Cerebras estreia na Nasdaq com alta de 68%
A fabricante de chips de IA levantou 1,25 bilhão de dólares no IPO e atingiu valor de mercado acima de 12 bilhões. O que a estreia diz sobre o apetite por IA.
A Cerebras Systems, uma das poucas empresas que ousam competir com a Nvidia no mercado de chips para inteligência artificial, estreou na Nasdaq com uma valorização de 68% no primeiro dia de negociação. A companhia levantou 1,25 bilhão de dólares em sua oferta pública inicial, precificada a 36 dólares por ação, e encerrou o pregão cotada acima de 60 dólares, atingindo um valor de mercado superior a 12 bilhões de dólares.
O desempenho é o melhor IPO de tecnologia nos Estados Unidos em mais de dois anos e reacende o debate sobre até onde vai o ciclo de investimentos em infraestrutura de IA. A Cerebras se diferencia da Nvidia por fabricar um chip único e gigante, o Wafer Scale Engine (WSE), que ocupa o espaço de um wafer inteiro de silício, em vez de recortá-lo em centenas de chips menores como é o padrão da indústria.
O que a Cerebras faz de diferente
O WSE-3, chip mais recente da Cerebras, contém 4 trilhões de transistores e 900 mil núcleos de processamento otimizados para IA. Para comparação, o H100 da Nvidia tem 80 bilhões de transistores. A aposta da Cerebras é que um único chip massivo elimina gargalos de comunicação entre múltiplos processadores, acelerando o treinamento de modelos de linguagem de grande porte.
Na prática, isso significa que clientes como Condor Galaxy, um consórcio de supercomputação ligado ao fundo soberano de Abu Dhabi, conseguem treinar modelos de IA em semanas, em vez de meses. A Condor Galaxy é o maior cliente da Cerebras e respondeu por mais de 80% da receita da empresa no último ano fiscal, o que é simultaneamente uma prova de conceito e um risco de concentração significativo.
A receita da Cerebras triplicou no último ano, saltando de 78 milhões de dólares para mais de 240 milhões de dólares. Ainda assim, a empresa opera no vermelho, com prejuízo líquido superior a 100 milhões de dólares. É um padrão familiar para empresas de semicondutores em fase de crescimento acelerado, onde cada dólar de receita é reinvestido em pesquisa e escala de produção.
O apetite do mercado por IA não arrefeceu
A estreia da Cerebras confirma que o mercado de capitais americano continua com apetite voraz por teses ligadas a inteligência artificial, mesmo com os valuations das big techs em patamares historicamente elevados. No mesmo dia em que a Cerebras disparou, a IREN, empresa de data centers e mineração de bitcoin, fechou uma emissão de 3 bilhões de dólares em notas conversíveis para expandir sua infraestrutura de IA.
Esses movimentos não acontecem no vácuo. As estimativas da consultoria Gartner apontam que os gastos globais com infraestrutura de IA devem ultrapassar 300 bilhões de dólares neste ano, um salto de 40% em relação ao ano anterior. Nvidia, AMD, Intel, Broadcom e agora Cerebras competem por fatias desse bolo que cresce em velocidade inédita.
O que chama atenção é o perfil dos compradores do IPO. Segundo fontes próximas à operação, os maiores lotes foram alocados para fundos soberanos do Oriente Médio e grandes gestoras de tecnologia, não para hedge funds especulativos. Isso sugere uma visão de longo prazo sobre a necessidade de alternativas à Nvidia, especialmente em um momento em que as restrições de exportação de chips americanos para a China continuam recalibrando a cadeia global de semicondutores.
Os riscos que o mercado está ignorando
A concentração de receita em um único cliente é o risco mais óbvio. Se a Condor Galaxy reduzir encomendas ou renegociar preços, o impacto na Cerebras seria imediato. Além disso, a abordagem de chip único enfrenta desafios de manufatura que a Nvidia não tem. Fabricar um wafer inteiro sem defeitos é exponencialmente mais difícil do que recortar chips individuais, e a taxa de rendimento (yield) da Cerebras nunca foi divulgada publicamente.
Há também a questão da compatibilidade de software. O ecossistema CUDA da Nvidia é o padrão da indústria para desenvolvimento de IA, com milhões de desenvolvedores treinados nessa plataforma. A Cerebras usa seu próprio software, o que cria uma barreira de adoção significativa. Para que clientes migrem, o ganho de performance precisa ser tão grande que justifique o custo de retreinar equipes e reescrever código.
O que a estreia da Cerebras sinaliza
Para o investidor, a mensagem é clara. O mercado está disposto a pagar prêmios elevados por qualquer empresa que ofereça uma alternativa crível ao domínio da Nvidia em chips de IA. A Cerebras não precisa derrotar a Nvidia para ser um bom investimento. Basta capturar uma fatia pequena de um mercado que cresce a 40% ao ano.
Porém, a história dos semicondutores é repleta de empresas que tiveram IPOs espetaculares e depois perderam relevância. A Tilray no mercado de cannabis, a Rivian em veículos elétricos e a Coinbase em cripto tiveram estreias eufóricas seguidas de correções brutais. O teste real da Cerebras virá nos próximos trimestres, quando o mercado exigir diversificação de clientes e um caminho crível para a lucratividade.
A alta de 68% no primeiro dia é um voto de confiança. Mas, como qualquer investidor experiente sabe, confiança sem execução vira especulação. Os próximos resultados trimestrais dirão se a Cerebras é a próxima AMD ou a próxima promessa que ficou pelo caminho.