Criptomoedas

Cripto movimenta R$ 283 bi no Brasil e bate recorde no 1º semestre

O mercado cripto brasileiro registrou R$ 283,1 bilhões em operações no primeiro semestre de 2026, superando em 4,6% o mesmo período do ano anterior. USDT domina.

Cripto movimenta R$ 283 bi no Brasil e bate recorde no 1º semestre
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O mercado de criptoativos no Brasil atingiu um novo patamar. Segundo dados da Receita Federal divulgados na última semana, as operações com criptomoedas somaram R$ 283,1 bilhões entre janeiro e junho de 2026. É o maior volume já registrado para um primeiro semestre desde que o órgão começou a compilar a série histórica.

O número representa um avanço de 4,6% sobre os R$ 270,2 bilhões do mesmo período de 2025. Em relação ao primeiro semestre de 2024, quando as transações ficaram em R$ 191,4 bilhões, o salto é de quase 48%. O dado consolida uma trajetória de crescimento que vem se acelerando nos últimos três anos, mesmo diante de ciclos de volatilidade no mercado global.

Exchanges nacionais puxam o volume de negociações

A maior fatia do montante veio das exchanges domiciliadas no Brasil, responsáveis por R$ 177,6 bilhões do total. Esse valor equivale a 62,7% de todas as operações declaradas no semestre, o que mostra que a infraestrutura local segue ganhando participação frente às plataformas estrangeiras.

As operações sem intermediação de corretoras somaram R$ 64,7 bilhões. Já as transações realizadas por meio de plataformas no exterior responderam por R$ 40,4 bilhões. O crescimento das exchanges nacionais reflete, em parte, o amadurecimento regulatório do setor financeiro brasileiro, que tem atraído mais capital institucional para o segmento.

Maio e junho foram os meses mais fortes do período. As movimentações superaram R$ 58 bilhões e R$ 57,5 bilhões, respectivamente. Esses dois meses sozinhos responderam por cerca de 40% de todo o volume do semestre.

USDT domina com quase 60% do volume mensal

Quem acompanha o mercado cripto brasileiro já sabe: o verdadeiro protagonista por aqui não é o bitcoin. São as stablecoins, e mais especificamente o USDT (Tether), a criptomoeda pareada ao dólar americano.

Apenas em junho, o USDT movimentou R$ 33,96 bilhões, o equivalente a quase 60% de toda a atividade registrada no mês. O dado reforça uma dinâmica que já analisamos ao tratar do papel das stablecoins no ecossistema cripto nacional: o brasileiro usa o USDT menos como investimento especulativo e mais como ferramenta de proteção cambial, remessas internacionais e liquidez operacional para empresas.

Essa predominância levanta questões relevantes para o debate regulatório. A nova legislação do mercado de criptoativos no Brasil, conduzida pelo Banco Central, terá que endereçar o tratamento das stablecoins, especialmente considerando que elas funcionam, na prática, como um instrumento de câmbio paralelo.

Bitcoin e Ethereum mantêm relevância, mas ficam distantes do USDT

Entre os criptoativos tradicionais, o bitcoin segue como principal ativo de referência. Em junho, as operações com BTC somaram R$ 2,39 bilhões. O ethereum ficou em R$ 417,9 milhões no mesmo mês.

Os números, embora expressivos em termos absolutos, são modestos perto do USDT. O bitcoin representou cerca de 4% do volume de junho, enquanto o ethereum ficou abaixo de 1%. Isso não significa que esses ativos perderam importância no portfólio do investidor brasileiro, mas sim que a dinâmica de uso mudou. Boa parte da negociação de BTC e ETH migrou para produtos regulados, como os ETFs de criptomoedas listados na B3, que não entram nessa base de dados da Receita.

4,67 milhões de CPFs declararam operações em junho

O relatório da Receita também traz um retrato da base de participantes. Em junho de 2026, cerca de 4,67 milhões de CPFs e mais de 107 mil CNPJs constavam nas operações declaradas. O número representa contribuintes únicos que realizaram ao menos uma transação com criptoativos no mês.

A obrigação de reporte segue as regras da Instrução Normativa RFB nº 1.888/2019. Exchanges brasileiras precisam informar todas as operações de seus clientes ao Fisco, independentemente do valor. Já pessoas físicas e jurídicas que usam plataformas estrangeiras ou fazem operações peer-to-peer precisam declarar quando as transações superam R$ 30 mil no mês.

Vale notar que os dados podem sofrer revisões. A Receita considera as declarações mais recentes, incluindo retificações e entregas fora do prazo, o que torna os números preliminares sujeitos a ajustes em relatórios futuros.

O que o recorde significa para o investidor

Três leituras importantes emergem dos dados. Primeiro, o mercado cripto brasileiro continua em expansão mesmo em um ambiente de juros elevados, o que sugere que a demanda por ativos digitais transcende o ciclo de política monetária. Segundo, a dominância das stablecoins indica que o uso prático, e não apenas especulativo, está sustentando o crescimento do setor. Terceiro, o avanço das exchanges nacionais mostra que o investidor está cada vez mais confortável em operar dentro da jurisdição brasileira.

Para quem investe, o dado mais relevante talvez seja a composição do volume. Um mercado onde 60% das transações são em stablecoins é fundamentalmente diferente de um mercado movido por apostas em altcoins. Isso sugere maturidade e, ao mesmo tempo, demanda por infraestrutura regulatória que acompanhe essa realidade.

O primeiro semestre de 2026 confirma: cripto deixou de ser nicho no Brasil. Resta saber se a regulação vai acompanhar o ritmo do mercado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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