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Bitcoin trava nos US$ 80 mil: o que segura o rali

Payroll acima do esperado eleva apostas de alta de juros pelo Fed e freia o bitcoin na faixa dos US$ 80 mil. Veja o que os dados indicam.

Bitcoin trava nos US$ 80 mil: o que segura o rali
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O bitcoin voltou a se aproximar dos US$ 80 mil neste fim de semana, acumulando alta de 2,6% em sete dias. Parece um número saudável para quem olha de relance. Mas o contexto por trás dessa lateralização revela uma disputa entre forças macroeconômicas que pode definir se o ativo terá fôlego para buscar os US$ 100 mil ou se devolverá parte dos ganhos recentes.

Na manhã de sábado, o maior criptoativo do mundo era negociado a US$ 79.754, com capitalização de mercado de US$ 1,60 trilhão e volume de US$ 19,4 bilhões nas últimas 24 horas, segundo dados do CoinGecko. Os números mostram um mercado ativo, mas hesitante.

O payroll que mudou o humor do mercado

O relatório de empregos dos Estados Unidos, divulgado na sexta-feira, mostrou a criação de 162 mil vagas, bem acima das 55 mil que o consenso de mercado projetava. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,1%. Para a economia real, o dado é positivo. Para ativos de risco como o bitcoin, nem tanto.

O número reforçou a percepção de que a economia norte-americana segue aquecida e não dá sinais de desaceleração suficiente para que o Federal Reserve alivie a política monetária. Pelo contrário. A ferramenta FedWatch, do CME Group, registrou um salto nas apostas de alta de juros em setembro: a probabilidade passou de 50,4% para 58% logo após a divulgação do payroll.

Os rendimentos dos Treasuries de dois anos, mais sensíveis às expectativas de política monetária, atingiram o maior nível desde janeiro de 2025. O dólar ganhou força. Ambos os movimentos funcionam como freios naturais para o bitcoin, que historicamente tem correlação inversa com o índice do dólar em períodos de aperto monetário.

Geopolítica adiciona uma camada de incerteza

Além do fator monetário, o mercado absorveu uma escalada nas tensões do Oriente Médio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país poderia atacar em breve a Montanha Pickaxe, no Irã. A declaração elevou os riscos geopolíticos e teve impacto imediato nos mercados de commodities: o petróleo Brent fechou em alta de 0,80%, cotado a US$ 96,28 por barril.

A relação entre bitcoin e conflitos geopolíticos não é linear. Em alguns episódios, o ativo funciona como refúgio. Em outros, quando a aversão ao risco é generalizada, ele cai junto com as bolsas. Nesta sexta-feira, a segunda dinâmica prevaleceu: as bolsas de Nova York fecharam no vermelho e o bitcoin não conseguiu romper a faixa dos US$ 81 mil a US$ 82 mil.

Como já analisamos ao tratar da influência de tensões geopolíticas sobre o bitcoin, o comportamento do ativo depende muito mais do estágio do ciclo monetário do que do evento em si. E o estágio atual aponta para aperto, não afrouxamento.

Onde estão os níveis técnicos que importam

Do ponto de vista técnico, o bitcoin encontrou resistência clara na região entre US$ 81 mil e US$ 82 mil. Análises de mercado apontam que o próximo nível decisivo está em US$ 83 mil. Um rompimento consistente acima dessa faixa abriria caminho para uma retomada do impulso de alta, com potencial de buscar novamente os US$ 100 mil.

Na ponta de baixo, o primeiro suporte relevante aparece em US$ 75,4 mil, região da média móvel de 21 dias. Uma correção mais forte levaria o preço à faixa entre US$ 68,8 mil e US$ 69,6 mil, uma zona de sustentação que coincide com topos anteriores que foram testados como suporte em ciclos recentes.

A estrutura de curto prazo, segundo análises institucionais, ainda favorece os compradores. Mas a palavra-chave aqui é “curto prazo”. Sem um catalisador claro, o bitcoin parece confortável nessa faixa de lateralização.

O que realmente decide o próximo movimento

A grande questão não é se o bitcoin vai subir ou cair nos próximos dias. É o que o Federal Reserve fará em setembro. Se os dados de inflação entre agora e a próxima reunião do FOMC reforçarem o cenário de economia aquecida, uma alta de juros se torna praticamente certa, o que tenderia a pressionar o bitcoin para baixo.

Por outro lado, qualquer sinal de arrefecimento do mercado de trabalho ou queda nos índices de preços pode reverter rapidamente as apostas e devolver ao bitcoin o combustível para testar os US$ 83 mil e, eventualmente, buscar novas máximas.

Para quem acompanha o mercado cripto, vale prestar mais atenção ao calendário econômico dos Estados Unidos do que a qualquer análise técnica. Os próximos dados de CPI e PPI serão mais determinantes para o preço do bitcoin do que qualquer padrão gráfico. Como discutimos ao analisar como a política monetária dos EUA impacta o mercado cripto, a correlação entre decisões do Fed e o comportamento do bitcoin nunca foi tão forte quanto neste ciclo.

O volume de US$ 19,4 bilhões negociados em 24 horas mostra que há liquidez e interesse. O que falta é convicção direcional. E essa convicção depende de Washington, não de Wall Street.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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