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Congelar os bitcoins de Satoshi? O dilema quântico que divide o mercado

CZ propôs congelar US$ 68 bilhões em bitcoins de Satoshi antes que computadores quânticos quebrem a criptografia. A ideia rachou o setor ao meio.

Congelar os bitcoins de Satoshi? O dilema quântico que divide o mercado
Foto: Markus Winkler / Unsplash

A pergunta soa absurda para quem entende a filosofia original do Bitcoin: um sistema sem permissão, sem censura, sem autoridade central capaz de decidir o destino das moedas de qualquer pessoa. Mas quando o risco envolve 1,1 milhão de bitcoins, estimados em US$ 68 bilhões, e a possibilidade concreta de que computadores quânticos consigam quebrá-los, a conversa muda de patamar.

O fundador da Binance, Changpeng Zhao, reacendeu esse debate ao sugerir, durante um podcast com Alex Thorn, da Galaxy Digital, que a comunidade deveria considerar congelar os endereços atribuídos a Satoshi Nakamoto. A ideia: dar de seis a 12 meses para que o criador do Bitcoin movesse seus tokens. Caso nada acontecesse, a rede decidiria pelo congelamento.

“Se não fizermos nada, estamos basicamente entregando isso a alguém que vai hackear”, disse Zhao. A frase resume uma tensão que vai muito além de um exercício teórico.

Por que a ameaça quântica preocupa agora

Computadores quânticos ainda não são capazes de quebrar a criptografia do Bitcoin. Mas os avanços recentes em processadores quânticos, como temos acompanhado na cobertura de tecnologia do portal, empurraram a discussão do campo acadêmico para o operacional. A questão deixou de ser “se” e passou a ser “quando”.

O problema específico dos bitcoins de Satoshi está no formato dos endereços usados nos primeiros blocos da rede. Essas moedas utilizam o formato Pay-to-Public-Key (P2PK), no qual a chave pública fica exposta diretamente na blockchain. Endereços mais modernos usam um hash da chave pública, o que adiciona uma camada extra de proteção. As moedas de Satoshi, portanto, seriam as primeiras vulneráveis em um cenário de ataque quântico bem-sucedido.

Não se trata apenas dos tokens do criador. Milhões de outros bitcoins dormentes em endereços antigos compartilham a mesma vulnerabilidade. Mas o volume atribuído a Satoshi é tão grande que um eventual roubo e despejo no mercado causaria um choque de oferta sem precedentes.

O argumento contra: permissão em um sistema sem permissão

Michael Terpin, fundador da Transform Ventures e figura conhecida no ecossistema cripto desde 2013, foi direto ao ponto: congelar os bitcoins de Satoshi abriria um precedente perigoso. “Começa uma ladeira escorregadia de criar permissão em um sistema que foi desenhado para ser sem permissão em relação à propriedade pessoal”, afirmou.

O raciocínio de Terpin parte de um princípio fundamental. Se o Bitcoin permite que qualquer entidade, seja um grupo de mineradores ou uma maioria social, decida congelar moedas de um endereço específico, o que impede que o mesmo mecanismo seja usado contra dissidentes políticos, empresas indesejadas ou qualquer pessoa que contrarie interesses dominantes?

Terpin também levantou uma questão prática: a dificuldade de obter consenso na rede. A implementação do SegWit, uma atualização relativamente simples em termos conceituais, levou anos de debates acalorados e chegou a provocar uma cisão que resultou no Bitcoin Cash. O histórico de governança do Bitcoin sugere que uma mudança dessa magnitude enfrentaria resistência feroz.

Na visão de Terpin, mesmo que um hacker quântico roubasse e despejasse os bitcoins de Satoshi, o impacto no preço seria temporário. “Seria um episódio único, e o bitcoin pós-quântico se recuperaria”, disse.

A proposta intermediária: um trust legal

Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, rejeitou as duas posições extremas. Nem deixar as moedas vulneráveis, nem congelá-las unilateralmente. Hougan apontou para uma terceira via proposta por Nic Carter, da Castle Island Ventures: colocar os bitcoins de Satoshi em uma espécie de trust legal, onde a propriedade só seria liberada mediante comprovação por registros eletrônicos históricos.

“Evita os desafios filosóficos tanto da sugestão do CZ quanto da perspectiva do ‘deixa acontecer'”, avaliou Hougan. Ele acrescentou um ponto que muitos investidores institucionais compartilham em silêncio: o mercado já precifica os bitcoins de Satoshi como permanentemente indisponíveis. Qualquer movimentação, seja por roubo quântico ou por desbloqueio legítimo, geraria mais risco do que oportunidade.

“Não vejo nenhum cenário em que desenvolvimentos em torno das moedas de Satoshi sejam positivos para o ecossistema”, disse Hougan.

O caminho técnico: BIP-361 e migração pós-quântica

Jameson Lopp, cofundador da Casa e um dos desenvolvedores mais influentes do ecossistema, enquadrou o debate de forma diferente. Para ele, o foco não deveria estar nas moedas de Satoshi, mas na preparação de toda a rede para um futuro em que a criptografia atual não será mais segura.

Lopp é autor da BIP-361, uma proposta de melhoria do Bitcoin que delineia uma migração gradual para criptografia resistente a ataques quânticos. O plano prevê incentivos e prazos para que usuários, exchanges, custodiantes e instituições migrem seus fundos para endereços protegidos por novos algoritmos.

“O objetivo é criar incentivos e prazos para que a migração aconteça de forma ordenada”, explicou Lopp. Em abril, ele já havia declarado que seria melhor congelar os bitcoins de Satoshi e milhões de outros tokens dormentes do que permitir que hackers os roubassem.

A posição de Lopp é pragmática. Se a rede implementar a BIP-361 com um prazo de migração, qualquer bitcoin não movido para endereços pós-quânticos após o deadline ficaria congelado por padrão. Isso resolveria a questão de Satoshi sem precisar tratar seus endereços de forma especial, preservando o princípio de tratamento igualitário entre todos os participantes da rede.

O que está em jogo para o investidor

Para quem investe em bitcoin, o debate importa por dois motivos concretos. Primeiro, a governança: a forma como a comunidade resolver essa questão definirá precedentes para futuras disputas sobre propriedade e censura na rede. Segundo, o risco de mercado: 1,1 milhão de bitcoins representam cerca de 5,2% de toda a oferta que existirá. Um despejo dessa magnitude no mercado teria efeitos devastadores no curto prazo.

Por enquanto, a discussão permanece teórica. Nenhum computador quântico atual é capaz de quebrar a criptografia do Bitcoin. Mas a janela entre “ameaça teórica” e “ameaça real” está encolhendo. E no mundo cripto, esperar o problema chegar para reagir costuma sair caro.

O consenso, se é que existe algum, parece apontar para a abordagem técnica de Lopp: não congelar endereços específicos, mas criar um mecanismo universal que force a migração de toda a rede. É a solução que menos agride os princípios fundadores do Bitcoin. Resta saber se a comunidade conseguirá implementá-la antes que a computação quântica transforme esse debate filosófico em uma emergência prática.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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