Berkshire Hathaway dobra lucro no 2T26: o que explica o salto
A holding de Warren Buffett registrou lucro de US$ 25,6 bi no 2T26, puxado por ganhos de US$ 16 bi em investimentos. Entenda o que está por trás do resultado.
O resultado que chamou atenção em Wall Street
A Berkshire Hathaway encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de US$ 25,667 bilhões. O número representa praticamente o dobro dos US$ 12,370 bilhões registrados no mesmo período de 2025. No acumulado do primeiro semestre, o lucro alcançou US$ 35,77 bilhões, com crescimento anual de 111%.
A receita total do conglomerado somou US$ 101,808 bilhões entre abril e junho, contra US$ 92,515 bilhões um ano antes. Um avanço de pouco mais de 10% na linha de receita, que contrasta com a explosão na última linha do balanço. A diferença entre os dois ritmos de crescimento conta uma história importante sobre de onde veio esse resultado.
Para quem acompanha os movimentos de Buffett, o salto não surpreende pela direção, mas pela magnitude. E exige uma leitura mais cuidadosa do que a manchete sugere, como já discutimos em análises anteriores sobre os grandes movimentos do mercado financeiro global.
Ganhos com investimentos puxaram o resultado
O principal motor por trás da duplicação do lucro foram os ganhos com investimentos, que atingiram US$ 16,077 bilhões no trimestre. No segundo trimestre de 2025, esse número havia sido de US$ 6,364 bilhões. Um salto de 152% em 12 meses.
Esse é um ponto que a própria Berkshire faz questão de ressaltar em seus comunicados trimestrais. Os ganhos com reavaliação de ações em carteira são registrados no resultado por exigência contábil, mas tendem a gerar forte volatilidade nos números. Na visão do conglomerado, essas oscilações têm pouco valor analítico para avaliar o desempenho recorrente dos negócios.
É uma posição que Buffett defende há anos. As normas contábeis americanas obrigam companhias a registrar ganhos e perdas não realizados em ações no resultado líquido. Quando o mercado sobe, o lucro da Berkshire infla. Quando cai, o oposto acontece. No segundo trimestre de 2026, o mercado americano performou bem, o que naturalmente empurrou o número para cima.
Isso não significa que o resultado seja irrelevante. Mas quem olha apenas o lucro líquido sem entender a composição pode tirar conclusões equivocadas sobre a saúde operacional do conglomerado.
Lucro operacional e carga tributária
O lucro antes de impostos foi de US$ 32,063 bilhões, mais que o dobro dos US$ 14,750 bilhões de um ano antes. As despesas com imposto de renda totalizaram US$ 6,291 bilhões, com alíquota efetiva consolidada de 19,6%, acima dos 15,5% registrados no segundo trimestre de 2025.
O aumento da alíquota efetiva é um detalhe que merece atenção. Com ganhos maiores em investimentos e a composição diferente do resultado, a base tributável se expandiu. Uma alíquota de 19,6% sobre uma base de US$ 32 bilhões gera uma conta de imposto significativamente maior em termos absolutos.
Para o investidor que tenta entender a capacidade de geração de caixa da Berkshire, o lucro operacional, que exclui os ganhos e perdas com investimentos, continua sendo a métrica mais confiável. É o que reflete a performance das dezenas de empresas que o conglomerado controla, de seguradoras a ferrovias, de empresas de energia a redes de varejo.
O contexto macro que favoreceu a Berkshire
O segundo trimestre de 2026 foi marcado por uma recuperação relevante nos mercados de ações americanos. Após um primeiro trimestre turbulento, com tensões comerciais e volatilidade elevada, os índices encontraram sustentação a partir de maio, como analisamos em matérias recentes sobre o cenário macroeconômico e seus reflexos nos mercados.
A carteira de ações da Berkshire, historicamente concentrada em nomes como Apple, Coca-Cola e American Express, se beneficiou dessa recuperação. Cada ponto percentual de alta no mercado se traduz em bilhões de dólares em ganhos contábeis para um portfólio do tamanho que Buffett administra.
Ao mesmo tempo, o caixa da Berkshire permanece em patamares historicamente elevados. No primeiro trimestre de 2026, o conglomerado reportava mais de US$ 300 bilhões em caixa e equivalentes. Uma posição que gerou debate no mercado: Buffett estaria cauteloso demais ou simplesmente esperando a oportunidade certa?
A resposta, como quase tudo na filosofia de investimentos do nonagenário de Omaha, provavelmente está no longo prazo. A Berkshire construiu sua reputação justamente por ter paciência nos momentos em que outros se apressam.
O que isso significa para o investidor
O resultado da Berkshire funciona como uma espécie de termômetro do mercado americano. Quando o lucro dobra por causa de ganhos em investimentos, o sinal é de que os mercados subiram com força. Mas a lição que Buffett repete em todas as cartas aos acionistas é: não confunda ganhos contábeis com geração de valor.
Para quem investe no mercado brasileiro e acompanha ações americanas, a mensagem é de que o ambiente global de risco se normalizou no segundo trimestre. As tensões que marcaram o início do ano deram lugar a uma acomodação que beneficiou carteiras diversificadas, um movimento que também impactou outras classes de ativos e mercados emergentes.
O crescimento de 10% na receita, por sua vez, mostra que os negócios operacionais da Berkshire continuam sólidos. Seguradoras, ferrovias, energia elétrica: o conglomerado segue entregando crescimento orgânico em suas operações, independentemente da volatilidade do mercado de ações.
Com 95 anos, Buffett continua no comando. Mas o mercado já se prepara para a transição de liderança que, inevitavelmente, virá. Greg Abel, vice-presidente responsável pelas operações não ligadas a seguros, é o sucessor designado. A questão não é se a transição acontecerá, mas se a disciplina de capital e a paciência que definiram a era Buffett sobreviverão ao fundador.
Por ora, os números do segundo trimestre de 2026 confirmam uma tese que tem quase seis décadas: o modelo da Berkshire funciona. Mesmo que o lucro líquido esteja inflado por marcação a mercado, a máquina operacional segue gerando caixa, e o caixa segue esperando a próxima grande oportunidade.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
