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Bitcoin acima de US$ 65 mil: o que sustenta o rali e o que pode freá-lo

Bitcoin atinge maior cotação em três semanas após dados de inflação nos EUA virem abaixo do esperado. Tensões no Oriente Médio e petróleo seguem como riscos no radar.

Bitcoin acima de US$ 65 mil: o que sustenta o rali e o que pode freá-lo
Foto: DS stories / Unsplash

O Bitcoin voltou a ser negociado acima de US$ 65 mil na quarta-feira (15), marcando a maior cotação dos últimos 23 dias. O gatilho imediato foi a divulgação dos dados de inflação americana, que vieram abaixo das projeções do mercado. O movimento reacendeu o apetite por risco e arrastou consigo todo o mercado cripto, com Ethereum se aproximando dos US$ 2 mil e altcoins como Solana, BNB e XRP registrando altas entre 0,6% e 2%.

Mas, como acontece com frequência neste ciclo, a alta vem acompanhada de ressalvas importantes. O cenário geopolítico no Oriente Médio e a volatilidade do preço do petróleo funcionam como contrapesos que podem limitar, ou até reverter, o movimento de curto prazo.

Inflação mais branda muda o humor do mercado

A sequência de eventos da semana ilustra bem a sensibilidade do mercado cripto ao cenário macroeconômico americano. Na segunda-feira (13), o Bitcoin recuou depois que Chris Waller, membro do Federal Reserve, afirmou que o banco central deveria manter postura rígida no combate à inflação. O mercado interpretou a fala como sinal de que cortes de juros seguiriam distantes.

No dia seguinte, porém, os dados de inflação contrariaram o tom hawkish. O relatório veio abaixo das expectativas, reduzindo as apostas em uma nova elevação da taxa de juros pelo Fed. Como já analisamos em materias anteriores sobre o impacto dos juros americanos no mercado cripto, a relação entre política monetária nos EUA e preço do Bitcoin se tornou quase mecânica neste ciclo.

Essa dinâmica ficou evidente no comportamento dos ETFs de Bitcoin à vista. Na segunda-feira, os fundos registraram saídas de US$ 424,6 milhões, reflexo direto do discurso de Waller. Já na terça, o fluxo se inverteu: US$ 181 milhões em entradas líquidas. A alternância confirma que o capital institucional reage quase em tempo real ao termômetro macroeconômico.

Strategy vende Bitcoin, mas mercado não entra em pânico

Um fator que chamou atenção nas últimas semanas foi a venda de 3.588 bitcoins pela Strategy, a maior empresa de tesouraria de Bitcoin do mundo, anteriormente conhecida como MicroStrategy. Em ciclos anteriores, uma venda dessa magnitude por um holder institucional de peso poderia ter gerado ondas de pânico no mercado.

Desta vez, a reação foi contida. O mercado parece ter assimilado que movimentos pontuais de gestão de caixa não invalidam a tese de acumulação de longo prazo da companhia. A maturidade dessa leitura é um sinal relevante sobre o estágio atual do mercado, como discutimos em nossas análises sobre a institucionalização do Bitcoin.

No mercado de derivativos, as liquidações somaram cerca de US$ 330 milhões nas últimas 24 horas. É um número relativamente modesto, que sugere que os vendedores a descoberto não estavam excessivamente alavancados. Em outras palavras, a alta não foi impulsionada por um short squeeze violento, o que, paradoxalmente, pode indicar mais sustentabilidade no movimento.

O risco que vem do Estreito de Ormuz

Se o lado macro americano jogou a favor do Bitcoin, o cenário geopolítico segue como uma variável de risco difícil de precificar. Os conflitos no Oriente Médio voltaram a se intensificar, e a possibilidade de um bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, adiciona uma camada de incerteza que o mercado cripto ainda não digeriu por completo.

O barril de petróleo leve bruto (WTI) é negociado na faixa de US$ 79,7. Para efeito de comparação, o WTI oscilou entre US$ 67, no fundo registrado no começo de junho, e US$ 119, no pico de março. Uma escalada nos preços do petróleo tende a pressionar a inflação global, o que jogaria por terra as expectativas de uma postura mais branda do Fed.

Esse é o ponto central para quem investe em cripto: a alta do Bitcoin acima de US$ 65 mil depende, em boa medida, da manutenção de um cenário em que a inflação continua cedendo. Qualquer choque de oferta no petróleo tem potencial para reverter essa narrativa rapidamente.

Ethereum e altcoins: sinais mistos

O Ethereum se aproximou dos US$ 2 mil, uma barreira psicológica e técnica relevante. A superação consistente desse patamar seria um sinal de força para o mercado mais amplo. Já BNB, XRP e Solana apresentaram altas modestas, entre 0,6% e 2%, sugerindo que o mercado ainda opera com cautela.

A correlação entre Bitcoin e altcoins permanece elevada, o que significa que o destino do mercado cripto como um todo segue atrelado à performance do ativo líder. Isso é consistente com o comportamento observado em fases de transição entre ciclos de baixa e alta, como detalhamos em nossos materiais sobre ciclos de mercado do Bitcoin.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis devem concentrar a atenção dos investidores no curto e médio prazo. A primeira é o preço do petróleo: qualquer movimento sustentado acima de US$ 85 por barril tenderia a reacender temores inflacionários. A segunda são os próximos relatórios de inflação nos EUA, que vão calibrar as expectativas sobre a próxima decisão do Fed. A terceira é o fluxo nos ETFs de Bitcoin, que se consolidaram como o principal termômetro do apetite institucional.

A alta acima de US$ 65 mil é encorajadora, mas está longe de ser uma carta branca para otimismo irrestrito. O mercado caminha numa corda bamba entre dados econômicos favoráveis e riscos geopolíticos concretos. Para o investidor que opera com horizonte de médio prazo, o momento pede atenção redobrada às variáveis externas ao mercado cripto, que, neste ciclo, têm ditado o ritmo dos preços com precisão quase cirúrgica.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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