Tecnologia

Boring Company vale US$ 23 bi, mas seus túneis ainda não convencem

A empresa de túneis de Musk captou US$ 3 bi liderados pelos Emirados Árabes. O valuation é bilionário, mas o único projeto em operação tem 6,5 km.

Boring Company vale US$ 23 bi, mas seus túneis ainda não convencem
Foto: Sururi Ballıdağ Director / Unsplash

A The Boring Company, empresa de infraestrutura subterrânea fundada por Elon Musk, acaba de ser avaliada em US$ 23 bilhões após uma rodada Série D de US$ 3 bilhões. O aporte foi liderado pelo governo dos Emirados Árabes Unidos e contou com participação de Sequoia e a16z, duas das firmas de venture capital mais influentes do Vale do Silício. O objetivo imediato: construir mais de 150 quilômetros de transporte subterrâneo no país do Oriente Médio.

O problema é que, até agora, a empresa tem mais promessas do que quilômetros escavados. O único sistema em operação é o Vegas Loop, com 6,5 km de túneis e nove paradas em Las Vegas. Não existe hyperloop, não existem cápsulas a 1.200 km/h, e os veículos que circulam pelos túneis são Teslas dirigidos por motoristas humanos.

Mesmo assim, os investidores continuam apostando bilhões. A pergunta relevante não é se a tecnologia funciona hoje, mas por que o mercado segue precificando uma visão de futuro que ainda não se materializou.

Da SpaceX ao subsolo: a origem da Boring Company

A empresa nasceu dentro da SpaceX em 2016 e foi desmembrada dois anos depois. A proposta original era ambiciosa: criar um sistema de transporte subterrâneo que eliminasse o trânsito em grandes cidades e permitisse viagens intermunicipais em tempo recorde.

No perímetro urbano, o conceito chamado “loop” usaria plataformas elétricas para transportar cápsulas com 16 passageiros a 240 km/h. Para distâncias maiores, o “hyperloop” moveria cápsulas por tubos selados a vácuo parcial, atingindo até 1.200 km/h. Uma viagem de Los Angeles a San Francisco, que são cerca de 600 km, levaria 30 minutos.

A física por trás do conceito é elegante. Sem atrito do ar e com motores de indução magnética, as cápsulas consumiriam menos energia para manter velocidades elevadas. A limitação prática, porém, é severa: o trajeto precisaria ser essencialmente em linha reta, porque curvas a essa velocidade teriam impacto físico insuportável para o corpo humano.

No primeiro trecho-teste inaugurado em 2018, com apenas 1,6 km saindo da sede da empresa em Hawthorne, na região metropolitana de Los Angeles, as cápsulas futuristas já tinham sido substituídas por carros da Tesla. O loop virou, na prática, um túnel comum. A indústria de tecnologia notou rapidamente a distância entre a narrativa e a execução.

Projetos anunciados, projetos descartados

Desde 2018, a Boring Company acumulou um histórico de projetos que nunca saíram do papel. Um túnel ligando Washington a Baltimore foi anunciado e abandonado. Outro conectaria o centro de Chicago ao aeroporto de O’Hare, mas também foi descartado.

O Vegas Loop permanece como o único sistema funcional. Quando estiver completo, a estrutura deve ter mais de 100 paradas e 100 km de extensão, cobrindo toda a cidade de Las Vegas. Hoje, opera com nove paradas conectando a Strip a alguns resorts e hotéis.

Neste ano, a empresa iniciou obras em Nashville, usando recursos próprios, e em Dubai, onde a primeira fase terá 6,4 km por US$ 154 milhões. O projeto de Dubai deve levar um ano e foi desenvolvido em parceria com o governo local. Essas são as primeiras expansões concretas fora de Nevada, e o mercado acompanha de perto se os prazos serão cumpridos. Como analisamos em matérias sobre grandes apostas de investimento, a execução costuma ser mais reveladora que o pitch.

A máquina que promete mudar a equação de custos

A Boring Company também fabrica suas próprias máquinas perfuradoras de túneis, batizadas de Prufrock. Segundo a empresa, elas conseguem escavar a custos mais baixos que os métodos tradicionais. O diferencial técnico é que as Prufrocks não exigem a escavação prévia de um poço vertical. Elas perfuram a partir da superfície, como uma toupeira, e são projetadas para operar de forma autônoma e remota.

O setor de construção recebeu a máquina com interesse, mas apontou limitações relevantes. O diâmetro de 4 metros é considerado pequeno para projetos de transporte de massa. O método de escavação direta funciona apenas em terrenos planos, o que restringe a aplicação geográfica.

Além disso, os túneis da empresa são criticados por não contarem com corredores de saída de emergência e por impossibilitarem ultrapassagens, já que operam em configuração de pista única. Essas são questões básicas de segurança que qualquer sistema de transporte público precisa resolver antes de escalar.

US$ 23 bilhões: valuation ou aposta em Musk?

O valuation de US$ 23 bilhões chama atenção quando comparado à operação real da empresa. Com 6,5 km de túneis operacionais, a conta não fecha por métricas tradicionais de infraestrutura. O que sustenta o número é uma combinação de dois fatores: o pipeline de projetos nos Emirados Árabes e o histórico pessoal de Musk.

Os investidores da rodada se comprometeram a ir além do capital. Segundo informações publicadas pelo Wall Street Journal, Sequoia e a16z vão ajudar a apresentar a empresa a governos que possam encomendar novos projetos e auxiliar no recrutamento de profissionais. É um modelo de investimento que mistura capital com networking geopolítico.

Um detalhe da estrutura do acordo ilustra bem a dinâmica. Caso as metas não sejam cumpridas, a empresa poderá recomprar parte das ações dos investidores. É uma cláusula incomum, que normalmente protegeria o empreendedor às custas do investidor. Mas o mercado aceita a condição pelo que considera ser a oportunidade de participar de um ecossistema Musk.

O precedente mais citado é o Twitter. A aquisição foi amplamente criticada em 2022, até que a plataforma foi incorporada pela xAI e depois absorvida pela SpaceX, transformando o que parecia um investimento ruim em parte de um dos maiores IPOs da história. Para quem acompanha o ecossistema de big techs e startups, o padrão se repete: o mercado aposta no fundador, não necessariamente no produto atual.

O que isso significa para o setor de infraestrutura

A captação da Boring Company sinaliza algo maior do que a empresa em si. Governos do Oriente Médio estão dispostos a investir bilhões em infraestrutura de transporte experimental. Isso pode acelerar a validação de tecnologias que cidades ocidentais relutam em adotar por conta de processos regulatórios mais rígidos.

Para o investidor que observa o setor, o caso da Boring Company é um lembrete de que valuations em estágio de crescimento refletem expectativas, não receita. A empresa precisa provar que consegue entregar 150 km de túneis nos Emirados Árabes com a eficiência prometida. Se conseguir, o valuation de US$ 23 bilhões pode parecer barato. Se não, será mais um capítulo na longa lista de promessas subterrâneas que nunca viram a luz do dia.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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