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Como Paulo Guedes construiu sua fortuna


Por Felippe Hermes
Outubro 3, 2021

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A revelação de que Guedes possui empresas no exterior tem chamado a atenção para eventuais ganhos cambiais, mas a história mostra que ganhar com erros do governo é a especialidade do ministro.

Foi em 1983 que Luiz Cezar Fernandes convidou outros dois amigos para fundar uma corretora, com o nome de PACtual. Além do C, de Luiz Cezar, o P de Paulo Guedes e A de André Jacurski completariam as iniciais.

Mais de 30 anos e 3 mudanças de controle depois, o Pactual ainda é um grande player do mercado, ou melhor, o BTG Pactual, ou simplesmente BTG.

A história do atual ministro começa porém alguns anos antes. Após cursar seu doutorado em Chicago, Guedes buscou por algum tempo um emprego em universidades brasileiras. Sem sucesso, foi para a Universidade Católica do Chile, em 1979, ainda durante o período Pinochet.

Por lá, Guedes ficou apenas 6 meses, tendo saído após relatar que policiais, ou membros do exército, vasculhavam seu imóvel.

De volta ao Brasil, Guedes encontrou o amigo Luiz Cezar, que havia saído do Garantia, a corretora fundada por Jorge Paulo Lemann e que se tornou um marco do mercado financeiro brasileiro.

Por algum tempo, a função de Guedes era avaliar e escrever cartas sobre a Macroeconomia brasileira.

Sua visão crítica sobre os planos econômicos, fez dele um dos maiores desafetos do governo, que por sua vez retaliou atrasando licenças para expandir a atuação do Pactual, que desejava se tornar um banco de fato.

A visão crítica, ainda que tenha gerado inimigos, também o fez ganhar uma fortuna.

Primeiro, Guedes apostou que o Plano Cruzado e seu congelamento de preços seria um fracasso. De fato, foi, e sob a atuação de Jacurski, o Pactual ganhou uma fortuna apostando no erro do plano.

A próxima jogada foi com relação ao plano Collor. Guedes cravou que o plano fracassaria e Jacurski investiu o capital em empresas exportadoras, fazendo o Pactual passar ileso ao confisco da poupança.

Ao contrário dos demais planos, Guedes apostou que o Plano Real, conduzido por seus desafetos pessoais como Pérsio Árida e André Lara Resende, daria certo.

Esta, de longe, foi a melhor aposta da dupla Guedes e Jacurski.

Sob a visão de Guedes sobre o plano, Jacurski pegou dinheiro emprestado lá fora a juros de 1-2% ao ano, e comprou títulos públicos aqui.

Para manter o real valendo $1 dólar, o Banco Central elevou os juros por aqui para até 45% ao ano.

Em suma, ambos estavam lucrando absurdamente, quando veio a decisão de C, de avançar o banco para o Varejo.

P e A, ou Guedes e Jacurski, discordam, saindo do banco com o que se estima hoje $150 milhões (ou R$150 milhões, considerando que o dólar ainda valia R$1 em 1997).

Juntos eles fundaram a JGP, onde Guedes assumiria a área de câmbio.

Já na JGP, Guedes acertou mais uma tacada: em meio a crise asiática (1997) e a crise na Rússia (1998), apostou que a paridade do Real não seria mantida. De novo, Jacurski comprou exportadoras e dólar. Mais um ganho fenomenal para os dois.

O problema, claro, é que o economista com visão quase impecável sobre o Macro também tinha seus vícios.

Desde o Pactual, Guedes apostava pesado no chamado “Day Trade”, a compra e venda de ativos dentro de um mesmo dia.

Apostando sua fortuna pessoal, Guedes estava perdendo dinheiro fazendo trade em “Ibov”, o índice da bolsa brasileira.

As fontes sobre as perdas de Guedes variam. Publicamente, se fala em R$20 milhões em prejuízos. Em conversas reservadas, há quem fale em prejuízos acima de 8 dígitos, ou R$100 milhões, em especial operando câmbio.

Os prejuízos se estendiam para além do índice, como também no câmbio.

Na prática, Guedes sempre brigou com o mercado, apostando nos erros alheios para fazer fortuna. O problema, claro, é que não dá pra brigar com o índice no espaço de 1 dia.

Em 2006, o atual ministro encerrou sua parceria com Jacurski, passando a cuidar de outra gestora, a BR Investimentos.

Foi por lá que conheceu os donos da Abril e da Globo, em negócios envolvendo a área de educação.

A saída de Guedes da JGP não foi lá das mais amistosas, ou lucrativas, como no caso do Pactual.

A criação da BR Investimentos significava portanto uma reinvenção, após sofrer perdas relativamente pesadas no mercado (como descrevem banqueiros que trabalharam com ele em ambas as empresas).

Na área de educação, Guedes levantou um fundo de R$360 milhões, apresentando resultados expresivos com o boom de IPOs (abertura de capital de empresas), durante os anos de 2007-2008.

O capital, porém, estava escasso. Guedes deixou de lucrar com a crise de 2008 por não ter condições de financiar sua tese de que o mercado estava a beira de um colapso.

Alguns anos depois, Guedes se tornaria diretor de uma nova empresa, a Bozano Investimentos, e hoje conhecida como Crescera.

A gestora é relativamente bem sucedida, com apostas elevadas no setor de ensino superior, como a Afya, de faculdades de medicina. Apenas nessa aposta, a gestora multiplicou seu capital por 6, saindo de R$600 milhões para R$3,7 bilhões.

Desde sua fundação, a gestora contou com recursos de fundão de pensão ligados a estatais, o que por vezes levantou suspeitas, incluindo aí do Ministério Público, que chegou a realizar uma investigação sobre a relação entre a gestora e os fundos.

Da mesma maneira, investigações sobre a relação do Banco do Brasil com o BTG Pactual, também já foram realizadas.

Fato é que o ministro manteve por um bom tempo uma visão apurada sobre o cenário macro econômico, ganhando fortuna com isso. O temperamento e a intuição de insistentemente brigar com o mercado, levaram a prejuízos pessoais, algo que custou uma boa grana, mas nada que impeça Guedes de ter um patrimônio considerável hoje.

Se o Ministro de fato ganhou dinheiro com a má gestão do governo (desta vez comandada por ele próprio), não seria lá a primeira vez (ainda que não exista nada além de especulação sobre este cenário).

O mais difícil, porém, é acreditar que o palestrante Paulo Guedes, que hoje vende otimismo, já tenha sido chamado de “beato salu”, por insistentemente “pregar o fim do mundo” com planos econômicos fracassados nos anos 80.

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