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Finanças

Bradesco perde fôlego no 3º tri com macro pesado

Lucro do Bradesco cresce apenas 0,8% no trimestre, inadimplência sobe para 4,6% e ROE recua. O cenário macro limita a recuperação do banco.

Bradesco perde fôlego no 3º tri com macro pesado
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Bradesco entregou um terceiro trimestre que, na superfície, parece estável. O lucro líquido recorrente foi de R$ 7,1 bilhões, crescimento de 0,8% frente ao segundo trimestre e de 14,6% na base anual. Mas por trás desses números está uma história de desaceleração que preocupa o mercado.

O ROE ficou em 15,6%, ou 16,1% desconsiderando o aumento de capital recente de R$ 10 bilhões. No trimestre anterior, o indicador estava em 16,2%. A trajetória de melhora que vinha sustentando a tese de turnaround perdeu momento justamente quando o cenário macroeconômico brasileiro voltou a apertar.

Inadimplência sobe e pressiona provisões

O dado mais sensível do balanço é a inadimplência. O índice total acima de 90 dias subiu para 4,6%, ante 4,3% em junho e 4,1% em setembro do ano anterior. Na carteira de pessoas físicas, a taxa chegou a 5,8%, frente a 5,5% no trimestre anterior. Nas pequenas e médias empresas (PMEs), o salto foi ainda mais expressivo: de 4,4% para 4,9% no trimestre, com o número em 3,7% há apenas dois trimestres.

Parte dessa elevação tem explicação técnica. Linhas que contam com os fundos garantidores FGI e FGO liberam as garantias entre 120 e 180 dias após a inadimplência. Até lá, os valores entram nos índices como atraso. Mas houve também deterioração real, especialmente na carteira rural, com impacto direto sobre o segmento de pessoas físicas.

O reflexo apareceu nas provisões, que subiram 7% no trimestre e 24% na comparação anual. A margem das operações de crédito pós-PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) recuou para 4,2%, sinalizando que o banco está pagando mais caro para manter a carteira em pé. Como temos acompanhado na cobertura de bancos e crédito, a deterioração do ciclo de crédito brasileiro segue como tema central para o setor financeiro.

Crédito cresce, mas com menos risco e menos retorno

A carteira de crédito expandiu 1,1% no trimestre e 11,1% na base anual. Os números são positivos, mas vieram abaixo do ritmo observado nos trimestres anteriores. A razão é estratégica: diante do cenário adverso, o Bradesco concentrou a expansão em linhas com mais garantias.

Essas operações já representam 61,2% do total de empréstimos, ante 59,5% no mesmo período do ano passado. É uma decisão defensiva que protege o balanço, mas cobra um preço na rentabilidade. Linhas garantidas rendem menos, o que explica por que a margem com clientes cresceu apenas 1,5% no trimestre e 10,1% no ano, abaixo das expectativas.

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O CEO Marcelo Noronha reconheceu a pressão. “Estamos dentro do mercado brasileiro, e existe uma pressão geral na inadimplência e no custo de crédito”, disse na apresentação de resultados. Segundo ele, o mix da carteira está mais protegido do que em ciclos anteriores. Se houvesse “vento de popa” na economia, a carteira poderia crescer 20% no ano, com impacto de até R$ 500 milhões no lucro líquido.

A declaração revela o dilema central do Bradesco neste momento: o banco tem a estrutura pronta para acelerar, mas o macro não deixa. Essa dinâmica não é exclusiva do setor bancário. Análises recentes sobre o mercado de crédito mostram que o ciclo de juros elevados continua comprimindo a rentabilidade de toda a cadeia financeira no Brasil.

Eficiência e seguradora: pontos positivos com ressalvas

Nem tudo foi negativo. O controle de gastos foi um destaque genuíno. As despesas operacionais caíram 0,7% no trimestre e 1% na comparação anual, levando o índice de eficiência operacional a 45%. As receitas de prestação de serviços cresceram 4,2% no trimestre e 3,1% no ano.

Após o aumento de capital de R$ 10 bilhões, o índice de capital principal saltou de 11,3% para 12,1%. É um colchão importante para absorver eventuais choques e, no médio prazo, sustentar o crescimento da carteira quando o ciclo macro permitir.

Já a Bradesco Seguros, historicamente uma fortaleza de resultados, também mostrou sinais de desaceleração. O resultado das operações de seguros, previdência e capitalização somou R$ 5,6 bilhões, queda de 9% no trimestre e de 2% no ano. O lucro da seguradora foi de R$ 2,8 bilhões, 2% menor que no primeiro trimestre, com ROE de 22%, abaixo dos 22,8% anteriores.

Ney Dias, CEO da Bradseg, atribuiu a queda a fatores sazonais na sinistralidade e à pressão de um IPCA menor sobre o resultado financeiro. “O melhor é olhar a tendência em nove meses”, afirmou. No acumulado de janeiro a setembro, o resultado cresceu 9%, para R$ 18 bilhões, e o lucro subiu 18%, para R$ 8,6 bilhões.

O que isso significa para o investidor

O Bradesco vive um momento delicado. O processo de turnaround iniciado com a gestão Noronha mostrou progresso real nos últimos trimestres, mas o terceiro trimestre expôs os limites dessa recuperação quando o ambiente macro não colabora. O banco não controla juros, inflação ou o ciclo eleitoral, variáveis que hoje pesam mais do que a execução operacional.

Um analista resumiu a situação de forma direta: “A capitalização deve ajudar a melhorar o lucro mais à frente, mas, por enquanto, o Bradesco é uma das companhias que mais dependem de um bom desfecho eleitoral.” A frase sintetiza o risco e a oportunidade. O banco fez o dever de casa na eficiência e na capitalização. Falta o ambiente externo colaborar.

Para quem acompanha o setor financeiro, o resultado do Bradesco é mais um dado que confirma a tese de que o ciclo de crédito brasileiro ainda não virou. A inadimplência segue pressionada, as margens estão comprimidas e o crescimento depende de uma melhora macroeconômica que, até o momento, não se materializou.

O lucro em linha com o consenso parece positivo na manchete. Mas quando o consenso já era baixo, ficar dentro dele não é exatamente uma boa notícia.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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