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Circle lucra US$ 226 mi, mas ações caem 9%: o que houve

A emissora do USDC entregou receita de US$ 865 mi e lucro operacional de US$ 226 mi, mas o mercado puniu as ações. O problema é a sombra da Tether.

Circle lucra US$ 226 mi, mas ações caem 9%: o que houve
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

Lucro de US$ 226 milhões. Receita de US$ 865 milhões, alta de 17% na comparação anual. Volume de transações on-chain crescendo 49% em um ano. Pelos padrões de qualquer empresa de tecnologia financeira, os números do terceiro trimestre da Circle seriam motivo de celebração. Mas não foram.

As ações da emissora do USDC abriram em queda de 9,2% na Bolsa de Nova York nesta quinta-feira. O motivo é simples e brutal: a Tether, principal concorrente, reportou lucro operacional de US$ 1,5 bilhão no mesmo período. Quase sete vezes mais.

Esse descompasso resume um dilema estrutural do mercado de stablecoins. A Circle faz tudo certo do ponto de vista regulatório e de expansão institucional, mas ainda não consegue traduzir essa estratégia em resultados financeiros que rivalizem com a líder do setor.

Por que o mercado puniu a Circle apesar do crescimento

É preciso separar dois planos de análise. No operacional, a Circle entregou avanços concretos. A receita cresceu 17% contra o terceiro trimestre do ano passado. O volume de transações on-chain saltou 49%. E a Circle Payments Network multiplicou seu volume de pagamentos em 15,2 vezes, o que indica tração real em sua estratégia de infraestrutura.

O problema está no comparativo setorial. Com um valor de mercado de US$ 71 bilhões, o USDC ainda representa menos da metade do que a USDT movimenta. Quando investidores olham para uma empresa listada em bolsa com valuation de US$ 17,6 bilhões, a expectativa é que a monetização acompanhe o ritmo de crescimento do ecossistema. E US$ 226 milhões de lucro operacional, embora sólido, não sustentam essa tese frente à concorrência.

Como já analisamos em matérias sobre o mercado de stablecoins, a dinâmica entre USDC e USDT não é apenas de market share. É de modelo de negócio. A Tether opera com estrutura enxuta e menos custos regulatórios. A Circle, ao optar pela transparência e conformidade, carrega uma base de custos mais pesada.

A estratégia institucional da Circle: parcerias e aquisições

Se os números puros decepcionaram, a lista de movimentos estratégicos divulgados no relatório aponta para uma empresa que aposta no longo prazo. Em setembro, a Circle lançou a rede principal da Arc, com mais de 100 instituições envolvidas. É o tipo de infraestrutura que não gera receita imediata, mas posiciona a empresa como camada fundamental do sistema financeiro cripto.

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As parcerias também ganharam tração. A Visa migrou seu sistema de pré-financiamento com stablecoins do Visa Direct da fase de testes para operação comercial. A Samsung Wallet passou a permitir que usuários de dispositivos Galaxy nos Estados Unidos enviem USDC para contas bancárias em 60 países. A Binance, que investiu US$ 100 milhões na Circle, renovou e ampliou a parceria.

Há ainda a aquisição da Tazapay, plataforma de pagamentos internacionais B2B sediada em Singapura. O movimento amplia a capacidade da Circle de processar pagamentos na América Latina, na região Ásia-Pacífico e em mercados emergentes. Na Argentina, a empresa fechou acordo com a Allaria para ampliar a liquidez do USDC e o acesso institucional no país.

Essas iniciativas mostram que a Circle está construindo algo diferente da Tether. Enquanto a rival se concentra em maximizar retornos sobre reservas, a Circle tenta se transformar em uma infraestrutura de pagamentos globais. A questão, como sempre, é se o mercado terá paciência para esperar essa tese amadurecer, especialmente considerando as pressões do ambiente macroeconômico sobre ações de crescimento.

O que os resultados da Circle dizem sobre o mercado de stablecoins

O terceiro trimestre de 2026 oferece um retrato nítido do setor. Stablecoins deixaram de ser apenas instrumentos de trading em corretoras. Viraram infraestrutura de pagamentos internacionais, reserva de valor em economias instáveis e meio de liquidação institucional.

O USDC, com seus US$ 71 bilhões em valor de mercado, é a segunda maior stablecoin do mundo. A alta de 49% no volume de transações on-chain indica que a demanda real por uso, e não apenas especulação, está crescendo. Mas esse crescimento precisa se converter em margens maiores para justificar o valuation da empresa listada.

Outro ponto relevante é o contexto regulatório. A aprovação de marcos legais para stablecoins em diversas jurisdições tende a favorecer empresas como a Circle, que já operam dentro de padrões de conformidade. Contudo, como discutimos em análises sobre regulação do mercado cripto, mais regulação também significa mais custos operacionais, o que pode comprimir margens no curto prazo.

O dilema do investidor: crescimento versus rentabilidade

Para quem acompanha o setor, o episódio da Circle ilustra um dilema clássico de mercados de capitais aplicado ao universo cripto. A empresa está investindo pesado em infraestrutura, parcerias e expansão geográfica. Esses investimentos corroem o lucro presente, mas podem gerar retornos significativos no futuro.

O CEO Jeremy Allaire destacou que instituições estão ampliando operações com USDC. A Tereina levou o USDC e o EURC para o ecossistema SAP, o que significa integração com sistemas corporativos de grande porte. Esse tipo de adoção é lento, mas uma vez consolidado, gera receita recorrente difícil de substituir.

A queda de 9,2% nas ações, portanto, reflete mais a impaciência do mercado do que uma falha da empresa. Com um valuation de US$ 17,6 bilhões e receita anualizada que se aproxima de US$ 3,5 bilhões, a Circle não está barata. Mas também não está parada. O mercado vai decidir, nos próximos trimestres, se a aposta institucional da empresa compensa a diferença de rentabilidade frente à Tether.

No fim, o resultado do terceiro trimestre mostra que ser a stablecoin “regulada e transparente” tem um custo. A Circle paga esse preço agora. A questão é se colhe os frutos depois.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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