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Circle compra 680 patentes de blockchain da IBM e vira líder nos EUA

Emissora do USDC comprou quase 1.000 patentes concedidas globalmente. Movimento reforça estratégia de domínio em infraestrutura financeira on-chain.

Circle compra 680 patentes de blockchain da IBM e vira líder nos EUA
Foto: Morthy Jameson / Unsplash

A Circle, emissora da stablecoin USDC, acaba de se tornar a maior detentora de patentes de blockchain dos Estados Unidos. A empresa anunciou a aquisição de mais de 680 famílias de patentes e quase 1.000 patentes concedidas globalmente, todas provenientes do portfólio da IBM. O valor da transação não foi revelado, mas estimativas de mercado apontam para um montante na casa de dezenas a centenas de milhões de dólares.

A movimentação não é trivial. Em um setor que nasceu sob a filosofia do código aberto e da descentralização, a corrida por propriedade intelectual sinaliza uma mudança estrutural na forma como grandes empresas de cripto estão se posicionando para o próximo ciclo.

O que a Circle comprou e por que isso importa

As patentes adquiridas cobrem áreas críticas da infraestrutura blockchain: contratos inteligentes, identidade digital, tokenização de ativos, privacidade de dados e melhorias de desempenho e segurança. São tecnologias que a IBM desenvolveu ao longo de anos de pesquisa, incluindo o período em que liderou o projeto Hyperledger Fabric, uma das primeiras tentativas de levar blockchain para o ambiente corporativo.

Para a Circle, o portfólio serve a três frentes estratégicas. A primeira é o fortalecimento técnico do próprio USDC, que hoje circula em diversas redes e precisa de camadas robustas de segurança e interoperabilidade. A segunda é a Circle Payments Network (CPN), rede de pagamentos lançada para competir diretamente com sistemas tradicionais como SWIFT. A terceira é o Arc, infraestrutura voltada para liquidação e custódia.

Sarah Wilson, diretora jurídica da Circle, afirmou que a propriedade intelectual é essencial para avançar na missão de ampliar a adoção on-chain. Segundo ela, a IBM foi pioneira em inovação tecnológica e a aquisição amplia a capacidade da Circle de desenvolver infraestrutura para as “finanças globais nativas da internet”.

A estratégia por trás do maior portfólio de patentes blockchain dos EUA

O movimento da Circle precisa ser lido no contexto de sua trajetória recente no mercado cripto. A empresa abriu capital na Bolsa de Nova York e tem buscado se posicionar não apenas como emissora de stablecoin, mas como provedora de infraestrutura financeira completa. As ações da companhia reagiram com alta de 1,9% após o anúncio.

Há uma lógica defensiva importante nessa aquisição. No setor de tecnologia, empresas que acumulam patentes criam barreiras contra processos judiciais de concorrentes e dos chamados “patent trolls”, entidades que compram patentes exclusivamente para processar outras companhias. Com o maior portfólio de blockchain dos EUA, a Circle ganha poder de negociação e proteção jurídica para toda a sua stack tecnológica.

A lógica ofensiva também existe. A Circle mencionou que pretende explorar ferramentas financeiras baseadas em agentes de inteligência artificial, um campo que demanda exatamente o tipo de tecnologia coberta pelas patentes adquiridas. Contratos inteligentes autoexecutáveis, verificação de identidade e mecanismos de privacidade são peças fundamentais para qualquer sistema onde agentes autônomos de IA realizem transações financeiras.

Além disso, Circle e IBM anunciaram que planejam explorar novas oportunidades comerciais em conjunto, o que sugere que a relação entre as duas empresas vai além de uma simples venda de ativos.

Patentes e código aberto: a tensão que divide o mercado cripto

A reação da comunidade cripto ao anúncio foi dividida, e não por acaso. O Bitcoin nasceu sem patentes. Satoshi Nakamoto publicou o whitepaper e o código de forma aberta, sem reivindicar propriedade intelectual sobre nenhuma das inovações. Essa filosofia de código aberto foi fundamental para a adoção massiva da tecnologia e permanece como pilar ideológico de boa parte do ecossistema.

A acumulação de patentes por uma empresa centralizada gera desconforto legítimo. Se a Circle detém patentes sobre mecanismos fundamentais de contratos inteligentes ou tokenização, ela teoricamente pode restringir o uso dessas tecnologias por concorrentes. É o mesmo debate que o setor de software enfrentou nas décadas de 1990 e 2000, quando gigantes como Microsoft e Oracle usavam portfólios de patentes como arma competitiva.

Por outro lado, defensores da aquisição argumentam que a proteção é necessária em um ambiente regulatório cada vez mais complexo. Como mostramos em análises sobre o avanço da regulação financeira, empresas de cripto que operam sob escrutínio de reguladores precisam demonstrar controle sobre sua propriedade intelectual. O portfólio de patentes funciona como um escudo que protege não apenas a Circle, mas toda a infraestrutura construída sobre suas soluções.

O que muda para o mercado de stablecoins

O USDC é a segunda maior stablecoin do mundo, atrás apenas do USDT da Tether. A diferença de estratégia entre as duas emissoras é cada vez mais evidente. Enquanto a Tether opera com estrutura enxuta e foco em mercados emergentes, a Circle aposta em conformidade regulatória, listagem em bolsa e agora acumulação de propriedade intelectual.

Essa divergência reflete uma segmentação do mercado de stablecoins. O USDC se posiciona para capturar o fluxo institucional, de bancos, fintechs e grandes corporações que precisam de garantias jurídicas robustas. As patentes adquiridas da IBM reforçam essa narrativa ao adicionar uma camada de proteção tecnológica que investidores institucionais valorizam.

Para o ecossistema mais amplo de criptomoedas e finanças descentralizadas, a movimentação da Circle sinaliza que a competição entre stablecoins está migrando do terreno puramente financeiro para o terreno tecnológico e jurídico. Quem controla as patentes fundamentais de blockchain tem poder de influenciar os padrões do setor nos próximos anos.

IBM se distancia do blockchain, Circle avança

Para a IBM, a venda das patentes representa mais um passo de afastamento do setor de blockchain. A gigante de tecnologia já havia reduzido significativamente sua equipe dedicada ao Hyperledger e reorientado investimentos para inteligência artificial e computação quântica. A venda do portfólio de patentes consolida esse movimento de saída.

É uma dinâmica reveladora do estágio atual da indústria. As empresas tradicionais de tecnologia que entraram no blockchain entre 2016 e 2020 estão, em grande parte, recuando ou pivotando. Quem está absorvendo esses ativos são as empresas nativas de cripto que amadureceram e agora têm capital e estrutura para integrá-los.

A Circle, com sua listagem na NYSE e uma receita crescente gerada pela gestão das reservas do USDC, tem o caixa para fazer esse tipo de aquisição. E o momento é oportuno: com a IBM vendendo, o preço provavelmente foi mais favorável do que seria em um cenário de maior competição entre compradores.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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