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Bitcoin abre setembro abaixo de US$ 78 mil: o que esperar do Rektember

Após o melhor agosto desde 2017, o Bitcoin recua e enfrenta o mês historicamente mais fraco do ano. Juros, petróleo e geopolítica pressionam.

Bitcoin abre setembro abaixo de US$ 78 mil: o que esperar do Rektember
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

De melhor agosto em sete anos ao mês mais temido do mercado cripto

O Bitcoin abriu setembro de 2026 com uma queda de 1%, recuando para menos de US$ 78 mil. O movimento veio logo após o ativo registrar um ganho de aproximadamente 25% em agosto, o melhor desempenho mensal desde novembro de 2024 e o melhor mês de agosto desde 2017, segundo o estrategista de mercado do LMAX Group, Joel Kruger.

O contraste é revelador. Em questão de dias, o mercado saiu de um rali expressivo para enfrentar uma confluência de pressões macroeconômicas que inclui juros mais altos, tensões geopolíticas e o peso histórico do próprio calendário.

Desde 2013, setembro tem sido, em média, o mês mais fraco para o Bitcoin, produzindo uma perda de cerca de 3% e acumulando apenas cinco fechamentos mensais positivos. Os traders chamam o período de “Rektember”, uma combinação das palavras “rekt” (gíria cripto para perda severa) e “September”. Os últimos três setembros terminaram no positivo, mas o cenário macro atual sugere que a sequência pode ser interrompida.

O padrão não é exclusivo do mercado cripto. Setembro é o único mês desde 1975 em que o S&P 500 apresentou, em média, retorno negativo. Como abordamos em nossa cobertura de criptomoedas, a correlação entre ativos de risco tradicionais e digitais permanece relevante em momentos de estresse macroeconômico.

Fed sinaliza aperto e mercado precifica alta de juros em 66%

O principal catalisador da pressão vendedora foi o discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, em Jackson Hole. Warsh enfatizou que a inflação segue elevada, provocando uma liquidação nos mercados de títulos globais. O rendimento dos Treasuries de 10 anos saltou para 4,784%, atingindo nova máxima do ciclo.

Os mercados agora precificam uma probabilidade de 66% de um aumento de 25 pontos-base na reunião do FOMC marcada para 16 de setembro. Se confirmado e seguido por mais um ajuste antes do fim do ano, a taxa básica alcançaria a faixa de 4,00% a 4,25%.

Taxas mais altas apertam as condições financeiras e pesam sobre ativos de risco de forma ampla. O dólar se fortalece, o custo de oportunidade de manter ativos sem rendimento aumenta e o apetite por volatilidade diminui. Para o Bitcoin, que subiu 25% em um único mês, a combinação é particularmente desafiadora. Esse cenário de política monetária restritiva ecoa dinâmicas que já analisamos ao discutir os impactos da política de juros sobre diferentes classes de ativos.

Petróleo acima de US$ 90 e tensões no Oriente Médio adicionam pressão

A geopolítica trouxe uma camada adicional de incerteza. Os contínuos ataques militares dos Estados Unidos contra o Irã impulsionaram o petróleo Brent para mais de US$ 90 por barril. O WTI atingiu US$ 88 em 1º de setembro, uma alta de 2% em 24 horas e o preço mais elevado desde o final de julho.

Petróleo mais caro alimenta expectativas inflacionárias, o que reforça o argumento do Fed para manter ou elevar juros. É um ciclo que se retroalimenta: mais inflação, mais aperto monetário, mais pressão sobre ativos de risco.

O ouro caiu mais de 2% no mesmo dia, o que sugere que o movimento não foi simplesmente uma migração de risco para ativos considerados “portos seguros”, mas sim uma reprecificação generalizada diante do cenário de juros mais altos.

Resiliência relativa: o que sustenta o piso do Bitcoin

Apesar da queda, há sinais de que o mercado não está em pânico generalizado. Kruger destacou que a capacidade do Bitcoin de manter boa parte dos ganhos de agosto, mesmo diante de rendimentos mais altos nos títulos, dólar forte e estresse geopolítico ativo, representa uma notável demonstração de resiliência.

Os ETFs de Bitcoin à vista registraram nove dias consecutivos de entradas líquidas, totalizando US$ 924 milhões, antes de uma saída de US$ 202 milhões em um único dia na sexta-feira, 29 de agosto. O fluxo institucional segue como um termômetro importante para o mercado, como já exploramos em nossas análises sobre ETFs de criptomoedas.

Jasper De Maere, trader da formadora de mercado Wintermute, indicou que US$ 75 mil e US$ 82 mil são os dois níveis nos quais o mercado está concentrado até a decisão de juros em 16 de setembro. A expectativa é de volatilidade elevada nesse intervalo, com resistência perto de US$ 82 mil e suportes em US$ 75 mil e US$ 72 mil.

De Maere observou que investidores subalocados têm comprado nas quedas, o que ajudou a estabelecer um piso de preço. Kruger, por sua vez, identificou a faixa de US$ 80 mil a US$ 82.820 como a resistência que o Bitcoin precisa romper de forma sustentada para reabrir o caminho em direção a US$ 100 mil.

Payroll de sexta-feira pode mudar o jogo

O próximo dado econômico relevante é o relatório de emprego dos EUA (payroll), previsto para 5 de setembro. Economistas esperam um crescimento de 55 mil vagas em agosto e uma taxa de desemprego de 4,1%, segundo o analista sênior da Capital.com, Kyle Rodda.

Um resultado mais fraco do que o esperado poderia gerar dúvidas sobre a disposição do Fed em seguir adiante com o aumento de juros em um mercado de trabalho enfraquecido. Para o Bitcoin, isso representaria um alívio: menos pressão monetária, mais espaço para ativos de risco.

Por outro lado, um payroll robusto reforçaria a narrativa de que a economia americana aguenta juros mais altos, consolidando a probabilidade de aperto monetário e mantendo a pressão sobre o preço do BTC.

Setembro de 2026, portanto, não é apenas mais um Rektember estatístico. É um mês em que o mercado cripto terá que navegar entre dados de emprego, decisão do FOMC, tensões geopolíticas e uma base técnica que, apesar de pressionada, ainda mostra sinais de demanda institucional. O resultado vai depender menos da sazonalidade histórica e mais de como esses fatores se combinam nas próximas duas semanas.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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