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BlackRock vê Bolsa brasileira como compra clara em 2026

Gestora global aponta que ações brasileiras negociam com desconto histórico e que uma pequena queda na Selic teria impacto desproporcional no mercado.

BlackRock vê Bolsa brasileira como compra clara em 2026
Foto: StockRadars Co., / Unsplash

Um dos maiores gestores de mercados emergentes da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, disse durante passagem por São Paulo que a Bolsa brasileira é uma “compra clara”. A tese de Samuel Vecht, portfolio manager da casa, parte de uma premissa contraintuitiva: a economia brasileira não precisa melhorar muito para que as ações locais entreguem retorno relevante.

O argumento central é que o pessimismo já está no preço. Bancos que historicamente negociavam entre 10 e 12 vezes o lucro hoje estão entre 5 e 7 vezes. Varejistas que operavam a 18 ou 25 vezes caíram para cerca de 6 vezes. O desconto é generalizado e, na visão do gestor, desproporcional aos fundamentos das companhias.

A declaração ganha peso quando se considera o contexto. A BlackRock administra mais de US$ 10 trilhões em ativos globais. Quando um gestor desse porte posiciona Brasil e China como os dois principais overweights de seus fundos de emergentes, o mercado presta atenção.

Por que o desconto da Bolsa pode não durar

O raciocínio de Vecht gira em torno de um gatilho específico: a possibilidade de cortes na Selic a partir de 2027. Sua leitura é que, independentemente de quem vença a eleição presidencial, o primeiro ano de mandato tende a trazer algum ajuste fiscal. Esse padrão, segundo ele, se repete em diversas democracias e não é exclusividade da América Latina.

Com juros mais baixos, mesmo que marginalmente, o fluxo para renda variável tenderia a se intensificar. “Uma pequena mudança nas taxas teria um impacto desproporcional”, afirmou o gestor. A lógica é que, com tanto pessimismo precificado, qualquer sinal positivo geraria uma reprecificação rápida dos ativos, como explicamos em nossa cobertura de mercado financeiro.

O ponto é matematicamente simples. Quando uma ação negocia a 5 vezes o lucro e o mercado reprecia para 7 vezes, sem nenhuma melhora operacional, o investidor já captura 40% de valorização. Esse é o tipo de assimetria que gestores de emergentes buscam.

O bear market de 20 anos nos emergentes

A tese sobre o Brasil se insere em uma narrativa mais ampla. Segundo Vecht, os mercados emergentes vivem um bear market que já dura quase duas décadas. Em termos de dólar, os preços das ações em regiões como América Latina e China estão próximos dos patamares de 2007.

Os múltiplos das ações de mercados emergentes, de acordo com o gestor, estão dois desvios-padrão abaixo da média histórica. Trata-se de uma distorção estatística relevante. Em condições normais de mercado, esse tipo de desconto se corrige, ainda que o timing seja sempre incerto.

O gap em relação aos Estados Unidos se ampliou de forma desproporcional nos últimos cinco anos, período em que as big techs americanas concentraram a maior parte dos fluxos globais de investimento. Vecht faz um alerta sobre esse fenômeno: uma geração inteira de investidores conhece apenas uma história, a de ações americanas de tecnologia superando todos os outros mercados. “Temos de questionar isso”, disse. Esse movimento de concentração de capital nos EUA é algo que analisamos com frequência no portal.

China e Brasil: os dois grandes overweights

Além do Brasil, a China aparece como a outra grande aposta. O peso do país no índice de ações de mercados emergentes caiu para 19%, abaixo da Coreia (23%) e de Taiwan (28%). Para Vecht, essa subrepresentação não reflete a realidade econômica chinesa.

A China domina setores que vão além de tecnologia. Manufatura, indústria pesada e bens de consumo estão sendo produzidos em padrões ocidentais a custos muito inferiores. A bolsa chinesa negocia praticamente nos mesmos níveis de 20 anos atrás, apesar de a economia ter se transformado completamente nesse período.

A combinação de Brasil e China como principais posições não é aleatória. São mercados com desconto elevado, catalisadores potenciais de curto prazo e peso suficiente nos índices para gerar retorno relevante em caso de reprecificação.

Setores com maior potencial na Bolsa brasileira

Sem citar nomes de empresas, o gestor da BlackRock apontou os setores voltados à economia doméstica como os mais interessantes: bancos, fintechs, varejistas, empresas de consumo e utilities. A lógica é direta. São exatamente os setores mais abandonados pelos investidores.

O Brasil oferece ainda vantagens estruturais que, segundo Vecht, os próprios brasileiros subestimam. A capacidade de negociar comercialmente com diferentes blocos, a produção agrícola de escala global e a experiência de grandes empresas que já atravessaram ciclos complicados são diferenciais competitivos reais. Como discutimos em análises anteriores sobre o mercado brasileiro, a qualidade da gestão dos grandes bancos e companhias listadas é reconhecida internacionalmente.

Vecht usou o exemplo da Samsung para ilustrar como percepções podem mudar rapidamente. Em agosto de 2025, quando visitou a Coreia, ouviu que a empresa não tinha futuro. Um ano depois, a ação subiu cinco vezes. As condições fundamentais não mudaram tão drasticamente. O que mudou foi a narrativa.

O que isso significa para o investidor

A mensagem central não é que o Brasil vai subir com certeza. O próprio gestor fez questão de ressaltar que “confiante é algo que um gestor de fundos jamais deveria ser”. O ponto é de assimetria: há muito pessimismo no preço e pouca melhora necessária para gerar retorno.

Para quem investe no mercado brasileiro, o recado é de que o desconto atual pode representar uma janela. Não porque a economia vai decolar, mas porque os preços já refletem um cenário extremamente negativo. Qualquer desvio positivo, por menor que seja, tenderia a gerar movimentos desproporcionais de alta.

O risco, naturalmente, é que o pessimismo se prove justificado e que os ajustes fiscais não se materializem. Mas quando uma gestora de US$ 10 trilhões posiciona o Brasil como “compra clara”, vale ao menos entender a tese por trás da convicção.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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