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Bitcoin e os sinais on-chain que indicam fundo de mercado

Com 45% dos holders de longo prazo no prejuízo e acumulação em máxima histórica, dados on-chain do Bitcoin repetem padrões de fundos anteriores.

Bitcoin e os sinais on-chain que indicam fundo de mercado
Foto: Leeloo The First / Unsplash

O Bitcoin atravessa um período de queda desde outubro do ano passado, enfrentando uma sequência rotativa de ventos contrários que pouco têm a ver com seus fundamentos. Tensões geopolíticas, rotação de capital para IA e preocupações com a estrutura de capital da Strategy (antiga MicroStrategy) dominaram a narrativa. Agora, com parte dessas incertezas se dissipando, os dados on-chain começam a contar uma história que investidores experientes já viram antes: a de um possível fundo de mercado.

O ponto central está na dinâmica entre vendedores exaustos e compradores convictos. E os números mais recentes sugerem que essa transição já está em curso.

O que os dados on-chain revelam sobre o momento do Bitcoin

Segundo dados da plataforma Checkonchain, cerca de 45% da oferta mantida por holders de longo prazo está atualmente no prejuízo. Esse nível é relevante porque coincide com patamares observados em fundos de ciclos anteriores do Bitcoin, tanto em 2018 quanto em 2022.

A lógica é simples: quando a maioria dos vendedores fracos já saiu, o que resta são detentores com convicção suficiente para suportar a volatilidade. Mais do que isso, esses holders não estão apenas segurando suas posições. A oferta de Bitcoin nas mãos de detentores de longo prazo atingiu máxima histórica nas últimas semanas, o que indica acumulação ativa mesmo em meio à pressão de preços.

Ao mesmo tempo, movimentações on-chain de moedas antigas, aquelas que não se moviam há meses ou anos, diminuíram significativamente em relação ao ano passado. Isso alivia uma pressão que, em ciclos anteriores, costumou preceder vendas intensas no mercado.

Strategy resolve seu principal risco e libera o caminho para o Bitcoin

Um dos maiores overhangs sobre o preço do Bitcoin nos últimos meses foi a Strategy. A empresa, que detém a maior posição corporativa em BTC do mundo, gerou preocupação no mercado por sua estrutura de capital em evolução. A questão específica: a possibilidade de que a companhia precisasse vender Bitcoin para cumprir obrigações com dividendos.

A boa notícia é que a Strategy tomou medidas concretas para resolver isso. A empresa reforçou suas reservas em dólar e atualizou sua estratégia de alocação de capital, comprando tempo para que o Bitcoin se recuperasse sem a sombra de uma venda forçada. Com essa questão parcialmente equacionada, o mercado pode voltar a avaliar o BTC por seus próprios méritos.

Esse padrão é consistente com os ciclos históricos de quatro anos do Bitcoin. Em 2018, o driver de venda foi a especulação excessiva em projetos sem fundamento. Em 2022, foram os colapsos alavancados de Celsius e FTX. Desta vez, o catalisador negativo foi mais estrutural do que orgânico, o que tende a se resolver de forma mais rápida.

ETFs de Bitcoin: os fluxos que o mercado precisa monitorar

Outro sinal clássico que merece atenção são os fluxos dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos. Até 30 de junho, os ETFs registraram US$ 5,4 bilhões em saídas líquidas no acumulado do ano. O detalhe importante: a maior parte dessa saída, US$ 8,2 bilhões, ocorreu desde 12 de maio.

Dois fatores explicam essa concentração. Primeiro, as próprias preocupações com a Strategy, que afetaram o sentimento institucional. Segundo, a liberação de capital em torno do IPO da SpaceX, que atraiu fluxos significativos de investidores institucionais para fora de ativos digitais.

Com ambos os fatores parcialmente no retrovisor, o indicador a observar agora é a retomada sustentada de inflows nos ETFs. Isso sinalizaria estabilização da confiança institucional. Reforçando essa tese, o chamado prêmio da Coinbase, que mede o diferencial de preço entre a exchange americana e outras plataformas, melhorou de forma considerável desde o final do segundo trimestre. Esse indicador historicamente reflete o apetite de investidores norte-americanos pelo ativo.

Oferta monetária recorde fortalece a tese do Bitcoin como reserva de valor

Enquanto os dados on-chain apontam para um possível fundo, o cenário macro oferece um catalisador de médio prazo poderoso. A oferta monetária dos Estados Unidos ultrapassou US$ 23 trilhões pela primeira vez em maio, com um salto mensal superior a 1%, a maior variação desde 2021.

Essa aceleração na expansão da base monetária reforça a tese original do Bitcoin como proteção contra a diluição do poder de compra. Diferentemente do ouro, seu par mais frequente na categoria de reserva de valor, o Bitcoin foi projetado para ser facilmente divisível e portátil, com uma oferta fixa e imutável de 21 milhões de unidades.

A atenção do mercado esteve direcionada para outros temas, como conflitos geopolíticos e inteligência artificial. Mas a história mostra que, quando a expansão monetária acelera, o Bitcoin tende a capturar essa narrativa com força renovada.

Establecoins caem e ativos tokenizados sobem: o que isso significa

Em paralelo, o mercado de stablecoins registrou queda para US$ 312 bilhões em capitalização no mês de junho, a maior retração mensal desde o colapso da TerraUSD em 2022. Ao mesmo tempo, o volume de ativos de renda variável tokenizados disparou 145%, atingindo o recorde de US$ 3,86 bilhões.

Essa divergência sugere uma rotação dentro do próprio ecossistema cripto. Capital que antes estava estacionado em stablecoins parece estar migrando para ativos com maior potencial de valorização, incluindo ações tokenizadas. Se essa tendência se mantiver, pode ser mais um sinal de que o posicionamento defensivo está dando lugar a um apetite renovado por risco.

O cenário geral combina múltiplos sinais que, isoladamente, já seriam relevantes. Juntos, formam um quadro que investidores de ciclos anteriores conhecem bem: exaustão de vendedores, acumulação recorde, resolução de riscos idiossincráticos e um pano de fundo macro favorável. A questão não é se esses sinais estão presentes, porque estão. A questão é quanto tempo levará para que se traduzam em movimento de preço.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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