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Bradesco entra na custódia cripto: o que muda para o mercado

Bradesco passa a custodiar criptomoedas e stablecoins para clientes institucionais. Foxbit será a primeira cliente. Entenda o impacto no mercado brasileiro.

Bradesco entra na custódia cripto: o que muda para o mercado
Foto: khezez | خزاز / Unsplash

O Bradesco acaba de cruzar uma linha que poucos bancos tradicionais brasileiros ousaram cruzar com essa profundidade. O segundo maior banco privado do país anunciou uma plataforma de custódia institucional voltada exclusivamente para ativos digitais, incluindo criptomoedas, stablecoins e tokens. A Foxbit, uma das exchanges mais antigas do mercado brasileiro, será o primeiro cliente a utilizar o serviço.

Não se trata de um banco oferecendo compra e venda de Bitcoin para pessoa física, algo que instituições como Itaú e BTG já fazem há algum tempo. O movimento do Bradesco mira um público diferente: gestores de fundos, tesourarias corporativas e participantes do mercado financeiro que precisam de infraestrutura regulada para operar com ativos digitais. É um jogo de bastidores, menos visível ao varejo, mas com implicações profundas para a estrutura do mercado cripto no Brasil.

Por que a custódia institucional é o gargalo do mercado cripto

Para entender a relevância do anúncio, é preciso entender o problema que ele resolve. No mercado financeiro tradicional, a custódia é o serviço de guarda e controle de ativos. Quando um fundo de investimento compra ações, quem garante que aqueles papéis existem e pertencem ao fundo é o custodiante, geralmente um grande banco.

No universo cripto, essa função sempre foi um ponto de atrito. Exchanges faziam ao mesmo tempo o papel de corretora, custodiante e, em muitos casos, formadora de mercado. A concentração de funções gerava riscos evidentes. O colapso da FTX em 2022 é o exemplo mais dramático: bilhões de dólares de clientes desapareceram porque não havia separação entre custódia e operação.

Com a entrada de um banco do porte do Bradesco, o mercado brasileiro ganha uma camada de segregação que investidores institucionais exigem. Fundos regulados pela CVM, por exemplo, precisam de custodiantes qualificados para alocar em qualquer classe de ativo. Sem essa infraestrutura, a exposição institucional a criptomoedas ficava limitada a veículos indiretos, como ETFs listados em bolsa.

O que o Bradesco oferece e como se diferencia

Segundo Ricardo Barbieri, diretor do Bradesco, a plataforma foi construída sobre os mesmos padrões de governança, compliance e controles operacionais que o banco já aplica à custódia de ativos tradicionais. Na prática, isso inclui monitoramento contínuo de transações e carteiras, trilhas de auditoria e processos de conformidade alinhados às exigências do sistema financeiro.

A escolha da Foxbit como primeiro cliente não é acidental. Fundada em 2014, a exchange é uma das mais antigas do Brasil e carrega um histórico de operação que a coloca entre as referências do setor. Para o Bradesco, tê-la como cliente inaugural funciona como validação de mercado. Para a Foxbit, o arranjo resolve uma questão que acompanha exchanges há anos: oferecer aos seus clientes a garantia de que os ativos estão custodiados em uma instituição financeira regulada.

Esse modelo de separação entre exchange e custodiante já é padrão em mercados mais maduros. Nos Estados Unidos, a Coinbase Custody atende grandes fundos, enquanto a BNY Mellon lançou seu serviço de custódia cripto em 2022. No Brasil, o Bradesco se posiciona na dianteira dessa tendência entre os grandes bancos.

Contexto regulatório favorece bancos tradicionais

O timing do anúncio não é coincidência. O Banco Central avança na regulamentação do mercado cripto brasileiro sob o Marco Legal dos Criptoativos, aprovado no final de 2022. As regras em construção devem exigir maior segregação patrimonial entre recursos de clientes e das plataformas, além de padrões mais rígidos de governança.

Bancos como o Bradesco chegam a esse cenário com vantagem estrutural. Já possuem licenças, equipes de compliance consolidadas e relacionamento com reguladores. Construir uma plataforma de custódia cripto sobre essa base é significativamente mais simples do que uma exchange nativa digital tentar replicar toda essa estrutura do zero.

O mercado brasileiro de criptomoedas movimentou mais de R$ 250 bilhões em 2024, segundo dados da Receita Federal. Desse volume, a participação institucional cresce a cada trimestre. A demanda por custódia qualificada acompanha esse crescimento. Como já analisamos em reportagens sobre a evolução da regulação cripto no Brasil, a tendência é que serviços de infraestrutura se tornem tão relevantes quanto as próprias exchanges.

O que muda na prática para o investidor

Para o investidor pessoa física, o impacto é indireto, porém importante. Quando grandes bancos passam a custodiar criptoativos, a consequência natural é o aumento da oferta de produtos regulados de investimento em cripto. Fundos multimercado podem alocar com mais facilidade. Tesourarias de empresas ganham um caminho viável para manter reservas em stablecoins.

Para o mercado como um todo, o sinal é de legitimação. Um banco com mais de 70 milhões de clientes e R$ 1,9 trilhão em ativos sob custódia tradicional decidir entrar nesse segmento comunica ao mercado que ativos digitais deixaram de ser uma classe marginal.

A questão agora é saber se Itaú, Santander e os demais vão seguir o mesmo caminho ou apostar em modelos diferentes. O BTG Pactual, por exemplo, já opera com negociação direta de cripto via sua plataforma Mynt, mas a custódia institucional segregada para terceiros é um nicho que ainda tem poucos competidores no Brasil.

O Bradesco escolheu competir pela infraestrutura, não pelo varejo. É uma aposta de que o dinheiro grande no mercado cripto ainda está chegando, e que quem controlar os trilhos por onde esse dinheiro transita terá uma posição difícil de deslocar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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