Bradesco lucra R$ 7,1 bi no 3T26, mas inadimplência preocupa
Lucro recorrente do Bradesco cresce 14,6% no ano, mas provisões disparam 24% e inadimplência atinge 4,6%. O que os números revelam sobre o banco.
O Bradesco entregou um lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre de 2026, cifra que representa crescimento de 14,6% na comparação anual e de 0,8% frente ao trimestre anterior. O número veio em linha com as projeções compiladas pela LSEG. A receita total atingiu R$ 38 bilhões, levemente acima dos R$ 37,7 bilhões esperados pelo mercado.
Até aqui, o enredo parece confortável. Mas uma leitura mais atenta dos números revela tensões que devem marcar a tese de investimento em BBDC4 nos próximos trimestres. A inadimplência avançou, as provisões dispararam e o retorno sobre o patrimônio recuou na margem. O resultado é tecnicamente sólido, mas está longe de ser celebração.
Margem financeira cresce, mas provisões avançam em ritmo maior
A margem financeira total do Bradesco alcançou R$ 21,3 bilhões, alta de 2,4% no trimestre e de 14,2% em doze meses. É um desempenho respeitável num ambiente de juros elevados, que historicamente favorece a rentabilidade das operações de crédito dos grandes bancos.
O problema está na outra ponta do balanço. As despesas de Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) expandida saltaram para R$ 10,6 bilhões, um avanço de 24,3% no ano e de 6,6% só entre o segundo e o terceiro trimestre. Em termos práticos, quase metade da margem financeira está sendo consumida pela expectativa de calotes.
Essa dinâmica não é exclusividade do Bradesco. Como analisamos na nossa cobertura do setor financeiro, os grandes bancos brasileiros enfrentam um ciclo de crédito mais desafiador desde meados de 2025, quando a inadimplência no sistema financeiro nacional começou a escalar de forma mais consistente.
Inadimplência sobe para 4,6% e acende o sinal amarelo
O índice de inadimplência acima de 90 dias encerrou setembro em 4,6%. Há um ano, esse indicador estava em 4,1%. No trimestre anterior, marcava 4,3%. A trajetória é ascendente e representa o maior nível desde que o banco iniciou seu plano de reestruturação.
A carteira de crédito total atingiu R$ 1,15 trilhão, crescimento de 11,1% na base anual e de 1,1% frente ao segundo trimestre. Ou seja, o banco continua emprestando mais, mas a qualidade dos ativos está se deteriorando. É uma equação que exige monitoramento constante.
Para contextualizar, o Banco Central do Brasil registrou inadimplência média do sistema financeiro em torno de 3,5% nos últimos dados disponíveis. O Bradesco opera acima dessa média, refletindo uma carteira com exposição relevante a pessoas físicas e pequenas e médias empresas, segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico. Essa tendência já aparecia nos dados que acompanhamos sobre o mercado de crédito brasileiro.
ROAE recua na margem e levanta dúvidas sobre o plano de reestruturação
O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) ficou em 15,6%, contra 16,2% no segundo trimestre. Na comparação anual, houve melhora frente aos 14,7% de um ano atrás. O banco destacou que, desconsiderando o aumento de capital recente, o ROAE ajustado seria de 16,1%.
A questão relevante é a direção do indicador. Após vários trimestres de recuperação gradual, o ROAE perdeu fôlego justamente quando as provisões aceleraram. Para um banco que vinha tentando recuperar a rentabilidade histórica e encurtar a distância para concorrentes como Itaú, que costuma operar com ROAE acima de 20%, a queda sequencial não é trivial.
Analistas de mercado já haviam sinalizado, antes da divulgação do balanço, que três variáveis mereciam atenção: o comportamento das provisões, a trajetória da inadimplência e a capacidade do braço de seguros e das iniciativas de eficiência operacional de compensar a pressão sobre a atividade bancária tradicional.
Seguros e eficiência: as alavancas que sustentam o resultado
A operação de seguros do Bradesco, conduzida pela Bradesco Seguros, continua sendo um diferencial competitivo importante. Em ciclos de crédito adversos, essa vertical funciona como uma espécie de amortecedor para o resultado consolidado, gerando receita recorrente com menor exposição ao risco de crédito.
As iniciativas de eficiência operacional, que incluem digitalização acelerada e racionalização da rede de agências, também contribuem para manter os custos sob controle. É uma estratégia que outros grandes bancos, como o próprio Itaú e o Banco do Brasil, adotaram nos últimos anos com resultados expressivos.
Porém, há um limite para o quanto seguros e eficiência conseguem compensar a deterioração do crédito. Se a inadimplência continuar subindo nos próximos trimestres, as provisões vão consumir uma fatia cada vez maior da margem financeira, comprimindo o lucro mesmo com receitas crescendo. Como destacamos em nossa análise sobre o cenário macroeconômico, a taxa Selic em patamares restritivos tende a prolongar esse ciclo de estresse.
O que o resultado do Bradesco diz sobre o setor bancário
O balanço do Bradesco funciona como um termômetro para o setor bancário brasileiro. O crescimento de 14,6% no lucro anual mostra que os grandes bancos ainda conseguem entregar resultados robustos, mas a composição desse resultado está mudando.
A margem financeira cresce puxada por juros altos, o que é positivo no curto prazo, mas insustentável se a inadimplência continuar corroendo as provisões. A carteira de crédito de R$ 1,15 trilhão é uma máquina poderosa de geração de receita, mas precisa de qualidade para funcionar.
Para o investidor, o recado é claro: o Bradesco está lucrando mais, mas o caminho está ficando mais íngreme. A capacidade de reverter a tendência de alta na inadimplência nos próximos trimestres será determinante para saber se o plano de reestruturação do banco realmente está no trilho certo, ou se os números de hoje representam o teto de um ciclo.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


