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Bitcoin segura US$ 64 mil enquanto yields disparam: o que explica

Bitcoin se mantém acima de US$ 64 mil enquanto títulos de 30 anos dos EUA batem 5,33% e petróleo supera US$ 91. Entenda por que o ativo resiste ao cenário adverso.

Bitcoin segura US$ 64 mil enquanto yields disparam: o que explica
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

Yields nos maiores níveis em quase duas décadas e o Bitcoin não caiu

O rendimento dos títulos de 30 anos do Tesouro americano bateu 5,33% nesta terça-feira, o maior patamar desde 2007. O título equivalente no Reino Unido alcançou 5,83%, e o japonês chegou a 4,12%, flertando com o recorde de maio. É uma alta global, sincronizada e agressiva. E, ainda assim, o Bitcoin se mantém acima de US$ 64 mil.

A lógica convencional diz que juros longos em disparada drenam apetite por ativos de risco. Quando o custo de financiar governos endividados sobe, investidores migram para renda fixa. Ações caem, cripto cai junto. Só que, desta vez, o roteiro não está se confirmando por completo.

Os futuros do S&P 500 recuavam 0,5%, caminhando para o terceiro dia seguido de perdas. O ETF Invesco QQQ, referência para ações de tecnologia, caía mais de 1% no pré-mercado. O Brent superou US$ 91 o barril, pressionado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. É o tipo de cenário macro que, historicamente, pressiona criptomoedas para baixo. Mas o Bitcoin fechou o dia em alta de 1%.

O ciclo vicioso de petróleo, inflação e juros

O mecanismo é direto. Petróleo mais caro alimenta inflação. Inflação mais alta eleva yields. Yields maiores encarecem crédito e drenam capital de ativos sem rendimento, como Bitcoin e ouro. É exatamente o ciclo que dominou o verão do hemisfério norte e que agora se intensifica com a ameaça de Trump de bombardear Omã caso o país interfira em operações americanas na região.

Com o Brent se aproximando de US$ 100, o risco inflacionário ganha um componente geopolítico que os bancos centrais não controlam. A expectativa de que as taxas de juros permaneçam elevadas por mais tempo se reforça a cada sessão. Na prática, isso significa que o Federal Reserve, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão têm pouca margem para cortar juros, mesmo que a economia desacelere.

Para quem investe em cripto, o recado é claro: o ambiente macro continua hostil. A questão é que o Bitcoin está reagindo de forma diferente do que se esperaria. E vale entender por quê.

Demanda de ETFs absorve a pressão vendedora

A firmeza do Bitcoin em meio ao estresse global de juros não é acidental. Ela coincide com um fluxo consistente de demanda via ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos. Desde que esses produtos foram aprovados, o mercado ganhou uma base compradora institucional que opera com horizonte mais longo e reage menos a oscilações diárias de yields.

Nos últimos três meses, o retorno agregado do Bitcoin em dias úteis foi de -0,5%, segundo dados da Velo. Nos fins de semana, porém, o ativo acumulou retorno positivo de 0,51%. Esse dado ganha relevância com a abertura do mercado de cripto 24 horas por dia na CME, que desde 29 de maio já movimentou mais de US$ 2 bilhões em fins de semana.

A CME destacou que participantes de mercado, de investidores de varejo a institucionais, estão usando a plataforma regulada para gerenciar risco cripto de forma contínua. Isso sugere que o perfil do investidor de Bitcoin mudou. Não é mais dominado por especuladores de curto prazo sensíveis a cada variação de yield.

Ethereum e altcoins ficam para trás

Enquanto o Bitcoin mostrou resiliência, o restante do mercado cripto ficou estagnado. O Ethereum negociava perto de US$ 1.893, sem força para romper níveis superiores. As principais altcoins operaram estáveis, com exceção do Hyperliquid, que subiu 8,3% na semana.

Essa divergência entre Bitcoin e o restante do mercado não é nova. Em momentos de aversão a risco, o capital tende a se concentrar no ativo mais líquido e com maior presença institucional. O Bitcoin funciona como um filtro: quando o macro aperta, ele é o último a cair e o primeiro a recuperar. As altcoins, por outro lado, dependem de um ambiente de liquidez abundante que simplesmente não existe neste momento.

O que observar nos próximos dias

A resistência imediata do Bitcoin está em US$ 64.500. Uma superação sustentada desse nível indicaria que compradores novos estão absorvendo a pressão macro, o que fortaleceria a tese de descolamento parcial entre cripto e ativos de risco tradicionais.

Por outro lado, se o petróleo continuar subindo rumo a US$ 100 e os yields de 30 anos mantiverem a trajetória ascendente, a resiliência será testada com intensidade. Títulos do Tesouro pagando mais de 5% ao ano representam uma alternativa de retorno real que compete diretamente com qualquer ativo sem rendimento.

O ponto central é que o mercado de Bitcoin em 2025 não é o mesmo de ciclos anteriores. A estrutura de demanda via ETFs, o acesso 24 horas na CME e a base institucional crescente criaram uma dinâmica onde o ativo pode resistir a choques que antes seriam fatais para o preço. Isso não significa imunidade. Significa que o limiar de dor ficou mais alto.

Para o investidor, a lição prática é: mais do que acompanhar o preço do Bitcoin, vale monitorar o spread entre yields reais e o fluxo de ETFs. É nessa interseção que se define se a resiliência atual é estrutural ou apenas um atraso antes da correção.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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