Criptomoedas

BlackRock tokeniza US$ 311 bi em fundos na Europa: o que muda

A maior gestora do mundo tokenizou fundos de mercado monetário em 15 países europeus. O movimento acelera a corrida pela infraestrutura financeira on-chain.

BlackRock tokeniza US$ 311 bi em fundos na Europa: o que muda
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A BlackRock, maior gestora de ativos do planeta, acaba de dar um passo que seria impensável há cinco anos. A empresa lançou 12 novas classes de cotas tokenizadas, baseadas em seis fundos de mercado monetário que somam US$ 311 bilhões sob gestão, distribuídas em 15 mercados europeus. Não se trata de um projeto piloto. É infraestrutura financeira real operando sobre blockchain.

O anúncio chegou um dia depois de a gestora ter expandido suas ofertas de caixa tokenizado nos Estados Unidos. A mensagem de Larry Fink, CEO da companhia, é cada vez mais clara: a tokenização não é futuro, é presente. E a escala que a BlackRock está imprimindo ao movimento torna difícil ignorar o recado.

O que a BlackRock fez, na prática

Os fundos tokenizados fazem parte da série Institutional Cash Series e seguem as regras UCITS, o arcabouço regulatório europeu para fundos de investimento. As classes de cotas abrangem três moedas: libra esterlina, euro e dólar. Os países onde estão disponíveis incluem Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Suécia, Singapura, Bermudas, entre outros.

A infraestrutura tecnológica foi construída em parceria com o JPMorgan, usando a plataforma Kinexys do banco. Isso é relevante porque conecta dois dos maiores nomes das finanças tradicionais em torno de uma solução nativa de blockchain. Não é uma startup tentando convencer o mercado. São as instituições que definem o mercado construindo seus próprios trilhos digitais.

O público-alvo também revela a estratégia: tesoureiros corporativos que já usam fundos monetários para gerir caixa operacional e reservas, além de gestores de ativos e consultores de investimento que transitam entre mercados tradicionais e digitais. A tokenização, nesse contexto, não muda o produto. Muda a forma como ele é mantido, transferido e liquidado.

Por que a tokenização de ativos reais está acelerando

Os números contam uma história convincente. O mercado de ativos reais tokenizados (RWA, na sigla em inglês) cresceu mais de 200% nos últimos 12 meses, ultrapassando US$ 30 bilhões, segundo dados da plataforma rwa.xyz. Projeções do Citi apontam que títulos tokenizados podem alcançar US$ 5,5 trilhões até 2030.

Esse crescimento não acontece por acaso. A tokenização resolve problemas concretos de eficiência em mercados financeiros: reduz custos de custódia, permite liquidação quase instantânea, elimina intermediários em processos de transferência e amplia o horário de operação para além do expediente bancário tradicional. Como analisamos na cobertura sobre o avanço dos ativos tokenizados no mercado cripto, a tese está saindo dos white papers para os balanços das maiores instituições financeiras do mundo.

Beccy Milchem, responsável global pela distribuição de caixa e pela gestão de caixa internacional da BlackRock, resumiu a proposta: os investidores querem tamanho e liquidez na gestão de caixa, e as classes tokenizadas adicionam uma capacidade digital de manutenção e transferência a fundos que já contam com processos estabelecidos de investimento e gestão de liquidez.

O papel do JPMorgan e a infraestrutura institucional

A parceria com o JPMorgan merece atenção especial. O banco americano vem construindo sua infraestrutura blockchain há anos, e a plataforma Kinexys (anteriormente conhecida como Onyx) já processa bilhões de dólares em transações. A escolha da BlackRock por essa plataforma, e não por uma rede pública descentralizada, reflete uma tendência que temos acompanhado de perto: as grandes instituições preferem ambientes permissionados onde mantêm controle sobre compliance, KYC e governança.

Isso não invalida as redes públicas. Mas mostra que a adoção institucional da tecnologia blockchain segue um caminho próprio, com prioridades diferentes das que movem o ecossistema DeFi. Para tesoureiros corporativos e gestores de fundos, a questão nunca foi descentralização. É eficiência operacional e redução de atrito.

O fato de a tokenização ter sido implementada em 15 mercados simultaneamente também sinaliza maturidade regulatória. A estrutura UCITS, amplamente reconhecida na Europa, oferece o arcabouço legal necessário para que investidores institucionais participem sem incerteza jurídica. A regulação, nesse caso, funciona como habilitadora e não como barreira.

O que isso significa para quem investe

Para o investidor brasileiro, o movimento da BlackRock tem implicações indiretas, mas importantes. Primeiro, valida a tese de que a tokenização é uma tendência estrutural e não cíclica. Quando a maior gestora do mundo coloca US$ 311 bilhões de ativos sob gestão em trilhos de blockchain, o sinal é inequívoco.

Segundo, aumenta a pressão sobre reguladores e instituições locais. O Brasil já avança nessa frente, como mostramos na cobertura sobre tokenização e o ecossistema Drex, mas a velocidade de adoção global pode forçar uma aceleração.

Terceiro, redefine a narrativa sobre blockchain no mercado financeiro. Cada vez menos se trata de “cripto versus finanças tradicionais”. O que está acontecendo é uma fusão, onde a tecnologia de registro distribuído se torna parte da infraestrutura padrão dos mercados de capitais. Larry Fink, que em 2017 chamava o Bitcoin de “índice de lavagem de dinheiro”, hoje é o maior evangelista corporativo da tokenização. A mudança não é sutil.

A questão que resta é de velocidade, não de direção. Com BlackRock, JPMorgan e outros gigantes construindo ativamente sobre blockchain, a pergunta deixou de ser “se” a tokenização vai transformar os mercados financeiros. Agora é “quão rápido”.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…