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Bitcoin supera US$ 86 mil antes do payroll: o que esperar

Bitcoin rompeu os US$ 86 mil antes do relatório de emprego dos EUA, ignorando a pressão do dólar forte e dos juros elevados. Entenda o que está por trás.

Bitcoin supera US$ 86 mil antes do payroll: o que esperar
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O Bitcoin ultrapassou brevemente os US$ 86.885 na manhã desta sexta-feira, recuando em seguida para a faixa dos US$ 86 mil. O movimento chama atenção não pelo número em si, mas pelo contexto em que acontece: juros dos títulos do Tesouro americano em patamares que não se viam há décadas, dólar no nível mais alto em 18 meses e uma crise fiscal europeia se aprofundando.

A alta de cerca de 1,5% no dia e de 3% acumulados no mês ocorre às vésperas da divulgação do relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll. O mercado espera a criação de 90 mil vagas em setembro, uma desaceleração significativa em relação às 162 mil de agosto. A taxa de desemprego deve permanecer em 4,1%.

O dado importa porque pode reconfigurar as apostas sobre a política monetária do Federal Reserve e, por consequência, o apetite global por ativos de risco.

Por que o Bitcoin subiu mesmo com o cenário adverso

Durante toda a semana, o Bitcoin ficou preso numa faixa entre US$ 82 mil e US$ 85 mil. O motivo era claro: o yield dos títulos de 10 anos do Tesouro americano atingiu 5,34%, o maior nível em múltiplas décadas. Yields mais altos significam custo de capital mais caro, o que historicamente pressiona ativos sem geração de caixa como as criptomoedas.

Ao mesmo tempo, o índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas relevantes, ultrapassou brevemente a marca de 102, o patamar mais elevado desde o início de 2024. Um dólar mais forte costuma drenar liquidez de ativos de risco. Ainda assim, o Bitcoin rompeu a resistência e avançou.

Isso sugere que há demanda estrutural sustentando o preço. Como já analisamos em nossa cobertura sobre o mercado cripto, o fluxo institucional via ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos tem funcionado como um colchão de proteção em momentos de pressão macroeconômica.

O payroll pode mudar tudo: cenários para o Bitcoin

O relatório de emprego americano é, neste momento, a variável mais importante para o curto prazo dos mercados globais. O raciocínio é direto.

Se o payroll vier abaixo das 90 mil vagas esperadas, o mercado deve interpretar como sinal de desaceleração econômica. Isso fortalece a tese de que o Fed precisará cortar juros mais cedo do que o precificado. Nesse cenário, os yields dos Treasuries tendem a cair, o dólar perde força e ativos de risco ganham fôlego. O Bitcoin se beneficiaria diretamente.

Por outro lado, se o dado surpreender para cima, com criação robusta de empregos, o mercado pode precificar juros altos por mais tempo. Isso empurraria os yields para cima, fortaleceria o dólar e adicionaria pressão sobre o Bitcoin, que poderia retornar à faixa dos US$ 82 mil.

Existe ainda um terceiro cenário: dado em linha com as expectativas, sem surpresa. Nesse caso, o mais provável é consolidação lateral, com o mercado aguardando a próxima reunião do Fed para recalibrar posições.

A crise fiscal europeia adiciona uma camada extra

Enquanto o foco está no payroll americano, a Europa enfrenta um problema que pode ter desdobramentos para o mercado cripto. A França vive um momento fiscal delicado. Os credit default swaps (CDS) franceses de cinco anos, que medem o custo de seguro contra calote soberano, subiram ao maior nível em anos.

O spread entre os yields dos títulos de 10 anos da França e da Alemanha atingiu a maior diferença em 14 anos. Em termos práticos, o custo de financiamento da França já superou o da Itália e da Grécia, algo que não acontecia desde a crise da dívida europeia do início da década passada. O euro caiu para US$ 1,12, o menor patamar desde maio.

Esse tipo de estresse soberano tem um efeito duplo sobre o Bitcoin. No curto prazo, aumenta a aversão ao risco, o que pode pressionar o preço. No médio prazo, porém, reforça a narrativa do Bitcoin como alternativa a sistemas monetários soberanos fragilizados, tema que cobrimos frequentemente na editoria de finanças do portal.

O que os dados on-chain dizem sobre o momento atual

Além do cenário macro, vale observar o que acontece dentro da própria rede do Bitcoin. A alta desta sexta-feira ocorre com o ativo acumulando ganhos consistentes ao longo do mês, o que indica que a pressão compradora não é apenas especulativa de curto prazo.

O fato de o Bitcoin ter rompido uma resistência em um ambiente de juros elevados e dólar forte é, por si só, um dado relevante. Em ciclos anteriores, como analisamos em matérias sobre ciclos de mercado do Bitcoin, rompimentos contra ventos macroeconômicos adversos tenderam a sinalizar força de tendência, não fraqueza.

Isso não significa que a alta está garantida. Significa que o mercado está atribuindo ao Bitcoin um prêmio de resiliência que não existia em ciclos passados. A presença de instrumentos regulados como os ETFs à vista mudou estruturalmente o perfil de demanda.

O que importa a partir de agora

O dado do payroll será publicado ainda nesta sexta. A reação imediata do mercado tende a ser volátil, como de costume. Mas o investidor que olha para o quadro mais amplo precisa prestar atenção em três fatores.

Primeiro, a trajetória dos yields americanos. Se continuarem subindo acima de 5,3%, a pressão sobre o Bitcoin tende a se intensificar nas próximas semanas. Segundo, a dinâmica do dólar: enquanto o DXY se mantiver acima de 100, ativos denominados em dólar ficam relativamente mais caros para investidores internacionais. Terceiro, a situação fiscal europeia, que pode gerar efeitos colaterais inesperados na demanda por ativos digitais.

O Bitcoin mostrou que consegue subir mesmo em ambiente adverso. A questão agora é se o payroll vai confirmar ou desmontar essa tese.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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