Boring Company vale US$ 23 bi, mas seus túneis ainda não funcionam
A empresa de túneis de Musk levantou US$ 3 bi com apoio dos Emirados Árabes, Sequoia e a16z. O problema: nenhum projeto entregou o que foi prometido até agora.
A The Boring Company (TBC), empresa de infraestrutura de túneis fundada por Elon Musk, acaba de ser avaliada em US$ 23 bilhões após uma rodada Série D de US$ 3 bilhões. O aporte foi liderado pelo governo dos Emirados Árabes Unidos e contou com a participação de Sequoia e a16z, dois dos fundos de venture capital mais influentes do Vale do Silício.
O capital será destinado a um projeto de mais de 150 quilômetros de transporte subterrâneo nos Emirados. Os investidores também se comprometeram a ir além do cheque: vão apresentar a empresa a governos interessados em encomendar novos projetos e ajudar no recrutamento de profissionais.
Até aqui, parece uma história típica de startup de alto crescimento. O detalhe incômodo é que, quase uma década depois da fundação, a TBC ainda não entregou nada remotamente parecido com o que prometeu.
Do hyperloop ao túnel comum: o que deu errado
Criada dentro da SpaceX em 2016 e desmembrada dois anos depois, a Boring Company nasceu com uma proposta ambiciosa. No perímetro urbano, um sistema chamado “loop” transportaria cápsulas elétricas com 16 passageiros a 240 km/h por túneis subterrâneos. Para trechos intermunicipais, a tecnologia “hyperloop” usaria tubos selados a vácuo parcial, alcançando até 1.200 km/h graças a motores de indução magnética e ausência de atrito.
A promessa era conectar Los Angeles a San Francisco, cidades separadas por 600 km, em apenas 30 minutos. Uma revolução no transporte que faria sistemas ferroviários de alta velocidade parecerem lentos.
Mas o primeiro trecho-teste, inaugurado em 2018 em Hawthorne, região metropolitana de Los Angeles, já mostrava os sinais do que viria. Com apenas 1,6 km de extensão, o túnel não tinha cápsulas autônomas. Em seu lugar, carros Tesla dirigidos por motoristas humanos. O “loop” virou, na prática, um túnel rodoviário estreito de pista única, sem corredor de saída de emergência e sem possibilidade de ultrapassagem.
De lá para cá, a empresa anunciou e descartou uma série de projetos. Um ligaria Washington a Baltimore. Outro conectaria o centro de Chicago ao aeroporto O’Hare. Nenhum saiu do papel. A distância entre a visão e a execução é um padrão recorrente em empresas de deeptech, mas poucas mantêm valuations tão altos com tão pouco entregue.
Vegas Loop: o único projeto em operação
Hoje, o único sistema funcionando é o Vegas Loop, um conjunto de túneis de 6,5 km com nove paradas que conecta parte da Las Vegas Strip a resorts e hotéis. O plano completo prevê mais de 100 paradas e 100 km de extensão, cobrindo toda a cidade. Ainda falta muito para chegar lá.
Em paralelo, a empresa iniciou obras em Nashville, bancadas com recursos próprios, e em Dubai, onde a primeira fase terá 6,4 km de extensão e custo estimado de US$ 154 milhões. O trecho de Dubai deve ficar pronto em um ano, desenvolvido em parceria com o governo local.
Além dos túneis, a TBC fabrica as próprias máquinas perfuradoras, batizadas de Prufrock. Diferente dos “tatuzões” tradicionais, as Prufrocks não exigem a escavação de um poço vertical. Elas perfuram a partir da superfície, como uma toupeira, e são projetadas para operar de forma autônoma e remota. A promessa é reduzir custos de escavação significativamente.
O mercado de construção civil recebeu a tecnologia com interesse, mas também com ressalvas. O diâmetro de 4 metros é considerado pequeno para projetos de grande escala, e o método de escavação direta funciona apenas em terrenos planos. São limitações relevantes para quem pretende operar em cidades com topografia irregular.
Por que investidores continuam apostando em Musk
A rodada de US$ 3 bilhões inclui uma cláusula incomum: caso as metas estabelecidas não sejam cumpridas, a empresa poderá recomprar parte de suas ações. O próprio Musk confirmou o mecanismo no X. Em qualquer outro cenário, seria uma condição inaceitável para investidores do porte de Sequoia e a16z. No ecossistema Musk, é o custo de entrada.
A lógica dos investidores tem um precedente concreto. A aquisição do Twitter, amplamente criticada em 2022, passou por uma transformação. A empresa foi incorporada pela xAI e depois pela SpaceX, tornando-se parte de uma das maiores trajetórias de valorização do mercado de tecnologia. Para o Vale do Silício, apostar em Musk passou a ser considerado quase um investimento de baixo risco, independentemente dos fundamentos isolados de cada empresa.
Esse fenômeno não é novo. Empresas lideradas por fundadores com histórico de exits bem-sucedidos costumam atrair capital em condições que desafiam a análise fundamentalista tradicional. O que diferencia o caso da Boring Company é a escala da aposta frente ao que foi entregue. São US$ 23 bilhões de valuation para uma empresa cujo único produto operacional é um sistema de túneis de 6,5 km em Las Vegas.
O que isso revela sobre o mercado de venture capital
A rodada da Boring Company diz tanto sobre a empresa quanto sobre o momento do mercado de venture capital. Após um período de retração entre 2022 e 2024, os grandes fundos voltaram a fazer apostas concentradas em deeptech e infraestrutura, especialmente quando associadas a nomes com poder de atração de capital público e privado.
O envolvimento direto de um governo soberano como investidor âncora também sinaliza uma tendência. Emirados Árabes, Arábia Saudita e outros países do Golfo têm direcionado volumes crescentes de capital para empresas de tecnologia ocidentais, buscando diversificar suas economias para além do petróleo. Para a TBC, o capital árabe resolve dois problemas ao mesmo tempo: financia a operação e garante um cliente de longo prazo para os túneis.
A questão central permanece: a empresa conseguirá, em algum momento, entregar algo que se aproxime da visão original? Por enquanto, a distância entre promessa e realidade é enorme. Os túneis existem, mas são curtos, lentos e operados por carros comuns. O hyperloop segue como conceito teórico. E os investidores, ao que tudo indica, estão confortáveis em esperar.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
