Criptomoedas

Bitmine já detém 4,8% de todo Ethereum em circulação

Empresa liderada por Tom Lee comprou quase 10 mil ETH na última semana e agora possui US$ 11 bilhões em Ethereum. Entenda a tese por trás da acumulação.

Bitmine já detém 4,8% de todo Ethereum em circulação
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

Uma única empresa já controla quase 5% de todo o Ethereum existente. A Bitmine Immersion, liderada pelo chairman Tom Lee, comprou mais 9.926 ETH na última semana e elevou sua posição total para 5,815 milhões de tokens. Ao preço atual de US$ 1.904 por unidade, o portfólio vale aproximadamente US$ 11 bilhões.

O dado é expressivo. Nenhuma empresa pública acumulou uma fatia tão grande do supply de um criptoativo desde que a MicroStrategy de Michael Saylor começou sua corrida pelo Bitcoin em 2020. A diferença é que a Bitmine escolheu o Ethereum como tese central, e os motivos para essa aposta dizem muito sobre para onde o mercado está olhando.

A tese de Tom Lee: tokenização, IA e o fim da tendência de baixa do ETH

A Bitmine, que opera sob o ticker BMNR na bolsa americana, foi lançada em junho de 2025 com uma proposta clara: funcionar como uma treasury company de Ethereum. Desde então, a empresa realiza compras semanais de ETH, acumulando de forma consistente.

Tom Lee justificou a estratégia com dois argumentos técnicos. O primeiro é gráfico: segundo ele, a razão ETH/BTC rompeu uma tendência de baixa que durava anos. Essa métrica compara o desempenho do Ethereum com o do Bitcoin e, quando sobe, sinaliza que investidores estão migrando capital para o ecossistema Ethereum. Para quem acompanha o mercado de criptomoedas, essa virada é significativa.

O segundo argumento é fundamentalista: Lee enxerga uma demanda crescente por Ethereum impulsionada por dois vetores, a tokenização de ativos do mundo real e aplicações de agentes de inteligência artificial que rodam sobre a rede. Ambas as narrativas ganharam força nos últimos meses com o avanço regulatório em diversos países e a proliferação de protocolos que utilizam contratos inteligentes do Ethereum como infraestrutura.

Treasury companies de cripto: o modelo que se consolida

A estratégia de usar uma empresa listada em bolsa como veículo para acumular criptoativos não é nova. A MicroStrategy popularizou o conceito ao transformar seu balanço patrimonial em uma reserva de Bitcoin, e desde então dezenas de empresas tentaram replicar o modelo com diferentes ativos digitais.

O que diferencia a Bitmine é a escala e a velocidade. Com 4,8% do supply total de Ethereum sob sua custódia, a empresa se tornou, de fato, o maior holder institucional público do ativo. Para colocar em perspectiva, a Ethereum Foundation, que desenvolve o protocolo, detém uma fração consideravelmente menor.

Além das compras de ETH, a Bitmine recomprou 1,7 milhão de ações próprias na última semana, dentro de um programa autorizado de US$ 4 bilhões. Essa dupla operação, comprar ETH e recomprar ações, sugere que a gestão vê valor tanto no ativo subjacente quanto no desconto com que o mercado precifica a própria companhia. A dinâmica é semelhante ao que analistas observaram no caso do Bitcoin como reserva de valor: o ativo digital funciona como âncora de valorização da ação.

Condições macro como catalisador para o Ethereum

Tom Lee também citou o cenário macroeconômico como fator favorável. Em comunicado, ele afirmou que “condições financeiras em afrouxamento devem ser um vento a favor para cripto”. A frase reflete uma leitura que ganhou consenso entre gestores: quando bancos centrais reduzem taxas de juros ou ampliam liquidez, ativos de risco tendem a se beneficiar, e criptomoedas estão no topo dessa lista.

Nos últimos 12 meses, o ETH acumulou volatilidade significativa, mas o ativo subiu cerca de 1,6% nas últimas 24 horas, enquanto as ações da BMNR avançaram mais de 2% no mesmo período. A correlação entre o preço do token e o desempenho da ação reforça a natureza de proxy que a Bitmine exerce sobre o Ethereum.

Para investidores que acompanham a evolução dos ETFs de Ethereum, a existência de uma treasury company com essa magnitude adiciona uma camada de demanda estrutural ao ativo. Cada compra semanal retira tokens do mercado secundário, criando uma pressão de oferta que, em teoria, sustenta o preço no médio prazo.

O que a concentração de 4,8% significa para o ecossistema

Uma concentração dessa magnitude levanta questões legítimas sobre descentralização. O Ethereum opera sob um modelo de proof of stake, onde holders com grandes quantidades de tokens podem exercer influência sobre a validação da rede. Não há, até o momento, indicação de que a Bitmine esteja fazendo staking com seus tokens, mas a possibilidade existe e merece acompanhamento.

Outro ponto de atenção é o risco de liquidação. Se a Bitmine precisar vender parte relevante de sua posição por qualquer motivo, seja pressão de acionistas, necessidade de caixa ou mudança de estratégia, o impacto no preço do ETH seria substancial. É o mesmo dilema que o mercado de Bitcoin enfrenta com a MicroStrategy: a concentração cria estabilidade na alta, mas amplifica o risco na baixa.

O modelo de Tom Lee aposta que a demanda por Ethereum vai crescer mais rápido do que a oferta disponível no mercado. Se a tese de tokenização e agentes de IA se confirmar, a posição da Bitmine pode se valorizar exponencialmente. Se não, US$ 11 bilhões em um único ativo digital representam um risco concentrado que poucos balanços corporativos conseguiriam absorver.

O mercado, por enquanto, parece concordar com Lee. As ações da BMNR seguem em alta e as compras semanais continuam. A questão é se o Ethereum vai entregar a utilidade que a tese exige, ou se a acumulação vai se revelar uma aposta unilateral em um ativo que ainda busca seu papel definitivo no ecossistema financeiro global.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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