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Berkshire volta a comprar ações após 14 trimestres: o que mudou

Conglomerado de Buffett investiu US$ 20 bi a mais do que vendeu em ações no segundo trimestre e acelerou recompras. Entenda o que a virada sinaliza.

Berkshire volta a comprar ações após 14 trimestres: o que mudou
Foto: Pixabay / Unsplash

O fim de uma seca de 14 trimestres

A Berkshire Hathaway fez algo no segundo trimestre de 2026 que não fazia desde o início de 2023: comprou mais ações do que vendeu. O saldo líquido foi positivo em quase US$ 20 bilhões, encerrando uma sequência de 14 trimestres consecutivos como vendedora líquida de ações. Para quem acompanha os movimentos de Warren Buffett como termômetro do mercado, o dado é relevante.

A virada não foi tímida. Além das compras no mercado aberto, o conglomerado recomprou US$ 4,5 bilhões em ações próprias entre abril e junho e mais de US$ 3,3 bilhões em julho. As recompras haviam sido retomadas em março, após um hiato de quase dois anos. Somado, o montante sinaliza uma mudança de postura significativa por parte da gestão sediada em Omaha, Nebraska.

O movimento ganha contexto quando se observa o que a Berkshire fez nos últimos anos. O conglomerado acumulou caixa de forma agressiva, reduzindo posições em empresas como Apple e mantendo dezenas de bilhões de dólares em títulos de curto prazo do Tesouro americano. A mensagem implícita era de cautela. Agora, a mensagem mudou.

Aposta de US$ 10 bilhões na Alphabet

Entre as compras do trimestre, a mais expressiva foi o reforço de US$ 10 bilhões na posição em Alphabet, controladora do Google e do YouTube. A empresa já figurava no portfólio da Berkshire, mas com o novo aporte se consolida como uma das maiores participações acionárias do conglomerado.

A escolha não é aleatória. A Alphabet negocia a múltiplos historicamente baixos em relação aos seus pares de big tech, enquanto mantém liderança em inteligência artificial com o Google DeepMind e gera caixa robusto com publicidade e nuvem. É o tipo de combinação que a filosofia Buffett tradicionalmente busca: valor intrínseco superior ao preço de mercado.

Historicamente, quando a Berkshire faz apostas concentradas desse porte, o mercado presta atenção. A compra da fatia na Apple em 2016, que se tornaria a maior posição do portfólio, seguiu a mesma lógica: uma empresa de tecnologia com vantagem competitiva duradoura e múltiplos razoáveis.

Lucro operacional sobe 16% e receita ultrapassa US$ 100 bilhões

Os números do trimestre justificam o otimismo seletivo da gestão. O lucro operacional subiu 16%, para US$ 12,98 bilhões, acima das projeções dos analistas. A melhora veio de frentes diversificadas: a ferrovia BNSF, a unidade de aviões executivos NetJets e a distribuidora de componentes eletrônicos TTI compensaram a performance mais fraca da seguradora automotiva Geico.

O lucro líquido mais que dobrou, alcançando US$ 25,67 bilhões. Esse número, porém, inclui ganhos e perdas não realizados sobre ações que a Berkshire ainda detém em carteira. A própria empresa recomenda que investidores ignorem a volatilidade causada por essa contabilização, exigida pelas normas contábeis americanas desde 2018.

A receita total cresceu 10%, atingindo US$ 101,81 bilhões no trimestre. Esse patamar havia se estagnado nos períodos anteriores, e a retomada do crescimento indica que os negócios operacionais do conglomerado, muitas vezes ofuscados pelo portfólio de investimentos, seguem gerando valor real.

Cautela não desapareceu

Se a Berkshire voltou a comprar, isso não significa que abandonou a postura defensiva. No próprio comunicado de resultados, o conglomerado afirmou que ainda há “considerável incerteza” em relação a eventos macroeconômicos e geopolíticos, incluindo tarifas comerciais e conflitos armados.

A leitura mais precisa é que a gestão encontrou oportunidades específicas que considerou atrativas o suficiente para justificar a redução parcial do caixa. A reserva de liquidez segue elevada em termos absolutos, mesmo após os bilhões gastos em compras e recompras. A Berkshire continua com mais munição disponível do que praticamente qualquer outro investidor institucional do planeta.

Para o investidor brasileiro, o comportamento da Berkshire funciona como um indicador indireto. Quando Buffett se posiciona como comprador líquido, é sinal de que enxerga valor no mercado acionário americano, mesmo reconhecendo riscos. Nos últimos ciclos, essas viradas de postura antecederam períodos de retornos positivos, embora correlação não seja causalidade.

O que a virada da Berkshire sinaliza para os mercados

Três elementos merecem atenção. Primeiro, a concentração em tecnologia. A aposta reforçada na Alphabet sugere que a Berkshire, sob a liderança de Greg Abel e do vice-presidente de investimentos, vê as big techs como ativos de valor, não apenas de crescimento. Segundo, a aceleração das recompras indica que a própria gestão considera as ações da Berkshire subvalorizadas, uma sinalização forte para o mercado.

Terceiro, o fato de a empresa manter cautela no discurso enquanto age com decisão no portfólio revela uma abordagem pragmática. O cenário macro global continua incerto, com tensões comerciais e riscos geopolíticos reais. Mas incerteza não significa paralisia, especialmente para quem tem mais de US$ 100 bilhões em caixa para se proteger caso o cenário se deteriore.

A Berkshire Hathaway completou em 2025 a transição de liderança com a saída de Buffett do cargo de CEO, mantendo-o como presidente do conselho. Os resultados do segundo trimestre de 2026 são, em certa medida, o primeiro grande teste da nova gestão em modo ofensivo. Pelos números, o teste foi bem-sucedido.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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