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China compra ouro no maior ritmo em 3 anos: o que muda

Reservas chinesas cresceram US$ 19,5 bi em agosto, com 22 meses seguidos de compras de ouro. Movimento pressiona o dólar e redesenha o tabuleiro global.

China compra ouro no maior ritmo em 3 anos: o que muda
Foto: Zlaťáky.cz / Unsplash

A China não está apenas acumulando ouro. Está acelerando o ritmo. Em agosto, o Banco do Povo da China (PBoC) adicionou 650 mil onças de ouro às reservas oficiais, o maior incremento mensal desde outubro de 2023. Foi o 22º mês consecutivo de compras, uma sequência que não deixa margem para dúvida sobre a estratégia de Pequim.

No mesmo período, o estoque total de reservas cambiais subiu US$ 19,55 bilhões, alcançando US$ 3,438 trilhões. O número superou as estimativas de economistas consultados pelo Wall Street Journal, que projetavam US$ 3,425 trilhões. A combinação de dólar mais fraco e superávit comercial robusto explica parte do salto, mas o dado do ouro conta uma história mais profunda.

Por que a China está acumulando ouro de forma tão agressiva

As reservas oficiais de ouro da China chegaram a 76,73 milhões de onças ao fim de agosto, o equivalente a cerca de US$ 350 bilhões. O aumento de 650 mil onças em relação a julho representa uma aceleração clara: em junho, o acréscimo havia sido de 480 mil onças; em julho, 640 mil.

Esse padrão não é acidental. Desde 2022, diversos bancos centrais de economias emergentes intensificaram a diversificação de reservas para fora do dólar americano. A China lidera esse movimento. Como explicamos em nossa cobertura sobre mercados globais, o contexto geopolítico é o principal motor dessa mudança estrutural.

A lógica é simples: ouro não pode ser congelado por sanções. Após o Ocidente bloquear US$ 300 bilhões em reservas russas em 2022, a mensagem ficou clara para qualquer economia com relações complexas com Washington. Diversificar é uma questão de soberania, não apenas de retorno financeiro.

O que o yuan subvalorizado tem a ver com isso

Os dados de agosto foram divulgados em um momento delicado. Autoridades internacionais pressionam Pequim por medidas contra exportações de baixo custo, e há apelos crescentes para que o governo chinês permita uma valorização do yuan, considerado amplamente subvalorizado pelos parceiros comerciais.

O superávit comercial da China segue em patamares elevados, o que naturalmente pressiona o yuan para cima. Ao comprar dólares e ouro com os excedentes, o PBoC consegue dois objetivos simultâneos: mantém a moeda competitiva para exportadores e constrói um colchão estratégico de reservas.

Economistas avaliam, porém, que é improvável que Pequim aceite uma valorização rápida. Os efeitos colaterais seriam imediatos: perda de competitividade nas exportações, desaceleração do crescimento e pressão sobre a demanda interna, que já enfrenta dificuldades em setores como o imobiliário.

O impacto no preço do ouro e nos mercados globais

A compra contínua da China é um dos fatores que sustentam o ouro em patamares historicamente elevados. O metal precioso acumula valorização expressiva nos últimos 24 meses, impulsionado pela demanda de bancos centrais, incerteza geopolítica e expectativas sobre juros americanos.

Não é só a China. A Holanda recentemente retirou 59 toneladas de ouro dos Estados Unidos, em um movimento que reforça a tendência global de repatriação de reservas físicas. Como analisamos em nossos materiais sobre política monetária global, a confiança no sistema baseado no dólar está sendo testada em múltiplas frentes.

Para investidores brasileiros, o cenário cria uma dinâmica interessante. O ouro em reais tem entregado retornos robustos tanto pela valorização do metal quanto pela variação cambial. Fundos de investimento atrelados ao ouro registram captação positiva há meses consecutivos no mercado doméstico.

O que a sequência de 22 meses revela sobre a estratégia de longo prazo

Vinte e dois meses consecutivos de compras não são uma decisão tática. São uma reconfiguração de portfólio em nível soberano. A China, que historicamente mantinha a maior parte de suas reservas em títulos do Tesouro americano, vem reduzindo essa exposição de forma gradual e consistente.

Em paralelo, como discutimos em nossa análise sobre o cenário macroeconômico, outros países do chamado Sul Global também diversificam reservas. Índia, Turquia e Polônia figuram entre os maiores compradores de ouro em 2025 e 2026.

O dado de agosto da China, portanto, não é um evento isolado. É mais um capítulo de uma reorganização do sistema monetário internacional que avança em câmera lenta, mas com direção clara. O dólar segue dominante, respondendo por cerca de 58% das reservas globais, mas a fatia vem caindo trimestre a trimestre.

E daí: por que isso importa para quem investe

Três pontos práticos. Primeiro: a demanda estrutural de bancos centrais cria um piso de preço para o ouro que independe de especulação de curto prazo. Segundo: a desvalorização gradual do dólar como ativo de reserva tende a beneficiar ativos reais, incluindo commodities e, por extensão, economias exportadoras como o Brasil.

Terceiro, e talvez mais relevante: a tensão entre pressões por valorização do yuan e a resistência de Pequim em ceder cria um risco de fricção comercial que pode respingar em mercados emergentes. Se as tarifas sobre exportações chinesas aumentarem como resposta, o efeito cascata sobre cadeias de suprimento globais é inevitável.

O acúmulo de ouro pela China não é apenas uma notícia sobre reservas. É um sinal sobre como a segunda maior economia do mundo está se preparando para um cenário em que o dólar não seja mais o único porto seguro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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