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Berkshire sem Buffett: como Abel gasta o caixa de US$ 365 bi

Greg Abel já movimentou US$ 20 bilhões em ações no 2º trimestre. As escolhas revelam uma Berkshire mais agressiva e disposta a apostar em IA.

Berkshire sem Buffett: como Abel gasta o caixa de US$ 365 bi
Foto: david hou / Unsplash

Abel começa a usar a montanha de caixa herdada de Buffett

Warren Buffett passou os últimos anos de gestão acumulando dinheiro. Reclamava dos preços altos, vendia posições e deixou o caixa da Berkshire Hathaway bater US$ 397 bilhões no fim de março. Greg Abel, seu sucessor como CEO, aparentemente discorda do diagnóstico. Em seu segundo trimestre completo no cargo, ele comprou quase US$ 20 bilhões líquidos em ações.

O documento regulatório divulgado nesta sexta-feira mostra duas apostas centrais. Abel adquiriu 17,5 milhões de ações da Delta Air Lines, levando a posição total a US$ 5,37 bilhões. E comprou 48,1 milhões de ações adicionais da Alphabet, controladora do Google, que agora é a terceira maior posição da holding, avaliada em US$ 37,8 bilhões no fim de junho.

Além das compras em bolsa, a Berkshire recomprou US$ 4,5 bilhões de suas próprias ações no período. Mesmo com toda essa atividade, o caixa ainda somava US$ 365,5 bilhões em junho. A máquina de geração de caixa do conglomerado é tão grande que gastar US$ 20 bilhões mal arranha a reserva.

Duas aquisições bilionárias revelam a tese de Abel

Mais do que as compras em mercado aberto, duas transações definem o estilo de Abel. A primeira foi a aquisição da construtora Taylor Morrison Home por US$ 6,8 bilhões, concluída no mês passado. É uma operação clássica do manual Berkshire: empresa do setor real, com geração de caixa previsível, comprada a um múltiplo razoável. Buffett aprovaria sem hesitar.

A segunda é mais reveladora. Abel destinou US$ 10 bilhões à Alphabet para apoiar investimentos ligados à inteligência artificial. Trata-se de uma área que Buffett, aos 95 anos, admitia não compreender bem. A decisão sinaliza que a Berkshire sob nova gestão não pretende ficar de fora da maior corrida tecnológica da década.

Essa combinação de Taylor Morrison e Alphabet resume a estratégia: manter a disciplina de investimento em valor que construiu o conglomerado, mas adicionar exposição a tecnologia de ponta. Como acompanhamos na cobertura de mercados financeiros, essa dualidade entre valor e crescimento é o dilema central de grandes alocadores hoje.

Por que a Alphabet virou a terceira maior posição

A escolha da Alphabet não é aleatória. A empresa negocia a múltiplos mais baixos que a maioria das big techs, distribui dividendos desde o ano passado e tem a infraestrutura de nuvem e dados que sustenta seu programa de IA. É, em essência, uma ação de valor disfarçada de ação de crescimento.

Para a Berkshire, que historicamente evitou tecnologia até a famosa posição em Apple iniciada em 2016, ter a Alphabet como terceira maior posição é uma mudança estrutural. O avanço da inteligência artificial nos mercados transformou empresas como Google, Microsoft e Meta em apostas quase obrigatórias para quem administra centenas de bilhões.

Abel parece entender que o perfil dos ativos disponíveis mudou. Ferrovias, seguradoras e utilities continuam no radar, mas a geração de valor marginal vem cada vez mais de empresas com vantagens competitivas em IA, dados e computação em nuvem.

Delta Air Lines e a tese de consumo resiliente

A ampliação da posição em Delta é igualmente instrutiva. Buffett ficou famoso por vender toda a carteira de companhias aéreas durante a pandemia, uma decisão que ele próprio classificou como erro de timing. Abel, ao reconstruir a exposição ao setor, escolheu a companhia com a melhor margem operacional entre as grandes americanas.

A Delta vem se diferenciando por sua estratégia premium, com foco em passageiros corporativos e de alta renda. Em um cenário de desaceleração econômica moderada, como projetam os dados mais recentes da economia americana, esse posicionamento oferece proteção relativa contra queda de demanda.

Com US$ 5,37 bilhões na posição, a Berkshire se tornou uma das maiores acionistas da companhia aérea. É uma aposta de convicção, não de diversificação. O movimento reforça uma tendência que temos acompanhado: grandes gestores voltando a olhar para setores cíclicos com fundamentos sólidos.

O que muda para o investidor com a Berkshire de Abel

Para quem acompanha a Berkshire como termômetro do mercado, a mensagem é clara. O conglomerado passou de acumulador de caixa para comprador ativo. A reserva caiu US$ 31,5 bilhões em um trimestre, de US$ 397 bilhões para US$ 365,5 bilhões. Se Abel mantiver esse ritmo, o caixa pode encolher significativamente nos próximos trimestres.

Isso importa porque a Berkshire funciona como um sinalizador para o mercado. Quando Buffett comprava, investidores de varejo e institucionais prestavam atenção. Abel herda essa influência, e suas escolhas sugerem que ele vê oportunidades em dois eixos: empresas tradicionais subvalorizadas e big techs com exposição a IA a preços razoáveis.

Resta saber se Abel terá a mesma disciplina para vender quando os preços ficarem irracionais. Buffett sempre disse que a parte mais difícil do investimento não é comprar. É saber quando parar. Com US$ 365 bilhões ainda no banco, Abel tem munição de sobra para testar sua própria versão dessa disciplina.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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