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AstraZeneca quer comprar Bristol-Myers: por que o mercado não aprova

A fusão criaria uma gigante de US$ 400 bilhões, mas sobreposição em oncologia, riscos antitruste e momento operacional oposto derrubam ações da AstraZeneca 7%.

AstraZeneca quer comprar Bristol-Myers: por que o mercado não aprova
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

A AstraZeneca está em negociações para adquirir a americana Bristol-Myers Squibb (BMS), segundo reportagem do Financial Times. Se concretizada, a transação uniria duas das maiores farmacêuticas do planeta, criando uma companhia com valor de mercado próximo de US$ 400 bilhões e presença dominante tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido.

Mas o mercado reagiu com ceticismo. As ações da AstraZeneca recuaram 7% na bolsa de Londres logo após o anúncio das negociações, enquanto os papéis da BMS subiram 3% no pré-mercado de Nova York. A divergência diz muito sobre quem ganha e quem perde nessa equação.

Por que os investidores da AstraZeneca estão vendendo

O principal problema está na sobreposição de portfólios. Ambas as empresas competem diretamente no segmento de oncologia, o mais lucrativo da indústria farmacêutica global. O Opdivo, da BMS, e o Imfinzi, da AstraZeneca, atuam no tratamento do mesmo tipo de câncer de pulmão, o que reduz as sinergias potenciais de uma fusão.

Segundo analistas da BMO Capital Markets, essa sobreposição tornaria difícil justificar o prêmio de aquisição. Em fusões farmacêuticas, o valor costuma estar na complementaridade de pipelines. Quando dois portfólios se sobrepõem, o resultado tende a ser canibalização interna, não crescimento acelerado.

Há ainda a questão do momento operacional. Enquanto a AstraZeneca projeta crescimento de lucros acima de 10% ao ano nos próximos cinco anos, a BMS caminha na direção oposta. Analistas do Mizuho estimam que os lucros da americana podem encolher ao longo do restante da década, pressionados pela perda de patentes importantes.

O peso das patentes que vencem

A Bristol-Myers enfrenta um desafio estrutural que todo investidor de farmacêuticas no mercado financeiro conhece bem: o chamado “patent cliff”, quando medicamentos blockbuster perdem exclusividade e abrem espaço para genéricos.

Duas das principais drogas da BMS estão nessa situação. O Opdivo, seu carro-chefe em oncologia, e o Eliquis, anticoagulante que figura entre os medicamentos mais vendidos do mundo, terão suas patentes expiradas nos próximos anos. Juntos, esses dois produtos representam uma fatia substancial da receita da companhia.

Além disso, a aquisição da biotech Celgene por US$ 74 bilhões em 2019 nunca entregou o retorno esperado. A operação foi uma das maiores da história do setor farmacêutico e, até hoje, é vista pelo mercado como um caso de destruição de valor ao acionista.

É verdade que o último trimestre da BMS trouxe números fortes. A empresa reportou receita recorde de US$ 13 bilhões, puxada por produtos recém-lançados como o Opdualag (melanoma), o Camzyos (insuficiência cardíaca) e o Breyanzi (linfoma). Mas esses novos medicamentos ainda precisam provar que conseguem compensar a erosão de receita dos blockbusters que perdem proteção patentária.

A ambição de Pascal Soriot e o plano de US$ 80 bilhões

Para entender a lógica por trás da negociação, é preciso olhar para a trajetória recente da AstraZeneca sob o comando do CEO Pascal Soriot. Quando assumiu em 2012, Soriot enfrentou uma tentativa de aquisição hostil pela Pfizer, que ele rejeitou. A decisão foi controversa na época, mas se provou acertada.

Sob sua liderança, a empresa reposicionou seu foco em oncologia e imunologia, segmentos que impulsionaram o faturamento de forma consistente. No último ano fiscal, a AstraZeneca registrou vendas de US$ 58,7 bilhões, com metade desse valor vindo dos Estados Unidos. A meta declarada é chegar a US$ 80 bilhões anuais até 2030.

A companhia também concluiu recentemente sua listagem direta na NYSE, reforçando a aproximação com o mercado americano. Em 2021, adquiriu a biotech Alexion por US$ 39 bilhões, expandindo sua atuação para doenças raras. E agora prepara sua entrada no mercado de medicamentos para emagrecimento, segmento que transformou a indústria farmacêutica nos últimos anos com o sucesso de drogas como o Ozempic.

A compra da BMS seria o movimento mais ousado dessa estratégia de expansão. A AstraZeneca vale atualmente cerca de £ 181 bilhões na bolsa de Londres. A BMS é avaliada em US$ 133 bilhões.

Riscos antitruste e geopolítica entram na conta

Mesmo que ambas as partes cheguem a um acordo sobre preço, a operação enfrentaria escrutínio regulatório significativo. A sobreposição em oncologia praticamente garante que autoridades concorrenciais nos EUA, na Europa e no Reino Unido examinariam o negócio com lupa.

Há um componente geopolítico adicional. O Reino Unido tem demonstrado interesse crescente em reter suas grandes empresas, especialmente após o Brexit. A possibilidade de a AstraZeneca, uma das maiores companhias britânicas, transferir seu centro de gravidade para os EUA não seria bem recebida em Londres.

Do outro lado do Atlântico, o ambiente regulatório americano permanece imprevisível. A postura do governo Trump em relação a grandes fusões internacionais adiciona uma camada extra de incerteza para qualquer transação dessa magnitude.

O que essa fusão significa para o investidor

A reação do mercado ao primeiro sinal dessas negociações revela um ponto importante: investidores estão dispostos a pagar um prêmio pelo crescimento orgânico da AstraZeneca, mas não querem ver esse valor diluído pela aquisição de uma empresa em desaceleração.

A queda de 7% nas ações da AstraZeneca equivale a uma destruição de mais de US$ 15 bilhões em valor de mercado em um único dia. É o mercado precificando que os riscos superam os benefícios potenciais.

Historicamente, megafusões na indústria farmacêutica têm um histórico misto. A própria aquisição da Celgene pela BMS serve como alerta recente. Para os acionistas da AstraZeneca, a melhor notícia talvez seja que os termos do negócio ainda não foram definidos e que a probabilidade de conclusão permanece incerta.

Se a história serve de guia, a pressão dos investidores pode ser suficiente para forçar a AstraZeneca a recuar ou, no mínimo, a negociar condições que protejam melhor o valor de seus acionistas.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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