BlackRock rebaixa emergentes, mas vê Brasil como peça-chave global
Maior gestora do mundo cortou posição em emergentes para realizar lucros da Ásia, mas aponta IA, transição energética e geopolítica como vetores que mantêm o Brasil no radar.
A BlackRock, maior gestora de ativos do planeta com quase US$ 14 trilhões sob gestão, rebaixou sua recomendação para ações de mercados emergentes de “overweight” para neutro. O movimento, porém, não é sinal de pessimismo. É uma realização de lucros concentrada nos ganhos do primeiro semestre vindos da Ásia, onde a exposição a inteligência artificial turbinou os retornos. O recado mais interessante para quem acompanha o mercado brasileiro está no que ficou de pé: a preferência pela América Latina e, dentro dela, o protagonismo atribuído ao Brasil.
Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a região, afirmou que a combinação de “megaforças” globais coloca o país em posição estratégica. São três vetores: inteligência artificial, transição energética e a reorganização geopolítica que abre espaço para economias de porte médio. Em todas elas, o Brasil aparece como fornecedor de insumos críticos ou como beneficiário direto da reconfiguração de cadeias globais.
Por que a BlackRock realizou lucros nos emergentes
A decisão de cortar a exposição não nasce de uma deterioração dos fundamentos dos emergentes. Segundo Christensen, uma parcela relevante do retorno desse bloco no primeiro semestre veio dos mercados asiáticos, impulsionados pela corrida de IA. Com valuations esticados e volatilidade crescente em algumas dessas praças, a gestora entendeu que era prudente embolsar parte dos ganhos.
Esse tipo de rotação é comum em ciclos de meio de ano. A BlackRock publicou o movimento no relatório “2026 Midyear Global Outlook”, documento que costuma recalibrar posições táticas sem necessariamente alterar a visão estrutural. E é justamente na leitura estrutural que o Brasil ganha relevância.
Para a América Latina, a casa manteve preferência. A lógica é que a região oferece uma combinação de ativos reais, como commodities agrícolas, minerais e energia, que são demandados pelas três megaforças citadas. Como analisamos frequentemente na editoria de finanças, o fluxo estrangeiro para a região tende a se intensificar quando investidores buscam diversificação fora do eixo Ásia-EUA.
Minerais críticos, alimentos e energia: o trunfo brasileiro
Christensen detalhou que o Brasil é uma fonte relevante de minerais críticos necessários tanto para a infraestrutura de IA quanto para a transição energética. Lítio, nióbio, terras raras e outros insumos colocam o país na rota obrigatória de quem investe em data centers, baterias e redes elétricas inteligentes.
Mas o argumento vai além da mineração. O estrategista mencionou que a fragmentação geopolítica global favorece países que conseguem se posicionar como fornecedores confiáveis de produtos essenciais. O Brasil reúne três deles: minerais críticos, alimentos e energia. “Sob essa perspectiva, o Brasil apresenta uma proposta de valor muito concreta”, disse Christensen.
Essa leitura converge com o que já abordamos sobre o papel dos minerais críticos na nova economia. O país tem reservas significativas, mas a capacidade de transformar esse potencial em investimento depende de gargalos conhecidos: infraestrutura e custo de capital.
Infraestrutura é oportunidade e gargalo ao mesmo tempo
A BlackRock não se limitou ao otimismo genérico. Christensen foi direto ao apontar que, para as oportunidades se concretizarem, o Brasil precisa de investimentos significativos em infraestrutura. Rodovias, portos, ferrovias, linhas de transmissão e logística de escoamento são pré-requisitos para que os minerais e os produtos agrícolas cheguem aos mercados globais de forma competitiva.
O problema é que investimento em infraestrutura depende de financiamento de longo prazo, e financiamento de longo prazo é sensível a taxas de juros. Com a Selic ainda em patamar elevado, o custo da dívida para grandes projetos permanece alto. O estrategista reconheceu esse desafio e elogiou o trabalho do Banco Central no controle da inflação, sinalizando expectativa de que os juros possam cair e facilitar novos aportes.
Segundo projeções do FMI e da pesquisa Focus do Banco Central, o crescimento esperado para o Brasil nos próximos anos não é “particularmente robusto”, nas palavras de Christensen. Isso coloca a agenda de crescimento como o principal desafio para quem governar o país a partir de 2027.
O que as eleições significam para o investidor estrangeiro
Questionado sobre o impacto das eleições brasileiras de 2026, o estrategista adotou um tom pragmático. Disse que investidores de mercados emergentes já estão acostumados a lidar com ciclos eleitorais e incertezas políticas. “Isso faz parte do cenário e não é nenhuma novidade.”
O ponto mais relevante da análise eleitoral, segundo ele, não é quem vence, mas quais políticas o próximo governo adotará em duas frentes: reaceleração do crescimento e criação de condições para juros mais baixos. “Independentemente de quem vença, o governo terá de enfrentar esses dois desafios fundamentais”, afirmou.
Para o investidor brasileiro, a mensagem da maior gestora do mundo é ambivalente. O rebaixamento tático dos emergentes pode reduzir fluxos de curto prazo, mas a tese estrutural para o Brasil permanece intacta. Quem se posiciona pensando em minerais críticos, infraestrutura e energia tem um horizonte de investimento que vai além do próximo trimestre. Como discutimos na análise sobre a visão estrangeira do mercado brasileiro, o capital institucional global opera com ciclos de 5 a 10 anos, e é nesse prazo que as megaforças citadas pela BlackRock devem se materializar.
O que isso significa na prática
A leitura da BlackRock reforça uma tese que vem ganhando corpo entre gestores globais: o Brasil não é apenas um mercado emergente genérico. É um hub de recursos naturais estratégicos numa era de IA, eletrificação e fragmentação geopolítica. Mas transformar potencial em retorno exige execução: infraestrutura melhor, juros menores e política econômica previsível.
Para quem investe, o sinal é de atenção seletiva. A realização de lucros nos emergentes pode gerar volatilidade pontual, mas os fundamentos de longo prazo para ativos ligados a commodities, infraestrutura e energia no Brasil seguem sendo reconhecidos pela maior alocadora de capital do mundo. O desafio, como sempre, é a execução doméstica.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.