competir nessa corrida começa a parecer desproporcional aos retornos de curto prazo.

A Oracle não está sozinha. A Anthropic, dona do modelo Claude, reportou um crescimento de receita de 1.127% na comparação anual. O número é extraordinário, mas veio acompanhado de compromissos de gastos igualmente extraordinários, reforçando uma preocupação que já vinha se acumulando em Wall Street nas últimas semanas: o dinheiro está entrando, mas está saindo ainda mais rápido.

A Marvell Technology recuou 12,72% após anunciar uma combinação de negócios avaliada em US$ 115 bilhões com a Lumentum, que por sua vez tombou mais de 18%. Como analisamos em reportagens anteriores sobre o impacto da IA nos mercados, movimentos de consolidação desse porte costumam gerar volatilidade antes de qualquer ganho operacional.

Petróleo desaba e leva energéticas junto

A pressão sobre o setor de tecnologia dividiu o noticiário com uma queda expressiva do petróleo. A commodity recuou com força diante de sinais de avanço nas negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã. Declarações do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, reforçaram a expectativa de uma reaproximação que poderia, no médio prazo, ampliar a oferta global de petróleo.

O impacto foi direto nas gigantes do setor. A Chevron caiu 3,26% e a Exxon Mobil recuou 4,01%, sendo as principais responsáveis por limitar os ganhos do Dow Jones. Para quem acompanha o mercado financeiro global, a dinâmica é conhecida: quando o petróleo cai por razões geopolíticas, o efeito nos portfólios é imediato e nem sempre transitório.

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O dado positivo do dia ficou por conta do PMI industrial americano, medido pelo ISM, que subiu de 54,5 para 55,5 em outubro, contrariando a expectativa de estabilidade. É o tipo de número que, em circunstâncias normais, sustentaria uma alta mais consistente. Mas os gastos com construção caíram 1,9% em setembro, adicionando ruído ao quadro econômico.

Payroll e midterms: a semana que definirá o tom de novembro

O grande teste da semana ainda está por vir. O relatório de emprego de outubro, o payroll, será divulgado na sexta-feira e deve calibrar as apostas do mercado sobre os próximos passos do Federal Reserve. Um número forte pode reforçar a tese de que o banco central americano manterá os juros elevados por mais tempo. Um resultado fraco pode reacender temores de desaceleração.

As eleições legislativas de meio de mandato adicionam uma camada extra de incerteza. Historicamente, como mostramos em análises anteriores sobre ciclos políticos e mercado, as midterms tendem a gerar volatilidade nas semanas anteriores e alívio nos meses seguintes, independentemente do resultado. Mas em um ambiente onde os investidores já estão nervosos com os custos da IA e a trajetória dos juros, qualquer surpresa política pode amplificar movimentos.

Destaques individuais: quem subiu e quem caiu

Nem tudo foi pessimismo no pregão. A Idexx Laboratories disparou 21,85% após reportar resultados acima das expectativas e elevar sua projeção de lucro para o ano. A Amazon avançou 2,20% após ter sua recomendação elevada para compra pela PhillipCapital, e a Sherwin-Williams subiu 5,97%. Essas três ações ajudaram a sustentar o Dow Jones em território positivo.

A Apple recuou 1,85% antes de divulgar seu balanço trimestral após o fechamento, em um movimento típico de cautela pré-resultado. A Alphabet, controladora do Google, caiu 0,30% após anunciar uma nova emissão de eurobonds. Já a SpaceX subiu 1,22% com relatos de negociações com a EchoStar para entrar no mercado americano de telefonia móvel.

O que isso significa para o investidor

A sessão desta segunda-feira cristaliza um dilema que deve persistir nos próximos meses. A inteligência artificial é, sem dúvida, a maior tese de crescimento do mercado. Mas a distância entre investir na tecnologia e colher retornos está se mostrando maior do que muitos balanços sugeriam. Quando uma empresa precisa captar US$ 20 bilhões para se manter competitiva, o mercado legitimamente questiona quem vai pagar essa conta.

Para a semana, a combinação de payroll e eleições cria um cenário em que a cautela tende a prevalecer. Posições mais defensivas, como as que sustentaram o Dow Jones nesta segunda, podem continuar atraindo fluxo enquanto o setor de tecnologia digere a realidade dos seus custos. O investidor que entende essa dinâmica consegue se posicionar com mais clareza, em vez de reagir a cada manchete.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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