Bitcoin trava nos US$ 87 mil enquanto Wall Street flerta com recordes
Bitcoin foi barrado nos US$ 87 mil pela terceira vez em um mês. Enquanto isso, Nasdaq bateu recorde e o S&P 500 ficou a 0,5% da máxima. O que explica essa divergência?
Três tentativas, três rejeições: o muro dos US$ 87 mil
O Bitcoin recuou 1,2% nas últimas 24 horas e voltou a operar próximo de US$ 85.600, após mais uma tentativa fracassada de romper a faixa dos US$ 87.000. É a terceira vez desde 23 de setembro que vendedores aparecem exatamente nesse nível e devolvem o preço para baixo.
O padrão é relevante porque revela uma dinâmica clara: existe oferta concentrada nos US$ 87 mil que os compradores ainda não conseguiram absorver. Para que o ativo retome a trajetória de alta e busque as máximas dos últimos oito meses, seria necessário que essa pressão vendedora se esgotasse, algo que a ação de preço ainda não sugere.
Do lado técnico, o Bitcoin vem formando fundos ascendentes desde a semana passada. Isso cria um padrão de triângulo, com suporte inclinado para cima e resistência horizontal nos US$ 87 mil. Essa configuração costuma preceder movimentos bruscos, tanto para cima quanto para baixo, o que significa que a volatilidade deve aumentar nos próximos dias.
Wall Street segue em outro ritmo
Enquanto o mercado cripto patina, as bolsas americanas contam outra história. O Nasdaq 100 fechou em máxima histórica. O S&P 500 encerrou o pregão a menos de 0,5% do seu recorde. Na Ásia, o índice MSCI Asia Pacific avançou 0,1%.
Essa divergência é notável. Durante boa parte de 2024, o Bitcoin se comportou como um ativo de risco correlacionado às ações de tecnologia. Quando o Nasdaq subia, o Bitcoin acompanhava. Agora, essa correlação parece ter se rompido, ao menos temporariamente.
Um dos fatores que pode explicar a desconexão está no mercado de títulos. O rendimento da Treasury de 10 anos subiu para 5,32%, patamar que não era visto desde 2002. A Treasury de 2 anos avançou para 4,83%. Como analisamos na nossa cobertura de mercados, juros elevados nos títulos americanos competem diretamente com ativos sem rendimento, como o Bitcoin.
O alerta de Ray Dalio sobre os Treasuries
O bilionário Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, adicionou mais uma camada de preocupação ao cenário. Segundo ele, o mercado de Treasuries está vulnerável a uma retração na demanda por parte de China e Japão, os dois maiores detentores estrangeiros de dívida americana.
Se essa demanda diminuir, os rendimentos podem subir ainda mais, pressionando tanto ativos de risco tradicionais quanto criptomoedas. É um cenário que merece atenção porque afeta diretamente a liquidez global. O dólar, inclusive, se fortaleceu nas últimas sessões, o que historicamente dificulta a vida do Bitcoin.
Para quem acompanha a relação entre Bitcoin e dólar, esse é um ponto crucial. Um dólar mais forte reduz o apetite por ativos denominados em outras moedas ou considerados alternativos, incluindo ouro e criptoativos.
O que aconteceu com as altcoins
Fora do Bitcoin, o mercado apresentou desempenho misto. O Ether, XRP, Solana e Dogecoin recuaram entre 1% e 2%. O BNB liderou as quedas entre as maiores, com perda de 2,5%.
Na contramão, Cardano (ADA) saltou 11%, Graph Token (GRT) subiu 7% e Near Protocol (NEAR) avançou quase 7%. HYPE, token menos conhecido, ganhou 3% e chegou a US$ 94. Esses movimentos isolados sugerem rotação de capital dentro do ecossistema cripto, não uma entrada líquida de dinheiro novo.
O valor total do mercado cripto recuou para cerca de US$ 2,93 trilhões, ligeiramente abaixo da resistência de US$ 2,95 trilhões. Como explicamos em nossa análise sobre capitalização de mercado, essa métrica agrega todos os criptoativos e serve como termômetro geral da classe.
O que essa divergência significa para quem investe
A situação atual coloca o investidor diante de uma leitura complexa. As bolsas americanas sugerem otimismo com a economia e os resultados corporativos. Ao mesmo tempo, os juros longos nos níveis mais altos em mais de duas décadas indicam que o mercado de renda fixa está precificando inflação persistente ou expansão fiscal insustentável.
O Bitcoin, preso entre esses dois sinais, não consegue definir direção. O triângulo técnico que se formou vai, por definição, se resolver em breve. Um rompimento acima dos US$ 87 mil abriria espaço para buscar as máximas do início do ano. Um rompimento para baixo, quebrando os fundos ascendentes, poderia levar o ativo de volta à faixa dos US$ 80 mil.
Para o investidor que olha além do curto prazo, o ponto central é outro: a combinação de Treasuries com rendimento acima de 5% e um dólar forte cria um ambiente concorrencial severo para ativos que não geram fluxo de caixa. Enquanto esse cenário macro persistir, rompimentos sustentados no Bitcoin tendem a exigir catalisadores adicionais, como fluxos institucionais via ETFs ou mudanças na política monetária do Fed.
O mercado está em compasso de espera. A resolução desse triângulo técnico, combinada com os desdobramentos no mercado de títulos americano, deve ditar o próximo movimento relevante.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
