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Trilhões em capital institucional miram o Bitcoin na próxima década

Gestoras, fundos soberanos e pensões controlam até US$ 200 trilhões em ativos. Uma alocação de apenas 1% em Bitcoin mudaria o mercado por completo.

Trilhões em capital institucional miram o Bitcoin na próxima década
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O Bitcoin já provou que consegue atrair o varejo. De zero a uma capitalização de mercado acima de US$ 2 trilhões, a trajetória foi construída basicamente por investidores individuais, entusiastas de tecnologia e especuladores. Mas a próxima fase do ativo, segundo Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, depende de um público completamente diferente: o capital institucional.

Em entrevista recente, Hougan afirmou que trilhões de dólares devem migrar para o Bitcoin ao longo da próxima década, à medida que consultores financeiros, family offices, fundos de pensão, seguradoras e até bancos centrais passem a enxergar o ativo como parte legítima de um portfólio diversificado.

Não se trata de uma previsão abstrata. As primeiras movimentações já são visíveis nos registros regulatórios dos Estados Unidos, como os formulários 13F que detalham as posições de grandes gestoras em ETFs de Bitcoin à vista. Instituições como Morgan Stanley e Wells Fargo também ampliaram o acesso de seus clientes ao ativo digital.

O tamanho do dinheiro que ainda não entrou

A escala potencial é o que torna a tese tão relevante. Segundo Hougan, as instituições que ainda estão de fora controlam algo entre US$ 100 trilhões e US$ 200 trilhões em ativos globais. Uma alocação de apenas 1% representaria um fluxo de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões, o equivalente à capitalização de mercado inteira do Bitcoin em diversos momentos da sua história.

O processo, no entanto, será gradual. Hougan estima que levará mais de dez anos para se desenrolar por completo. Os primeiros a se mover em escala serão consultores financeiros e family offices, segmentos que já demonstram interesse crescente. Depois, virão fundações, endowments universitários, seguradoras e, por fim, os gigantes: fundos soberanos e bancos centrais.

Essa sequência faz sentido do ponto de vista regulatório e cultural. Consultores financeiros têm mais flexibilidade para testar alocações pequenas. Já fundos de pensão e soberanos precisam de mandatos claros, trilhas de auditoria e, acima de tudo, de um precedente estabelecido por outros participantes do mercado. A aprovação dos ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos foi um marco nesse sentido, ao criar um veículo regulado e familiar para a exposição ao ativo.

A tese dos US$ 1,3 milhão por Bitcoin

Hougan também detalhou o racional por trás da sua projeção de longo prazo: um Bitcoin a US$ 1,3 milhão até 2035. O cálculo parte do mercado de reserva de valor, hoje dominado pelo ouro, que saiu de uma capitalização de cerca de US$ 2 trilhões em 2004, quando surgiram os primeiros ETFs do metal, para aproximadamente US$ 30 trilhões atualmente.

Se esse mercado continuar crescendo ao ritmo histórico de 13% ao ano na próxima década, e se o Bitcoin conquistar uma fatia de 25% dele, cada unidade alcançaria o patamar projetado. Trata-se de uma modelagem que exige premissas ousadas, mas não desconectadas da realidade: o ouro já demonstrou que a criação de um veículo acessível, como o ETF, pode multiplicar a demanda por um ativo de reserva.

A comparação com o ouro é recorrente no mercado, mas Hougan faz uma ressalva importante. Muitos analistas projetam que o Bitcoin vai “tomar” 50% do mercado do ouro, o que implicaria um preço de cerca de US$ 715 mil. Hougan vai além ao argumentar que o mercado total de reserva de valor está em expansão, e não é um jogo de soma zero entre ouro e Bitcoin.

O papel decrescente da Strategy (ex-MicroStrategy)

Um ponto que chamou atenção na análise foi a avaliação sobre a Strategy, maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo, com 842.138 BTC em carteira. Segundo Hougan, a empresa explorou duas distorções de mercado para construir sua posição: durante anos, investidores trataram suas ações como um dos únicos veículos de exposição pública ao cripto, permitindo emissões de ações com prêmio sobre o valor dos Bitcoins em caixa. A empresa também emitiu dívida conversível e ações preferenciais para financiar compras adicionais.

Ambas as vantagens estão se esgotando. Os ETFs à vista oferecem agora uma alternativa direta e mais eficiente, reduzindo o prêmio que o mercado aceita pagar pelas ações da Strategy. Ao mesmo tempo, a empresa já emitiu tanta dívida quanto o mercado estava disposto a absorver na sua estrutura de capital atual. Nas palavras de Hougan, “os caminhos fáceis de acumulação foram exauridos”.

Isso não significa que a Strategy vai parar de comprar Bitcoin, mas sim que o ritmo será menor e mais sensível ao ciclo de preços. Para o mercado como um todo, a consequência é clara: o próximo grande motor de demanda não será uma única empresa, mas sim a entrada gradual de milhares de instituições com tíquetes menores, porém somados em trilhões.

O que importa para quem investe

A provocação mais relevante de Hougan talvez seja a última. Para investidores de longo prazo, a pergunta que realmente importa não é se o Bitcoin encontrou um fundo local ou se haverá uma correção de curto prazo. A pergunta, segundo ele, é se o topo já foi atingido.

Se a tese de adoção institucional se confirmar, mesmo que parcialmente, a resposta seria não. O varejo levou o Bitcoin de zero a US$ 2 trilhões. A passagem de US$ 2 trilhões para US$ 20 trilhões exige um tipo diferente de capital, com horizontes mais longos, processos de decisão mais lentos e, crucialmente, muito mais dinheiro.

Para quem acompanha o mercado cripto, vale lembrar que a narrativa do Bitcoin como reserva de valor ganha ou perde força dependendo do ciclo macroeconômico. Em cenários de juros elevados e aversão a risco, o ativo sofre como qualquer outro. Mas a infraestrutura para a adoção institucional, que há cinco anos simplesmente não existia, agora está posta: custódia regulada, ETFs aprovados, trilha de compliance e produtos estruturados.

A questão é de velocidade, não mais de possibilidade. E trilhões de dólares se movem devagar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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