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Claude avança sobre consumidores pagantes do ChatGPT

Dados de transações de cartão de crédito mostram que a base paga do Claude cresceu 75% desde janeiro. A demanda por cursos sobre o rival da OpenAI já supera o ChatGPT entre consumidores individuais.

Claude avança sobre consumidores pagantes do ChatGPT
Foto: Pavel Danilyuk / Unsplash

A narrativa dominante sobre a Anthropic sempre girou em torno de desenvolvedores. A empresa fundada por ex-integrantes da OpenAI construiu reputação entre engenheiros de software e equipes corporativas, especialmente com ferramentas como o Claude Code. Mas dados recentes de transações financeiras mostram que essa história está mudando de forma significativa.

Análises da Indagari, empresa especializada em rastrear bilhões de transações anonimizadas de cartão de crédito de cerca de 28 milhões de consumidores americanos, revelam um padrão claro: a base de consumidores pagantes do Claude cresceu aproximadamente 75% desde janeiro de 2026. É um salto considerável para um produto que, até pouco tempo atrás, era visto como ferramenta de nicho.

O que explica o avanço do Claude entre assinantes individuais

O crescimento não aconteceu por acaso. Em março, a Anthropic ganhou atenção pública ao se recusar a permitir que seus modelos fossem utilizados pelo governo dos Estados Unidos para vigilância em massa e armas autônomas. A postura gerou um pico de adesão entre consumidores, algo que seria esperado como efeito temporário de relações públicas. Só que os dados mostram que o crescimento continuou mesmo após o pico inicial.

Isso sugere que a Anthropic conseguiu converter curiosidade em retenção. Quem experimentou o Claude depois da polêmica encontrou razões para continuar pagando. É um indicador qualitativo importante, como temos acompanhado na cobertura de inteligência artificial do portal.

Um segundo dado reforça a tese. A DataCamp, plataforma de educação em tecnologia com cerca de 20 milhões de usuários, aponta que “Claude” se tornou o termo mais buscado em seu site, superando até a palavra “IA”. Entre consumidores individuais que escolhem seus próprios cursos, a demanda por conteúdo sobre o Claude supera a do ChatGPT na proporção de três para um. Nos últimos 30 dias, a procura por cursos sobre Claude cresceu 18 vezes.

ChatGPT ainda domina, mas a distância diminui

É importante calibrar o entusiasmo com contexto. O ChatGPT continua sendo, por larga margem, a IA mais popular entre consumidores em todas as métricas relevantes. Dados da Sensor Tower confirmam que o produto da OpenAI mantém uma base de usuários pagos significativamente maior. O crescimento mais modesto do ChatGPT neste ano reflete, em parte, o desafio de expandir uma base que já é enorme.

Mas a dinâmica mudou. O Claude deixou de ser apenas a ferramenta preferida dos desenvolvedores para competir ativamente pelo bolso do consumidor comum. Em termos de receita coletada de pessoas físicas, a Anthropic vem encurtando a distância mês a mês. Comparamos os dois modelos em uma análise anterior, e o cenário competitivo já apontava para essa convergência.

No ambiente corporativo, o quadro permanece mais estável. Empresas que fazem treinamento interno ainda preferem cursos focados no ChatGPT, segundo a própria DataCamp. A familiaridade com a interface da OpenAI e a integração com o ecossistema Microsoft pesam nessa escolha. Porém, quando o profissional decide por conta própria onde investir seu tempo de aprendizado, o Claude vem ganhando preferência.

Os riscos à frente para a Anthropic

O crescimento vem acompanhado de turbulência regulatória. No início deste mês, o governo americano proibiu a Anthropic de permitir que seus modelos mais avançados focados em cibersegurança, o Mythos 5 e o Fable 5, fossem acessados por usuários fora dos Estados Unidos. A empresa optou por retirar ambos do mercado temporariamente.

Esse tipo de conflito com Washington cria incerteza material. Tanto a Anthropic quanto a OpenAI caminham em direção à abertura de capital, e investidores precisarão avaliar o quanto a postura da Anthropic em relação ao governo pode afetar contratos federais e acesso a mercados internacionais. A regulação de IA é um dos temas centrais que acompanhamos justamente por esse impacto direto nos negócios.

A questão de fundo é saber se a Anthropic consegue sustentar esse ritmo de aquisição de consumidores enquanto navega um ambiente político cada vez mais complexo. Os 75% de crescimento em cinco meses são impressionantes, mas representam uma base ainda pequena em comparação à da OpenAI.

Por que isso importa para quem acompanha o mercado de IA

O mercado de IA generativa caminha para uma fase em que a diferenciação não será apenas técnica. A escolha do consumidor, cada vez mais, leva em conta posicionamento ético, experiência de uso e ecossistema de aprendizado disponível. O Claude parece estar se beneficiando dessa mudança de critérios.

Para investidores e profissionais que acompanham o setor, o dado mais relevante não é o crescimento percentual em si, mas a diversificação da base de receita da Anthropic. Uma empresa que depende de desenvolvedores e contratos corporativos é mais vulnerável a ciclos de mercado do que uma que também gera receita recorrente de milhões de consumidores individuais.

Se a tendência atual persistir, a corrida entre Claude e ChatGPT vai se parecer menos com um monopólio natural e mais com a rivalidade entre iOS e Android: dois ecossistemas robustos, com perfis de usuário distintos e modelos de negócio complementares. E é exatamente nesse cenário que o mercado de IA fica mais interessante para todos os envolvidos.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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